As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de agosto

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Curso de História da Arte 2017




O Cursinho da Poli promove um curso de História da Arte, que será ministrado pelo professor Elias Feitosa. Os encontros vão acontecer aos sábados no período de 9/9 a 20/10, das 12h30 às 13h50, na unidade Lapa.
A atividade vai trabalhar com análise de imagens e contexto da produção, apresentando conceitos e características das obras de arte. Além de visitas monitoradas a museus(MASP, Pinacoteca e MAC) e ao Centro Histórico de SP.
O curso dá a oportunidade para o estudante assumir reflexões interdisciplinares importantes para Artes e Linguagens e para outras áreas do conhecimento. Além de desenvolver linhas de argumentação para a redação. O objetivo é preparar os candidatos de Artes Visuais para as provas específicas da carreira - com ênfase no Enem, Fuvest, Unicamp e Unesp - que envolvem questões dissertativas sobre conteúdos da História da Arte.
Voltado para alunos e não alunos, o investimento é de R$ 70,00, com possibilidades de parcelamento.
As inscrições podem ser feitas na Secretaria de Alunos. Vagas limitadas!
Serviço:
Data: 09 de setembro a 20 de outubro (aos sábados).
Horário: das 12h30 às 13h50
Local:  Unidade Lapa: Av. Ermano Marchetti, 576 – Água Branca, São Paulo (SP)
Mais informações: (11) 2145-7654

sábado, 8 de julho de 2017

Racismo e violência: a trilha da Ku Klux Klan no filme "Mississipi em chamas"




O filme de Alan Parker apresenta as sutilezas de uma sociedade racista, em que negros vivem sujeitos a uma série de atrocidades, como por exemplo, tendo direito a voto, mas não sendo esclarecidos ou estimulados a se organizarem para exigirem seus direitos. Neste ambiente de segregação legitimada pelas leis locais, evitam contribuir com os investigadores que se propõem a quebrar o status quo, do qual faz parte o poder local (xerife, juiz, prefeito, ), muitos deles integrantes da Ku Klux Klan, grupo extremista branco que defendia a supremacia branca que se sustentava no ideal "WASP": White, Anglo-Saxon and Protestant, ou “Branca, Anglo-Saxã e Protestante, acompanhado de métodos terroristas.
Deve-se perceber como o discurso discriminatório, que visualiza os negros como seres "inferiores", indignos de qualquer respeito à dignidade humana, manifestava-se arraigado na população branca como um todo, como dissera a personagem Mrs. Pell ao agente Anderson: "o ódio lhes é ensinado cotidianamente. Gênesis 9:27". A citação desta passagem bíblica é uma alusão ao momento que Noé amaldiçoa e expulsa seu filho Cam, cujos descendentes, representando a África seriam escravos dos descendentes de seus irmãos Sem (o "pai" dos asiáticos) e Jafé (quem "originou" os europeus) numa peculiar interpretação que naturalizava e justificava a escravidão. 
O ambiente de opressão e terror pode ser identificado quando perseguem um jovem negro pelo simples fato de ter conversado com os agentes do FBI ou mesmo quando seu irmão mais novo tenta romper o silêncio mantido sob ameaças, e é desautorizado pelo pai, que era pastor, que temia a vingança dos membros da Klan. 
A chegada dos investigadores do FBI pode ser entendida como um exemplo da tensão política daquele contexto, pois eram agentes desestabilizadores e estimuladores da mudança de paradigma, um embate claro entre o Governo Federal e os interesses da política local, onde a segregação era preservada num ambiente de tensão e terror, que desestimulava as queixas e qualquer tipo de intervenção – lembrando que as leis de segregação tinham sido construídas dentro do amparo do federalismo e deveriam servir para reafirmar os "valores do Sul", derrotados em 1865.
No entanto, entre os próprios agentes federais havia uma significativa tensão: ordem versus realidade, respectivamente, os agentes Ward e Anderson: o primeiro representa o cumprimento estrito do regulamento para a aplicação da justiça quase como se fosse um cavaleiro medieval, enquanto o segundo, já se coloca com a vivência de ser um sulista de uma pequena cidade do Mississipi, que também fora xerife, conhecendo os meandros daquele universo cultural repleto de segredos. Outra discussão posta em evidência é o fato de serem policiais brancos que vão salvar os negros, os quais estariam aparentemente num estado de passividade.
Se levantarmos a hipótese de que, naquele contexto tenso, seria muito complicado destacar agentes negros para resolver um crime que envolvia um pesado sentimento de ódio numa região historicamente racista, pode-se pensar que a dupla de agentes não estaria ali apenas como um dado do roteiro que reiteraria o racismo, mas como parte de uma estratégia plausível para uma questão tão delicada. No entanto, cabe destacar que os métodos de investigação inicialmente adotados pelos agentes federais, não conseguiram  ser eficientes e aí, a voz de Anderson, com sua vivência e experiência de "nativo sulista" acompanhada da ausência de escrúpulos provocou a virada para o desfecho da investigação com a anuência do agente Ward e assim, a ordem teve que ceder um pouco de espaço para a desordem e nessa composição, os resultados foram proveitosos.
A narrativa do filme percorre um ciclo de grandes tensões e dores, porém apresenta uma fotografia e sonoridade de grande arrebatamento ao longo de diferentes tomadas, com destaque ao spiritual, gênero que nasceu com as cantigas de escravos nas lavouras, se tornou referência para o louvor cristão das igrejas dos negros e concomitantemente, base do soul e do blues e posteriormente, da batida do rock in roll nas décadas de 1950-60.
Vale destacar a poética circunstância que ata a primeira e a última cena do filme: no início do filme, um branco e um negro tomam água em bebedouros separados e ao fim do filme, brancos e negros rezam juntos numa igreja que fora destruída e aí talvez esteja a chave para o início da solução do problema do racismo: somos todos seres humanos, sem distinção!

Os lichamentos











As raízes da tensão "Sul X Norte"


O embate político e econômico entre norte e sul recebeu um destaque maior com a eleição dos representantes no Congresso para as novas áreas, pois o sul pretendia expandir a escravidão para o oeste, enquanto o norte pretendia ampliar as regiões com trabalho livre. A solução seria alcançada quando um dos grupos políticos obtivesse o controle do governo e a maioria no Congresso com seu partido.
As eleições de 1860 foram vencidas pelo republicano Abraham Lincoln, fato que representou uma ameaça para os interesses do sul. Devido a isso, 11 estados escravocratas do sul romperam com o governo de Lincoln e declararam independência, criando a República dos Estados Confederados da América, tendo a cidade de Richmond (Virgínia) como capital e Jefferson Davis como presidente.
O conflito contou inicialmente com vitórias dos confederados que se encontravam sob a liderança do general Lee, mas o norte, cujas forças eram lideradas pelo general Grant (que depois foi presidente dos EUA entre 1869 e 1877), controlava a indústria bélica e também a maior parte da Marinha, de modo que a União impôs um bloqueio aos portos confederados, dificultando a exportação de seus produtos (algodão e tabaco) e cortando seu abastecimento de material bélico e outros gêneros pelo exterior.


Bandeira dos Confederados


As dificuldades de abastecimento e a superioridade do exército da União reverteram a guerra. Pensando em encerrar o conflito o quanto antes, Lincoln aboliu a escravidão em todo o país em 1863(assinou um decreto de acordo com seus poderes extraordinários durante o contexto da guerra), mas a guerra só terminou em 1865, quando as tropas confederadas capitulavam em Appomattox. Os resultados foram a devastação das terras do sul, 600 000 mortos e a consolidação da hegemonia do norte sobre todo o país. Em janeiro de 1865, o Congresso dos EUA aprovou com uma margem de apenas 02 votos a 13ª Emenda à Constituição, que extinguiu em definitivo a escravidão em todo o país. No entanto, Lincoln não pôde comemorar a vitória, pois foi assassinado pelo sulista John Wilkes Booth quando assistia a uma peça no Ford Theater, em Washington, em 14 de abril de 1865, tornando-se uma espécie de mártir da defesa da nação e tendo posteriormente recebido um memorial em Washington, inaugurado em 1922. 

A resistência silenciosa e radical



Apesar da derrota, o ideal racista não desapareceu. Organizou-se a Ku Klux Klan (derivado do grego kuklos, que significa círculo, e assim temos “o clã do círculo”, cujos integrantes usavam uma túnica com o desenho da cruz celta, uma cruz dentro de um círculoum movimento formado por ex-oficiais confederados e outros que não aceitavam a integração dos negros à sociedade estadunidense, que se valeu de todo tipo de crime (espancamento, estupro, assassinato, incêndios e sequestros) para instaurar um clima de terror entre negros, mestiços e simpatizantes da causa negra.

A herança do ideal dos Confederados


No período de reconstrução do país, intensificou-se a industrialização, favorecendo a continuidade da expansão territorial graças também ao grande contingente de imigrantes. Em pouco tempo, a extensão do parque industrial, fruto da ênfase do governo na ampliação das fábricas e na exploração dos diferentes recursos naturais, bem como a implantação de ferrovias e portos abriram caminho para os EUA se consolidarem como potência regional e, depois de 1914, mundial, ocupando gradativamente o lugar da antiga metrópole, a Grã-Bretanha.
Os negros precisaram esperar mais um século para ter igualdade de direitos com os brancos, e não foi um processo pacífico. Nos estados sulistas, havia um violento sistema de segregação racial: negros não podiam frequentar os mesmos lugares que os brancos (escolas, transporte coletivo, praias, banheiros etc.) e essa situação só começou a ser combatida nos governos de John Fitzgerald Kennedy (1961-1963) e Lyndon Johnson (1963-1968), sob uma intensa pressão do movimento negro, que viu assassinados líderes como Malcom X (1965) e Martin Luther King (1968), respectivamente à esquerda e à direita.


A luta pela igualdade avançou em diferentes frentes, inclusive com a movimentação que quase se direcionou ao enfrentamento armado com os Black Pathers em grandes centros urbanos como Chicago e Nova York. A agenda altamente politizada não só pela causa dos negros, mas pelas relações com o marxismo levaram à perseguição por parte do FBI, entre 1968 e 1980, provocando sua gradativa desmobilização.
O protesto político nas Olimpíadas de 1968, no México: Tommie Smith e John Carlos, medalhistas dos EUA, celebrando com o sinal do "punho cerrado", a marca dos Black Panthers.


A filósofa Angela Davis: intelectual integrante dos Black Panthers e do Partido Comunista dos EUA, foi perseguida e presa em 1970, hoje atua como uma das mais importantes referências do pensamento feminista contemporâneo.


A ascensão de significativa relevância só se deu ao final do governo Bush(2001-2008) foi marcado pela tentativa de superar a crise financeira e social, buscando conservar os republicanos no poder com o candidato John McCain, mas o candidato democrata Barack Obama venceu as eleições de 2009 representando um novo momento da história dos EUA: foi o primeiro afro-descendente a ser eleito presidente da República e sua perspectiva foi restabelecer o equilíbrio social e econômico dos EUA.
Mesmo depois de tantas lutas e dificuldades, a sociedade estadunidense ainda convive com o racismo. Mesmo estando hoje atenuado, ele subjaz aos ditos “valores nacionais”, que procuram excluir também os imigrantes – ilegais ou legais – de várias origens que vivem no país. Ao mesmo tempo, os EUA ainda continuam querendo ser reconhecidos pelo mundo como “a terra das oportunidades”, fato que pode ser rompido em graus bastante profundos com a eleição do republicano Donald Trump(2017-2020) e as projeções que se colocam no horizonte infelizmente não apontam para um progresso, porém, nos cabe acompanhar com bastante atenção.

Sugestão do Gabinete:

Mississipi em chamas. Direção Alan Parker, 1989, 128 min:


Marcha das Mulheres 2017 


domingo, 25 de junho de 2017

O Ocidente medieval

REINOS GERMÂNICOS

Com a decadência de Roma, as tribos germânicas que viviam além do limites do Império passaram a cruzar as fronteiras em pequenas expedições de saque e pilhagem. O exército romano mostrou-se incapaz de perseguir os bárbaros que se esconderam nas florestas, e passou, então, a contratar chefes de tribos germânicas amigas para patrulhar as fronteiras contra outros povos bárbaros. Esse acordo celebrado entre Roma e as tribos bárbaras recebeu o nome de Foedus e daí as tribos que se associavam aos romanos passavam a ser chamadas de federados.
Originários da Ásia central, os hunos sempre viveram em tribos independentes e em constantes lutas internas. Unificados por Átila, atravessaram boa parte da Ásia e da Europa em busca das riquezas do Império Romano. Chegando aos limites de Roma, provocaram uma debandada geral das tribos germânicas, desorganizando ainda mais o já combalido Império.
As tribos bárbaras lutaram incessantemente entre si e devastaram todas as terras. A insegurança fez que a população fugisse das cidades, que eram o alvo preferido dos invasores, e procurasse abrigo no campo, sob a proteção de um patrício ou general poderoso, uma vez que este possuía um exército próprio para proteger-se em suas Villae (o latifúndio romano)

A larga convivência entre bárbaros e romanos fez que os primeiros assimilassem vários costumes dos últimos. A maior prova disso foi o fato de que os bárbaros gradativamente substituíram a tradicional organização tribal por algo que se aproximasse daquilo que viram funcionar no mundo ocidental romanizado.

Ao longo dos séculos V-VI , pode-se assinalar alguns reinos germânicos com razoável precisão:

·       Reino dos Francos, na atual França. Foi o mais poderoso de todos os reinos bárbaros, destacando-se as dinastias merovíngia e carolíngia, que serão mais detalhadas adiante.
·       Reino dos Visigodos, no território da Península Ibérica;
·       Reino dos Vândalos, que ocupava o norte da África;
·       Reino dos Lombardos, situado ao norte da Península Itálica.
·       Reino dos Saxões, na ilha da Bretanha, atual Inglaterra.

Os Reinos germânicos - Séc. VI Fonte: Wikipedia 


A Igreja cristã, cujo poder era hegemônico em Roma, procurou apoio nos chefes bárbaros como forma de conseguir alguma proteção para a outrora capital do mundo. Diante do poder militar conquistado pelos francos frente a outras tribos bárbaras e da conversão ao cristianismo de seu rei, Clóvis, o bispo de Roma foi pessoalmente à Gália batizar o rei dos francos (496). A monarquia franca afirmava ser descendente de um herói mitológico de nome Meroveu, daí, o fato de posteriormente serem chamados de merovíngios.

"Aqui Saint-Remi batizou Clóvis " - Catedral de Notre-Dame de Reims
Crédito: Elias Feitosa


Durante o governo de Clóvis, o Reino Franco ampliou suas fronteiras, dominando terras em toda a Gália. Com a morte do líder, ficou colocado o problema da dupla herança cultural dos francos. Enquanto a tradição germânica determinava que todos os bens fossem divididos igualmente entre os herdeiros, a romana entregava toda a herança ao filho mais velho. Clóvis preferiu seguir a tradição germânica, dividindo, assim, o reino entre seus quatro filhos. Entretanto, seus sucessores não tiveram a mesma habilidade e disposição política do pai, e mereceram ficar conhecidos como reis indolentes.

Paulatinamente, os soberanos merovíngios foram perdendo o poder para nobres subalternos, que se aproveitaram da carência de autoridade dos reis para se impor. Esses nobres eram os major domus, também chamados de prefeitos do palácio. Tais prefeitos passaram a governar efetivamente os reinos francos, exercendo o poder de fato, enquanto os reis detinham o poder de direito. Pepino de Heristal conseguiu consolidar a unificação dos reinos francos, entregando-os a seu filho, Carlos Martel. Este último foi o responsável pela interrupção da expansão muçulmana na Europa, vencendo os islâmicos na Batalha de Poitiers (732).

O IMPÉRIO CAROLÍNGIO

Pepino, o Breve, filho de Carlos Martel, depôs Childerico III, o último rei merovíngio e, com o apoio do Papa Zacarias, fez-se coroar novo rei dos francos, dando início a uma nova dinastia.
Pepino confirmou os questionáveis acordos e doações de Constantino à Igreja. Segundo esses acordos, o título de imperador pertenceria ao papado. Por essa proximidade com o cristianismo e por defender a Igreja de um ataque dos lombardos, Pepino recebeu o título de patrício. Também foi o responsável por conceder uma série de terras na Península Itálica que formaram o Patrimônio de São Pedro.

Porém, com a morte de Pepino, ocorreu uma nova disputa pelo trono e consequente divisão das terras entre seus filhos, Carlos e Carlomano, e recomeçaram as lutas internas. Com a morte de Carlomano em 771, Carlos Magno, como ficaria conhecido, reunificou o reino e, atendendo a um pedido do Papa, realizou novos ataques aos lombardos que ameaçavam Roma, entregou a região de Ravena ao Papa e, assim, o Patrimônio de São Pedro estava protegido. Mais uma vez, confirmou as doações de Constantino e de Pepino, O Breve.

Nunca um chefe bárbaro esteve tão próximo da Igreja. No dia de Natal do ano 800, durante uma missa celebrada pelo próprio Papa Leão III, Carlos Magno foi coroado Imperador Romano dos Francos. Não se pode esquecer de que o Império Bizantino continuava vivo em Constantinopla e seu imperador, Miguel I, não aceitou a ideia de que um bárbaro envergasse a púrpura imperial. Para ser reconhecido pelo soberano oriental, Carlos Magno entregou a ele os domínios da Dalmácia e Ístria.
Para melhor administrar os territórios que compunham o reino dos francos, Carlos Magno dividiu-o em ducados (terras cedidas a um amigo do rei, o Duque), condados (governados por um conde que devia obediência ao rei), marcas (em regiões fronteiriças governadas pelo marquês), e criou os missi dominici (os olhos e ouvidos do rei). Estes últimos fiscalizavam todo o Império Franco e garantiam que os interesses do rei não fossem lesados.

O tesouro de Carlos Magno - Palácio de Aachen, Alemanha.
Crédito: Elias Feitosa


O sucessor direto de Carlos Magno foi Luís, o Piedoso, que governou até 841 e apenas procurou manter aquilo que seu pai havia conquistado. Luís legou o império a seus três filhos. Lotário, o mais velho, pretendeu ser o único imperador, valendo-se das tradições romanas que garantiam poder ao primogênito, mas teve de enfrentar seus dois irmãos, que reivindicavam os costumes germânicos e lhe impuseram o Tratado de Verdun (ano 843), que dividia o império em três partes:


  • Carlos, o Calvo, ficou com a Francia Ocidental;
  • Luís, o Germânico, ficou com a Francia Oriental;
  • Lotário ficou com uma faixa de terra entre as duas partes (a Lotaríngia) e o título de Imperador.


Com a partilha do Império, a Francia Ocidental começou um lento processo de fragmentação sob Carlos, o Calvo, e seus descendentes. Luís, o Gago, e Carlos, o Simples, viram o poder passar lentamente às mãos dos condes, que já não prestavam homenagem (fidelidade militar) ao imperador e que, naquele momento, transmitiam a seus filhos o governo dos feudos. O poder real (ou imperial) submergiu na fragmentação do feudalismo.

Na Francia Oriental, Luís, o Germânico, enfrentou forte oposição dos grandes senhores da Saxônia e, em seu leito de morte, recomendou a seu filho que entregasse a coroa ao poderoso Duque de Saxônia, Henrique. Com a morte de Lotário, suas terras foram anexadas por seus irmãos. 
Os descendentes de Henrique governaram a Francia Oriental dando origem à Dinastia Otônida e ao Sacro Império Romano Germânico, fundado por Oto I, denominado Sacro Império Romano Germânico, o I Reich (Império na língua alemã) que existiu até 1806.

O FEUDALISMO

O feudalismo é classicamente definido como um sistema composto de relações econômicas e sociais servis, descentralização administrativa e fidelidade política e militar entre nobres.
Neste sistema de relação homem a homem, um nobre doador de terras (beneficium), que era chamado de Suserano, comprometia-se a dar proteção a um outro nobre, o recebedor de terras, sendo considerado Vassalo do primeiro. Este último, em troca das terras recebidas, comprometia-se a prestar uma série de serviços ao seu suserano, a maior parte deles de caráter militar. Sem dúvida, o mais importante deles era o juramento de fidelidade absoluta e indissolúvel quando houvesse a necessidade de formar um exército.

O feudalismo era um sistema complexo, por vezes conflitante. Formou-se na Europa Ocidental entre os séculos VIII e XI da Era Cristã, como resultado da ruralização e da insegurança provocadas pelas invasões: os normandos (vindos do norte), os muçulmanos (vindos do sul), os húngaros e eslavos (vindos do leste) e pela já existe fusão de costumes romanos e bárbaros (germânicos) desde o século V. A ruralização e a insegurança provocadas por essas invasões terminaram por afastar as comunidades dos centros urbanos, dando origem aos feudos.

A contribuição romana se deu pela prática do trabalho servil. A servidão originou-se do colonato, exercício de trabalho semilivre que se espalhou pela zona rural romana em virtude da crise do escravismo e do encarecimento decorrente da escassez da oferta de escravos. Por outro lado, com a insegurança e as crises sucessivas, muitos romanos poderosos passaram a se refugiar em suas villaes, protegidos por uma guarda pessoal. Plebeus fugidos das cidades ofereciam-se como colonos, na busca da proteção, abrindo mão de sua liberdade em troca da permissão para produzir e viver nas terras daquele senhor. Finalmente, acabavam se transformando em servos da gleba, e é esse processo que aponta no sentido da ruralização da Europa ocidental.

Já os bandos guerreiros germânicos introduziram o costume do Comitatus, que era uma relação de amizade e troca de presentes entre um chefe tribal e seus homens de confiança. O maior símbolo dessa relação era a homenagem, na qual os homens juravam fidelidade absoluta ao seu superior.

Uma vez que o suserano era, por definição, aquele que doava terras, evidentemente todo vassalo que doava uma porção de terra tornava-se também suserano. Quanto ao rei, ele era considerado o suserano de todos os suseranos, com o direito de gozar seus privilégios em todos os feudos se assim desejasse. A fragmentação do poder político e a ruralização propiciaram um processo de organização de várias alianças entre os senhores feudais, criando uma teia de vínculos de dependência, que unia os senhores mais poderosos e seus vassalos e dessa forma , o poder local era muito mais forte que o poder central, já que o rei detinha o poder de direito, mas os senhores feudais detinham o poder de fato.

Outro elemento que ajuda a visualizar a autonomia dos feudos é o fato de que as leis escritas da época romana foram, aos poucos, sendo obrigadas a conviver com a tradição oral dos germânicos (direito consuetudinário), isso quando a tradição e os costumes não substituíram completamente o direito escrito.

Essa estrutura nobiliárquica feudal, entretanto, não levou em conta o aumento da população, bem como o número finito de divisões que uma propriedade suportaria, levando em conta a sua capacidade de produção. Dessa forma, a fome era uma dura realidade em grande parte dos feudos e quando havia algum excedente, os senhores procuravam trocar ou comercializar com outros territórios.Os senhores feudais, impossibilitados de dividir suas terras entre seus filhos, passaram a transmitir todos os seus bens ao filho mais velho, dando aos mais novos tão somente as armas para que pudessem exercer a função de cavaleiro. Os demais filhos saíam, então, à procura de guerras que lhes garantiriam um feudo ou mesmo um lugar na corte de um nobre qualquer.
A cavalaria desenvolveu um código de ética profundamente rígido, no qual eram intocáveis princípios como a honra, a lealdade e o da defesa incondicional do cristianismo. Como cavaleiros andantes, esses nobres vagavam por toda a Europa, oferecendo seus serviços a todos os reis, condes, duques e marqueses envolvidos em disputas locais. Tais disputas tornaram-se tão frequentes e sangrentas que a Igreja foi obrigada a impor a Trégua de Deus, limitando os dias da semana em que poderia haver combates.

As três ordens da sociedade feudal: " uns rezam, outros lutam e os demais trabalham", respectivamente da esquerda para a direita.
Fonte: British Library 


A sociedade feudal era estamental, ou seja, não havia mobilidade social, salvo em situações muito particulares. De maneira geral, pode-se dizer que as camadas sociais resumiam-se da seguinte forma: clero, nobreza e servos.
Sustentando praticamente todos os demais segmentos sociais, estavam os servos, famílias inteiras de pequenos agricultores que pagavam uma infinidade de contribuições para que o nobre lhes permitisse continuar no feudo.

Não se deve esquecer de que a moeda raramente era utilizada na Idade Média e, portanto, essas obrigações eram pagas com gêneros alimentícios ou trabalhos no castelo do senhor feudal. Entre as obrigações servis, pode-se destacar:

  •  Corveia : trabalho compulsório nas terras do senhor. Além desse, havia os dias trabalhados na terra do senhor de forma gratuita;
  • Capitação: taxa paga pelo servo que correspondia a cada membro da família;
  • Talha: pagamento de parte da produção do servo e do vilão aos nobres;
  • Banalidades: pagamento de presentes obrigatórios ao senhor e taxas diversas pelo uso das instalações do senhor;
  • Formariage: pagamento ao senhor pela permissão de casar, em alguns lugares envolvia a entrega da noiva para passar as núpcias com o senhor . 
  • Mão morta: para entrar em posse de heranças, ou ainda para permanecer no feudo em caso de morte do chefe da família;
  • Tostão de Pedro: cobrado em épocas especiais e era pago diretamente à Igreja para o envio deste ao Papa, sendo uma taxa distinta do dízimo.
           
A economia feudal baseava-se na agricultura, quase sempre voltada para a subsistência, quando a fertilidade do solo e as adversidades do clima permitiam. Na maioria dos casos, não havia produção de excedente e o comércio de longa distância praticamente desapareceu, existindo, porém, um sistema de trocas comerciais diretamente com os próprios produtos, quanto às técnicas de cultivo e produção, estas permaneceram inalteradas, com processos extremamente rudimentares.

Apenas na virada do primeiro milênio algumas modificações significativas foram introduzidas. Uma delas foi a substituição do rodízio de cultivo bienal (a cada dois anos) pelo plantio trienal (a cada três anos), com a adoção do campo de pousio, permitindo o descanso da área cultivável, além do uso do arado de metal e do estribo e a mudança dos arreios na montaria, instrumentos que favoreceram uma melhor aragem do solo, bem como uma melhor condição para o desempenho da tração pelo animal, pois com os arreios ajustados no dorso, a divisão de peso era mais eficiente, favorecendo uma melhor utilização do animal durante o trabalho.
A maioria dos feudos europeus era semelhante no que se refere aos aspectos físicos. Havia um castelo, residência do nobre e seus familiares – geralmente, a única casa de pedra de grandes proporções em todo o feudo. Com o aumento da ameaça de invasões, o século XI produziu os primeiros castelos medievais fortificados, construídos integralmente de pedra.
Próxima ao castelo, estava a igreja, estabelecendo a presença do poder papal no feudo. Os padres eram filhos de servos que foram entregues à Igreja para seguir a vida religiosa, comumente, tinham uma precária formação religiosa e intelectual.
Um pouco mais adiante, estava a aldeia, onde havia as cabanas das famílias de servos, bem como o forno e o moinho, pertencentes ao senhor, mas que poderiam ser utilizados desde que uma taxa especial fosse paga (banalidade).

"Livro de Horas do Duque de Berry" - o mês de Junho: a colheita de verão nos campos que se estendiam pelo território extramuros.


Não muito distante estava a área cultivável, chamada de domínios. Os servos deveriam trabalhar no manso senhorial como pagamento da corveia e, ainda, deveriam trabalhar no manso servil e entregar parte da produção, respeitando a taxa da talha. O manso servil era fracionado em lotes menores, chamados tenências, cada uma cuidada por uma família.Como os nobres poderiam possuir vários feudos, a administração só era possível com a presença local de um ministerial, vilão funcionário do senhor feudal e responsável por tudo, até a passagem deste. Ao contrário do que podemos imaginar, tal função não atraía o interesse dos moradores do feudo.

A Igreja Cristã sempre foi muito poderosa durante a predominância do feudalismo na Europa. O cristianismo era professado por todos os feudos. Mas é importante frisar que a reprodução desta religião misturava-se a uma infinidade de antigos costumes bárbaros.
A religião era utilizada como mecanismo de harmonização entre o poder dos nobres e a submissão forçada dos servos. Estes últimos deveriam acreditar que Deus teria estabelecido a função de cada um nessa vida e que não haveria mais diferenças sociais quando chegassem ao Paraíso. Por outro lado, os nobres acolhiam os servos em seus domínios partindo da ideia de que realizavam um ato divino: “uns rezam, outros lutam e os demais trabalham”.

A Igreja era a detinha o monopólio do saber, tornando-se a guardiã do conhecimento no intuito de preservar seus interesses e garantir sua posição como incontestável. Dessa forma, incentivou a produção cultural que favorecesse seus objetivos, principalmente a reafirmação de seus dogmas e a supremacia do papado.
Um dos principais centros de cultura durante a Alta Idade Média foram os mosteiros e abadias, como os mosteiros de Cluny e Císter, ambos localizados na França, os quais influenciaram  muitos outros .Nestes  locais realizavam-se estudos sobre a Bíblia, copia de textos em pergaminhos e livros como também sua decoração com iluminuras. Outro importante trabalho dos monges eram as traduções de textos dos pensadores da Antiguidade, como Aristóteles, Platão, Sócrates, entre outros.
A produção intelectual foi marcada inicialmente pela influência de Santo Agostinho (395-430), defensor do livre-arbítrio e das idéias de Platão, tendo originado o neoplatonismo (a fusão de valores cristãos com a doutrina platônica).

Igreja da Sé Patriarcal de Lisboa - séc. XII : "A Fortaleza de Deus"
Crédito: Elias Feitosa



A arquitetura entre os séculos IX e XII , denominada posteriormente, de românica representou o retrato daquele período, ou seja, de uma Europa rural, fechada e buscando proteção, pois as abadias, igrejas e mosteiros eram construídos como a "Fortaleza de Deus" , isto é, paredes espessas, janelas pequenas, ambiente escuro, seguindo os padrões de construção das antigas basílicas romanas, com a presença de arcos e colunas de inspiração greco-romana. No caso da Sé de Lisboa, sua arquitetura reflete o contexto da expulsão dos mouros em 1147, fazendo com que lembrasse um castelo, dotado de ameias nas torres, além de frestas para o posicionamento de arqueiros, na porção central das torres.