As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de novembro

domingo, 25 de dezembro de 2011

Freiras enclausuradas exibem presépio guardado há três séculos no Equador


Fonte: Folha de S.Paulo / DA EFE, EM QUITO

Guardado durante 306 anos entre os grossos muros do convento de clausura do Carmen Bajo de Quito, um presépio de cerca de 500 peças feitas no século 18 se transformou em uma das principais atrações na capital do Equador e pretexto para uma aproximação à vida contemplativa das carmelitas.


Presépio de cerca de 500 peças feitas no século 18 se transformou em uma das principais atrações na capital do Equador

As freiras carmelitas abriram as portas do convento ao público para que aprecie as figuras em uma sala dedicada completamente ao presépio natalino.
A cena que representa Herodes e suas dançarinas compreende bonecas de madeira com as quais brincavam as noviças que, no século 18, entravam muito cedo na ordem, segundo explica Lorena Albán, guia da exposição.

"As meninas de 13 ou 15 anos entravam como um dote que a família dava à igreja. Chegavam com suas bonecas de madeira e elas as vestiam", relatou.
No entanto, devido à austeridade exigida nas celas, as noviças não podiam ter consigo suas bonecas, por isso que passaram a fazer parte do presépio.

Além dessas bonecas e das peças em madeira da Escola Quiteña, de alto perfeccionismo, também aparecem figuras doadas de porcelana que destoam do conjunto.

O presépio encena a anunciação do arcanjo Gabriel à Virgem Maria, a visita de Maria a sua prima Isabel, o nascimento de Jesus, sua apresentação no templo e sua perda nesse mesmo templo anos depois.

Todas estas cenas são recriadas em diferentes regiões do Equador e oferecem uma mostra dos diferentes estilos arquitetônicos.
ROTINA DO CONVENTO


"Foi uma oportunidade para poder compartilhar todo este tesouro que nossas irmãs cuidaram em gerações passadas. Enche-nos de alegria que os demais possam apreciar toda esta habilidade", disse Raquel de Santa Teresita, 52, que superou sua timidez perante as câmeras da imprensa.

A religiosa, que passou 33 anos enclausurada, contou que o presépio "sempre esteve bem resguardado", mas a passagem do tempo e as traças o afetaram, e que uma restauração será necessária.



Jose Jácome - 23.dez.11/Efe
























Freiras carmelitas abriram as portas do convento ao público para que aprecie as figuras em sala dedicada ao presépio natalino
A visita de centenas de pessoas alterou a vida das 13 freiras, a mais nova de 18 anos e a mais velha com 91, pois abriram ao público parte do convento, construído no século 18 --embora tenham reservado o claustro para sua vida contemplativa.
Os visitantes podem apreciar o presépio que está em uma sala sobre uma pequena escadaria e coberto por um vidro, mas também puderam descobrir algo sobre o estilo de vida das freiras, graças a um percurso guiado.

Na saída dessa sala, um corredor emoldurado por grossos muros e arcos que deixam ver um pequeno jardim leva a um quarto.

Nessa fria cela se aprecia uma cama pequena, uma mesinha com a bíblia e outros livros, uma pequena jarra para a água do asseio, cilícios pendurados na parede e um manequim com a vestimenta tradicional das freiras carmelitas.
O percurso pelo silencioso convento continua, entre esculturas e quadros também do século 18, rumo ao coro alto.

As cores pastel usadas no mural do coro lembram os artistas do século 19 que pintaram a iniciação da ordem dos carmelos no século 7.
Do coro, que conta com um órgão italiano do século 19, que já não usam, se observa a igreja do Carmen Bajo, situada no centro histórico de Quito, catalogada como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

As religiosas também abriram ao público seu refeitório despojado de móveis e decorado com outro presépio elaborado há meio século em madeira e papel. Ali as freiras vendem produtos feitos por elas como escapulários, rosários, bolachas, cremes e águas para a limpeza facial.

O percurso também leva à entrada do cemitério onde se enterra as religiosas da ordem. "Cabe a frase que daqui nem morta me tiram", comentou a guia Lorena.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Reforma: questões sociais, políticas e econômicas no contexto de uma nova religiosidade que permearam o pensamento religioso



A ideia de “reforma” não era nova na Igreja Católica. Já fora defendida com sucesso pelos monges de Cluny, durante a Baixa Idade Média , culminando com a vitória dos reformistas sobre os simoníacos e a ascensão de Hildebrando, superior de Cluny que assumiu a tiara papal com o nome de Gregório VII.

            Mas a Igreja Católica ainda estava entorpecida pelo poder que dispunha em uma sociedade profundamente arraigada à religião. Cresciam as denúncias de abusos de poder, descaso com o sagrado, da vida mundana que levavam os membros do clero, além da prática de simonia (venda de cargos e de relíquias), levando boa parte da doutrina católica à desmoralização.

             O Cativeiro de Avignon (1377-1417), nome dado ao episódio em que o Papa Bonifácio VII foi aprisionado pelo rei Felipe IV e levado para a França, desmoralizou ainda mais o papado perante o povo, que se afastava cada vez mais da fé católica. Não se pode esquecer de que esses fatos não afastaram a população europeia do Cristianismo, o que pode ser testemunhado pelas numerosas demonstrações de fé nas heresias medievais que serviram de ligação entre Deus e a população abandonada pela Igreja.

            John Wiclif, inglês e professor em Oxford, lançou um movimento considerado herético pela cúpula da Igreja Católica, uma vez que combatia a centralização papal e propunha a diminuição da importância do clero. Além disso, defendia o confisco dos bens da Igreja e a adoção de votos de pobreza para todo o clero – prática comum entre os franciscanos. Wicliff foi condenado como herege e só não foi executado devido à proteção que recebeu da monarquia inglesa.

            John Huss, professor da Universidade de Praga, não teve tanta sorte. Iniciou junto aos seus alunos uma série de críticas à estrutura rígida da Igreja e acabou sendo chamado a Roma para retratar-se. Foi acusado de heresia e queimado vivo em 1415, ficando para a posteridade como um herói nacional da região da Boêmia (atual República Tcheca).

            Era nesse ambiente que apareciam diversas propostas que visavam a interpretar de maneira diferenciada o cristianismo. Como já foi dito, tais movimentos imaginavam ser possível reformar o catolicismo. O aparecimento de novas religiões foi fruto da própria intransigência da cúpula clerical e, em grande medida, do fato de existirem grupos políticos e econômicos fortes, dispostos a enfrentar o papado e arcar com as consequências de serem vistos pelos outros como hereges.

REFORMA NO SACRO IMPÉRIO GERMÂNICO

            No início do século XVI, o papado encontrava dificuldades para concluir a construção da Basílica de São Pedro e decidiu ampliar a venda de indulgências, com o objetivo de levantar recursos para a conclusão da obra.

            As Cartas de Indulgências eram documentos que poderiam ser adquiridos mediante um polpudo pagamento. Aquele que estivesse de posse de uma carta como essa estava liberado do cumprimento da confissão quando se apresentasse a um padre. A oficialização do comércio de um dos sacramentos incomodou profundamente os cristãos mais dedicados.
            A crise estourou no Sacro Império Romano Germânico, especificamente na Alemanha, país em que a Igreja Católica possuía nada mais do que um terço das terras férteis, o que despertava imensa insatisfação por parte dos nobres e comerciantes da região.

            Em 1517, Martinho Lutero, que era monge agostiniano e professor de teologia na Universidade de Wüttenberg, revoltou-se contra as indulgências, que, na Alemanha, eram vendidas pelo bispo Tetzel. Afixou na Catedral da cidade as chamadas 95 Teses contra a Igreja contra o papado e os dogmas da Igreja Católica:

Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.
18 Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19 Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.
20 Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
21 Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
22 Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
23 Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24 Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

           
A Igreja reagiu e, em 1520, enviou para Wüttenberg uma bula papal, exigindo a retratação de Lutero, que queimou o documento em praça pública. O reformista alemão foi excomungado pelo Papa Leão X, e foram dados os primeiros passos para que Lutero fosse preso e devidamente executado. Entretanto, a Igreja não conseguiu levar adiante o processo contra Lutero. O monge recebeu abrigo do Duque da Saxônia, que, representando a nobreza alemã, protegeu o professor com objetivos bastante ousados. Sob essa proteção, Lutero começou a elaborar uma nova doutrina religiosa.

            Durante esse período, Lutero lançou as bases de sua doutrina, traduzindo a Bíblia para o alemão e rejeitando a hierarquia religiosa, o culto de imagens e o celibato dos clérigos. Também defendia que a livre interpretação da Bíblia deveria ser o único dogma, enquanto a fé seria considerada a única fonte de salvação. A maioria dos sacramentos católicos foi extinta nessa nova religião, preservando-se apenas o batismo e a eucaristia. Destaca-se o fato de Lutero não aceitar o dogma católico da transubstanciação (transformação do pão e vinho em corpo e sangue de Cristo), defendendo apenas a presença do Espírito Santo no pão, isto é, a consubstanciação.

            Carlos V, imperador do Sacro Império Romano Germânico, convocou a Dieta de Worms , onde tentou convencer os príncipes alemães a condenar Martinho Lutero e obter uma retratação do monge, mas não teve sucesso. Estava decretada oficialmente a divisão da Igreja Cristã Ocidental. Nascia o movimento protestante.
            Em 1522, explodiu uma revolta da baixa nobreza alemã contra a Igreja Católica e os grandes senhores feudais. Lutero condenou o movimento e exortou os príncipes alemães a destruí-los.
Em 1524, o pastor Thomas Münzer, seguidor do luteranismo, sublevou os camponeses alemães. Inspirando-se na ideia de que as Sagradas Escrituras não reservavam as terras para os senhores e a Igreja, procurou organizar os mais pobres para tomar as áreas expropriadas. O movimento liderado por Münzer ficou conhecido como “anabatista”, que acreditava que o pastor seria o responsável por implantar o “reino cristão de mil anos”. Os anabatistas também eram milenaristas, isto é, aguardavam o retorno de Jesus que, estando na terra pela segunda vez, instituiria um reino de dez séculos e uma sociedade igualitária.
            Tal revolta também foi condenada por Lutero, referindo-se aos rebeldes como “cães raivosos” e “saqueadores assassinos”. Isso deixava claro seu compromisso com os príncipes que o salvaram da fogueira. O movimento foi esmagado pela alta nobreza, Münzer foi decapitado e milhares de camponeses morreram massacrados.

            Em 1529, o imperador Carlos V convocou a Dieta de Spira, em que propôs aos luteranos a permanência destes no império, desde que, em troca, prometessem não aceitar novos membros. Os luteranos negaram-se e, a partir de então, foram alcunhados de "protestantes".
            Muitos príncipes alemães viram no luteranismo uma oportunidade de tomar as terras da Igreja e destituir o imperador. Começou, assim, uma guerra civil que só chegou ao fim em 1555, com a Paz de Augsburgo, em que o Imperador delegava aos nobres a escolha da religião de seus súditos.

REFORMA NA SUÍÇA

            João Calvino nasceu na França e foi encaminhado à carreira eclesiástica por seu pai, profundamente influenciado pelos eventos liderados por Martinho Lutero e Ulrich Zwingli, o reformador suíço, seguidor de Erasmo de Roterdam, e que perdeu a vida durante uma guerra civil-religiosa em seu país, a Suíça.

            Calvino publicou a obra Instituição da Religião Cristã (1536), em que expôs os fundamentos de sua doutrina. Fixou-se em Genebra, rica cidade de mercadores, e transformou-a em sua "Jerusalém reconstruída", de onde controlava rigidamente os costumes através de suas Ordenações Eclesiásticas e do Consistório, composto por três sacerdotes da cidade e 12 dos mais respeitados burgueses eleitos por um conselho municipal.

            O Consistório regulava a vida dos habitantes com o mesmo rigor da Santa Inquisição. Inclusive, o sábado foi resgatado como o dia mais sagrado da semana, em oposição a católicos e protestantes, que guardam o domingo.
            A Reforma Calvinista foi mais radical que a Luterana, uma vez que aboliu totalmente os ornamentos e imagens e pregava a salvação pela fé baseada na predestinação. Segundo Calvino, o ser humano é pecador e somente a graça divina, manifestada em favor dos eleitos, pode salvar o fiel do inferno. Esse perdão divino poderia vir na forma de prosperidade econômica, que seria atingida pelo indivíduo em seu ramo de trabalho. Dessa forma, Calvino condenava a miséria e a preguiça, enquanto o trabalho era exaltado como meio de acesso ao paraíso.

            Em Genebra, Calvino instalou uma academia destinada à formação de pastores que percorreriam toda a Europa disseminando a nova religião. O alcance foi extraordinário, pois não faltavam cristãos que não viam nenhum mal em acumular capital. Assim, os calvinistas ficaram conhecidos como puritanos na Inglaterra, huguenotes na França, presbiterianos na Escócia, ou simplesmente calvinistas em outras partes do Ocidente. Na França, também eram chamados de protestantes, assim como os luteranos.

REFORMA NA INGLATERRA

            O movimento reformista que ocorreu na Inglaterra precisa ser diferenciado daqueles que o antecederam diretamente. Se antes havia claras divergências doutrinárias entre os preceitos católicos e aqueles pregados por Lutero e Calvino, o caso inglês deve ser visto como um problema no qual os interesses políticos estavam acima dos religiosos.
            O rei inglês, Henrique VIII, era casado com a nobre espanhola Catarina de Aragão, da poderosa Dinastia Habsburgo, cujo sobrinho, Carlos V, era imperador do Sacro Império Romano Germânico. O problema todo se estabeleceu à medida que se constatava a impossibilidade da esposa do monarca em dar à luz um herdeiro masculino. Após seis gestações e uma sucessão de abortos e crianças natimortas, havia apenas uma herdeira, a princesa Mary. Então, o rei decidiu pela separação e pediu ao Papa Clemente VII a anulação de seu casamento.

            Diante da negativa papal a seu pedido de divórcio, Henrique VIII rompeu com a Igreja Católica e fez que o Parlamento aprovasse o Ato de Supremacia (1534), segundo o qual nenhuma lei estabelecida fora da Inglaterra poderia ter validade no reino. Por este ato, o rei seria o chefe supremo da Igreja na Inglaterra, depois batizada com o nome de Anglicana:


Apesar de a Majestade do rei ser e dever ser, devida e legalmente o governo da Igreja da Inglaterra, sendo também reconhecido pelo sacerdócio deste reino em suas convocações, já, todavia, por corroboração e confirmação disso – para o aumento da virtude na religião de Cristo dentro deste reino de Inglaterra e para reprimir e extirpar todos os erros, heresias, e outras atrocidades e abusos até aqui cometidos. Seja promulgado, pela autoridade deste presente Parlamento, que o rei, nosso soberano senhor, seus herdeiros e sucessores; reis deste reino, serão tomados, aceitos, e reputados por única e suprema liderança da Igreja da Inglaterra, em toda a terra, chamada Eclésia (Igreja) Anglicana; e terá e desfrutará – além da coroa imperial do reino – dos títulos  e estilos de todas as honras, dignidades preeminências, jurisdições, privilégios, poderes, imunidades, lucros e mercadorias, que se façam jus a dignidade do supremo líder da dita e referida Igreja. E ainda que nosso soberano senhor, seus herdeiros e sucessores; reis deste reino, deverão ter poder para, de tempos em tempos, averiguar, reprimir, reparar, anotar, ordenar, corrigir, refrear e emendar todos tais erros, já citados a saber heresias, abusos, ofensas, descasos e torpezas quaisquer que sejam; os quais por qualquer razão – seja de autoridade espiritual ou jurisdição – devam ser legalmente reformados, reprimidos, recompostos, reparados, corrigidos, refreados ou emendados, para o deleite do Deus Todo Poderoso, para o aumento da virtude da religião de Cristo e para a conservação da paz, da unidade e tranquilidade deste reino. No mais, qualquer uso, terra estrangeira, autoridade estrangeira, prescrição, ou qualquer coisa contrária a isso não subsistirá.


            Henrique VIII foi excomungado pelo Papa, o que não significou muita coisa, pois o monarca dava demonstrações de ter o pleno controle da situação. O rei inglês, então, casou-se pela segunda vez com uma dama da corte, chamada Ana Bolena, sua amante já de longa data. Além disso,  aproveitou a oportunidade para livrar-se de vez de qualquer tipo de influência externa, principalmente de Roma. Assim, confiscou enorme quantidade de bens e terras da Igreja que estavam na Inglaterra, Escócia e Irlanda.
            Essas medidas fizeram que o Reino Unido tivesse o seguinte panorama religioso: na Inglaterra, a religião oficial era a anglicana, que recebeu o apoio de vários setores da nobreza; a população comerciante inglesa, camponeses e burgueses dividiam-se em calvinistas e uma minoria de católicos. Na Escócia, predominavam presbiterianos (calvinistas), enquanto a Irlanda tornou-se uma ilha católica.

            O anglicanismo preservou muitas semelhanças com a religião católica, como por exemplo a hierarquia eclesiástica, cujo topo era ocupado pelo rei, seguido pelos bispos e depois os padres, os quais não eram obrigados a cumprir o celibato, podendo, portanto, se casar.
O culto substituiu gradativamente o latim pelo inglês e a eucaristia era vista como a presença espiritual de Cristo, sem a mudança de matéria pregada pelo catolicismo. A salvação estava na fé e a Igreja Anglicana seria útil para alcançar esse caminho, tendo ainda a figura dos santos e mártires como exemplos da conduta cristã, mas sem destinar-lhes um culto especial.  

            Catarina e a pequena princesa Maria foram enviadas para a Espanha, já que Henrique VIII providenciara a anulação do casamento. Com a separação, o próximo passo foi buscar uma nova esposa, a qual pudesse gerar um varão e assim assegurar a sucessão do trono. A escolhida foi uma jovem que fazia parte do círculo da corte inglesa: Ana Bolena, mas, ironicamente, Henrique teve com ela uma outra filha, a futura Elisabeth I.

O casamento malogrou em virtude da acusação sofrida por Ana de ser adúltera e atentar contra a vida do rei. Ela foi presa, julgada e condenada à morte. A princesa Elisabeth foi educada longe da corte e sem sofrer nenhum tipo de pressão, pelo menos enquanto o pai esteve vivo.
Foi em seu terceiro casamento que Henrique conseguiu ter o sonhado filho: a nova esposa, Jane de Seymour, dera a luz em 1536 ao futuro rei Eduardo VI, mas Jane não conseguiu sobreviver às complicações do parto, morrendo alguns dias depois. Henrique ainda se casou mais três vezes, não teve mais filhos e acreditava que com o nascimento do varão, o reino estava salvo.


Fonte: Atlas de História Geral – Hilário Franco Jr; Ruy de O. Andrade, Editora Scipione. 


CONTRARREFORMA
           
            Diante das reformas que se multiplicavam por toda a Europa, a Igreja Católica precisava tomar uma atitude. É bem verdade que uma série de movimentações internas já sinalizava com a possibilidade de transformações, mas não há dúvida de que tais medidas foram aceleradas pela iminência de uma conversão em grande escala de católicos para linhas de pensamento protestantes. Assim, o Papa Paulo III convocou o Concílio de Trento (1545-1563), que estabeleceu uma série de determinações.

            Vários princípios foram mantidos ou confirmados, como a presença de Cristo na Eucaristia, a salvação pela fé e pelas obras, os sete sacramentos (batismo, eucaristia, crisma, penitência, unção dos enfermos, matrimônio e ordem), o culto à Virgem Maria e aos santos. Estabeleceu-se também a confirmação da infalibilidade do papa e sua supremacia sobre toda a cristandade. Foi reafirmada a tradição eclesiástica: as interpretações dos padres, papas e Concílios eram reforçadas como fontes de salvação, bem como a Vulgata, tradução latina do texto em grego feita por São Jerônimo no século IV. O celibato clerical foi mantido, mas, para acabar com a gritante ignorância que tomava conta do clero, foram criados os seminários para a formação de sacerdotes.

            Foi elaborado o Index Librorum Prohibitorum (Lista de Livros Proibidos), que nada mais era do que uma relação dos livros que todos os católicos jamais deveriam ler. Finalmente, foi restaurada a Santa Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício, ressuscitando a perseguição aos hereges, bruxos, protestantes, judeus, cientistas e todo aquele que tivesse um comportamento incompatível com aquele pregado pela Igreja.

            Para conter a expansão do protestantismo, a Igreja Católica abriu espaço para uma nova ordem religiosa, a Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, nobre de origem espanhola que trocou o exército pelo serviço a Deus, fazendo voto de pobreza e de castidade. A nova ordem foi reconhecida em 1540 pelo Papa Paulo III. Os jesuítas, ou os “soldados de Cristo”, desenvolveram um trabalho de evangelização no norte da Europa, fundando colégios e atraindo os filhos de famílias abastadas, além de expandirem em direção ao Novo Mundo (América) no intuito de cristianizarem os índios, fortalecendo a posição católica nas novas terras colonizadas.



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Links para uma Revisão FUVEST

 Caros alunos e leitores,

Seguem abaixo os links dos últimos conteúdos que trabalhei em sala de aula e espero que possam ajudar nesse momento de revisão e preparação final para a FUVEST. Bons estudos para todos!

História Geral:

Slides - Período Entre-Guerras: 
http://www.megaupload.com/?d=CW26DZD6

Slides - Da Guerra Fria à Atualidade:

Slides - O Breve Século XX (1914-1991)
http://www.megaupload.com/?d=O4MNF8OQ

História do Brasil

Slides - Era Vargas (1930-1945)

Slides - Regime Militar Brasileiro (1964-1985) e Redemocratização (1985-2002)

Slides - República Liberal (Brasil) (1945-1964)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Reta final: Fuvest à vista!!!!


O próximo domingo (27/11) será crucial para cerca de 144.000 estudantes. São os candidatos ao vestibular da FUVEST, que selecionará para vagas da Universidade de São Paulo e Faculdade de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

Junto deste número, devemos multiplicar os familiares e amigos que acompanham a dura vida do vestibulando: horas e horas de estudo, pouco lazer, stress em alta, pouco sono e muita ansiedade e nervosismo. Cobranças mil, angústias mil...

O que pode ser feito neste momento final para colaborar com a preparação para a prova?

De um modo muito tranquilo, o ideal é desacelerar gradativamente: continuar estudando, fazendo a revisão da matéria, tirar as dúvidas pendentes e procurar fechar os cadernos na noite de sexta-feira.

Pode parecer estranho, mas o melhor a fazer é buscar o ponto de equilíbrio entre o estudo, lazer e descanso. Não acredito em estudo na véspera da prova, pois o vestibular se parece com a maratona, porque a preparação de ambos ocorre ao longo de um ano ou às vezes mais e assim, os músculos estão preparados, o fôlego controlado e a cabeça tranquila para encarar o desafio: 5 horas de prova sentado numa cadeira pouco confortável, tendo o relógio como maior  inimigo.

Muito esforço, bem em cima do grande dia, pode mais atrapalhar do que ajudar.

O ideal para este fim de semana é:

·         Dormir cedo, se possível, desde sexta-feira. Do sábado para o domingo é imprescindível!
·         Acordar tranquilamente, alimentar-se de modo correto e equilibrado.

·         Buscar ocupar o tempo com coisas não relacionadas com o vestibular: ir passear num lugar que lhe seja agradável, ir à uma exposição ou ao cinema ou teatro. Estar com quem você gosta, sejam os familiares, sejam amigos ou os(as) respectivos(as), namorados(as), mas nada de exagero....

·         Para quem está gripado, resfriado com este “novembro maluco” ou ainda com algum outro problema de saúde que envolva o uso de medicamentos, recomenda-se consultar seu médico para saber se nenhuma medicação vai atrapalhar sua condição física no momento da prova.

·         Hoje (21/11) já foram divulgados os locais de prova, então, é conveniente usar o sábado para localizar exatamente onde será seu lugar para fazer a prova, bem como a melhor e mais fácil forma de acesso em termos de transporte numa metrópole caótica como a nossa.

     Verifique corretamente o horário de abertura e fechamento dos portões. Caso tenha alguma dúvida, sobre o que é permitido ou não, consulte o manual on line da FUVEST: www.fuvest.br 

·         Confira, milhões e milhões de vezes, se você está com seu documento de identidade, antes de sair de casa.
·         Ao chegar ao local de prova, ignore a panfletagem ali realizada: folders, tabelas, resumos ali distribuídos só vão tirar a sua concentração! Então, educadamente recuse ou se pegar algum panfleto, guarde-o para ler no outro dia, lembrando que não há consulta na prova.

·         O clima está completamente estranho, mas uma garrafa de água é importantíssimo. Se trouxer algo para comer, seja ponderado, pois não adianta rebater a ansiedade comendo sem ter fome de fato. Procure alimentos leves (biscoitos e/ou barras de cereal) ou se for do seu agrado um doce, mas sempre tomando cuidado para não exagerar, pois a instabilidade emocional pode gerar inúmeros desconfortos e aí, a prova pode ser comprometida.

·         Uma vez na sala, deixe o necessário sobre a carteira e ao receber o caderno de questões, uma vez dada a autorização para começar, faça uma leitura geral da prova e depois inicie a resolução, partindo dos assuntos mais fáceis e conhecidos para as questões intermediárias e por fim, as mais complexas.


·         Na resolução das questões, leia atentamente o enunciado, grife o “comando da questão”: o que deve ser respondido. Analise todas as alternativas, não se deixando levar pela pressa.
·         Lembre-se que além do tempo de resolução, você precisar passar corretamente as respostas para o cartão óptico e assim, o controle do tempo é muito importante.

·         Use o tempo integral da prova sem se preocupar com o desempenho dos demais que estão na sua sala, saindo assim que for autorizado ou se você está com poucas pessoas na sala. Cada um tem uma estratégia particular.

·         E acima de tudo, o vestibular é apenas mais uma etapa da vida. Um rito de passagem que nossa sociedade desigual estabeleceu para promover o acesso dos jovens às Universidades, tentando se fiar no mérito para julgar todos de modo igual, pelo menos, aparentemente...
·         Passado o exame, começa um outro momento. Mas, caso não haja sucesso imediato, é imprescindível não desistir e sim, reavaliar as estratégias, corrigir o curso e seguir em frente.

Omar Khayam, um poeta persa do século XI, escreveu uma quadra (rubai em persa) e daí o nome do livro de poemas, Rubaiyat:

Não se prenda à lembrança do ontem, do anteontem,
Nem fique preocupado com seu amanhã;
O que passou, passou; o que há de vir, virá;
Seja feliz agora, pois o resto é vento.

Um excelente exame para todos!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Proclamação da República: 1º de muitos golpes de Estado



            Alguns autores defendem a importância dos políticos republicanos no fim da monarquia. Mas é importante destacar que essa participação parece não ter sido tão forte, já que o Partido Republicano foi fundado em 1870 e, mesmo gozando da mesma liberdade concedida aos outros partidos, elegeu pouquíssimos vereadores em 19 anos de existência.

            Em 1870, ano de sua fundação, o Partido Republicano publicou o Manifesto Republicano, no qual atacava a centralização do poder e o despotismo. No entanto, esta última expressão não pode ser entendida ao pé da letra, mas, sim, como fruto da visão da época, no calor dos acontecimentos. Pelo Manifesto, via-se a descentralização político-administrativa como a melhor solução para as províncias, que passariam a ter, com a República, autonomia para atender às conveniências das camadas dominantes locais.
            Os interesses haviam se diversificado de tal forma que não era mais possível subordinar-se apenas às decisões da aristocracia escravista, que, apesar de falida, ainda detinha o poder político.

Durante os primeiros 20 anos do Segundo Reinado, os partidos Liberal e Conservador dominaram a cena política. Em 1868, o primeiro dividiu-se em moderado e radical. O setor radical adotou os ideais republicanos e, em 1870, nascia o Partido Republicano - primeiramente no Rio de Janeiro e, depois, em São Paulo. Rapidamente, clubes e jornais republicanos divulgaram suas ideias pelo País.
Os principais membros do partido eram profissionais liberais e comerciantes, que recebiam o apoio das populações empobrecidas, do interior e dos centros urbanos, além da solidariedade dos fazendeiros do Oeste Paulista (os fazendeiros do Vale do Paraíba não participavam de tal movimento).

            Em 1873, na província de São Paulo, reuniu-se a Convenção de Itu, através da qual a elite cafeicultora paulista aderiu formalmente ao movimento republicano. Dos poderosos participantes dessa convenção, saíram futuros presidentes da República, como Prudente de Morais e Campos Sales.
            Era possível perceber que existiam duas facções no Partido Republicano. Na primeira, estavam os revolucionários, que desejavam a implantação da República através de uma revolução popular. Seu principal líder era o advogado Antônio da Silva Jardim, um ativo, inflamado e intransigente defensor da República e da abolição do trabalho escravo.
            Mas os republicanos eram em sua grande maioria contrários à revolução. O principal representante dessa corrente de evolucionários era Quintino Bocaiúva. A esse grupo também juntaram-se os seguidores do filósofo francês Augusto Comte, fundador do Positivismo, movimento que, inclusive, inspirou a inscrição “ordem e progresso” na bandeira brasileira.

            Do ponto de vista ideológico, a implantação do regime republicano estava associada à difusão dos ideais políticos do Positivismo. Entre o final do século XIX e início do XX, alguns pensadores tomaram como parâmetro o desenvolvimento das ciências da natureza e procuraram dar fundamentos científicos ao conhecimento humano. Havia a convicção de que uma ciência sobre os homens teria de passar pela negação das religiões, pois estas representariam entraves à busca pelo conhecimento. Essa doutrina foi abraçada, principalmente, pela jovem oficialidade do exército.
É interessante ressaltar que a influência política dos positivistas só se efetivou plenamente no Brasil depois da proclamação da República.

            Além dos pensamentos positivistas, alguns fatores imediatos precipitaram o fim da monarquia brasileira. Pode-se dizer que o Império Brasileiro apoiava-se sobre três colunas: a aristocracia militar, a Igreja Católica e os fazendeiros escravistas. Só que o regime acabou perdendo o apoio de cada um desses grupos em episódios que demonstraram a inabilidade dos monarquistas para realizar reformas que agradassem aos insatisfeitos e permitissem a sobrevivência do império.

QUESTÃO RELIGIOSA - O catolicismo era, como hoje, a religião oficial do Brasil e, como em Portugal, a Igreja estava subordinada ao Estado. A Constituição Imperial, já em sua primeira versão de 1824, previa entre seus artigos duas características herdadas das constituições portuguesas. A primeira era o Padroado, que dava ao imperador o direito de nomear e remunerar membros do clero, que ficavam, desta forma, subordinados diretamente ao monarca. A segunda era o beneplácito, que exigia que qualquer Bula (decreto emitido pelo Papa) fosse aprovada pelo Império antes de vigorar em território brasileiro.
            Em 1864, o Papa Pio IX emitiu a Bula Syllabus condenando a “ordem secreta” da maçonaria e proibindo o clero de participar dessa sociedade. O Império, entretanto, não aprovou tal documento, pois muitos políticos (e, provavelmente, o próprio Dom Pedro II) eram maçons.

Desrespeitando o imperador, porém obedientes ao Papa, o bispo de Olinda, Dom Vital de Oliveira, e o bispo de Belém, Dom Macedo, expulsaram vários padres e suspenderam irmandades de suas dioceses por práticas maçônicas.
            Por solicitação das irmandades atingidas, Dom Pedro II anulou as suspensões. Como os bispos não voltaram atrás em suas decisões, foram julgados e condenados a quatro anos de prisão e trabalhos forçados. A comutação da sentença, feita pelo Primeiro Ministro Duque de Caxias, não livrou o Império do mal-estar de haver condenado clérigos, nem lhe devolveu o apoio da Igreja. As prisões afastaram os católicos do governo imperial.

QUESTÃO ESCRAVISTA - Os cafeicultores da Baixada Fluminense atravessavam grandes dificuldades financeiras devido ao fracasso das fazendas que haviam instalado no Vale do Paraíba. Passaram, então, a sobreviver de seus empregos na administração imperial e do aluguel de seus escravos (negros de ganho). Ao mesmo tempo, um novo grupo começava a despontar no cenário econômico brasileiro. Eram os cafeicultores do Oeste Paulista que, por falta de capital, tinham sido obrigados a lançar mão do trabalho assalariado e abrir novas terras sertão adentro. E eles acabaram enriquecendo muito, devido à fertilidade do solo.
            Esses cafeicultores, entretanto, enfrentavam dificuldades para transportar seu produto até o porto de Santos, uma vez que tinham de utilizar carros de boi e lombo de burro. Pediram, então, ao governo imperial a construção de uma ferrovia ligando suas terras ao litoral. Diante das negativas sistemáticas da coroa, a ferrovia foi construída com capitais privados a partir de uma associação entre ingleses e o Barão de Mauá. Assim, em 1867, foi inaugurada a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, aumentando as hostilidades entre cafeicultores do Oeste Paulista e políticos do Império.
            Nesse cenário, havia também a questão do trabalho escravo no Brasil, que sofria pressões externas para que a abolição fosse promovida. Sem dúvida, a chegada do trabalhador imigrante facilitou o caminho. Mas o Brasil ainda insistia neste sistema vergonhoso.
            A pressão inglesa para a abolição da escravidão já havia feito várias “vítimas” entre os traficantes de escravos, principalmente com o Bill Aberdeen de 1845. Nunca é demais lembrar que a preocupação da Inglaterra não era movida por razões humanitárias, mas, sim, pelo promissor mercado consumidor que seria aberto no Brasil, se aqui predominasse o trabalho assalariado. Além disso, a própria conjuntura econômica internacional (ideologia liberal, industrialização, resultado da Guerra de Secessão) provava que a escravidão estava com os dias contados.
            Em meados do século XIX, começaram a ser aprovadas as primeiras leis antiescravistas. Em 1850, foi decretada a Lei Eusébio de Queiroz, que extinguia o tráfico negreiro para o nosso país. Para muitos fazendeiros, a solução mais comum depois do fim do tráfico foi a compra de escravos do Nordeste.
            Em 1871, o ministro Visconde do Rio Branco sugeriu e viu a aprovação pela Assembleia da chamada Lei do Ventre Livre, estabelecendo que, a partir de maio daquele ano, todos os filhos de escravos seriam considerados livres. Os proprietários seriam tutores das crianças até os 7 anos de idade, quando elas deveriam ser entregues à responsabilidade do Estado. Em troca, os fazendeiros teriam direito a uma indenização de 600 mil-réis ou, então, poderiam utilizar o trabalho do “libertado” até os 21 anos. Tal lei previa uma libertação gradual, o que permitiria aos escravocratas adaptarem-se à nova realidade.
            Em 1879, a campanha abolicionista chegou ao auge, e o grupo partidário da libertação dos escravos já apresentava duas tendências. A primeira, moderada, defendia o fim do escravismo por meio de leis e tinha como principais representantes José do Patrocínio, Joaquim Nabuco e Jerônimo Sodré. A segunda, um pouco mais radical, pregava que a abolição deveria ser conquistada pelos próprios escravos, estimulando as revoltas destes. Seus defensores mais destacados foram Raul Pompéia, André Rebouças, Luís Gama e Antônio Bento - este último era um juiz municipal que ficou famoso por dar pareceres que sempre favoreciam os escravos contra seus senhores.

            As campanhas concentravam-se nas cidades, em comícios, festas beneficentes, quermesses e conferências. Havia jornais e clubes antiescravistas. Os ferroviários de São Paulo chegaram a arrecadar dinheiro para comprar a alforria dos escravos. Em Fortaleza, houve casos de tipógrafos que se recusaram a imprimir textos que defendessem a escravidão.
            Em meio a tantas agitações populares, os ministros José Antônio Saraiva e Barão de Cotegipe apresentaram, em 1885, a Lei dos Sexagenários (ou Lei Saraiva-Cotegipe), que estabelecia que os escravos ganhariam a liberdade ao completarem 60 anos, mas trabalhariam até os 65 como forma de indenizar os fazendeiros. As reações a essa lei foram péssimas, tanto que surgiu a expressão “gargalhada nacional”, uma vez que eram poucos os escravos que chegavam à tal idade – e os que chegavam não conseguiriam encontrar ocupação se fossem libertados.

            Enquanto isso, em 1887, num documento assinado pelo Marechal Osório, então presidente do Clube Militar, o Exército declarava que não mais cumpriria a função de capitão-do-mato, ou seja, não mais perseguiria escravos fugitivos. O final da escravidão era inevitável.
            No começo de 1888, os deputados votaram o fim do trabalho escravo e a proposta, que foi enviada pelo ministro liberal, João Alfredo Correia de Oliveira, foi aprovada com 92 votos a favor e 9 contra. Em 13 de maio do mesmo ano, a Princesa Isabel, que ocupava a posição de Regente em virtude da ausência de Dom Pedro II, durante uma viagem do imperador pela Europa para tratamento de saúde, assinou a Lei Áurea, ratificando a extinção da escravidão no Brasil.

            Cabe ressaltar que, não houve nenhum plano de governo que garantisse a absorção do negro ao mercado de trabalho, o que dificultou muitíssimo a integração dos ex-escravos à sociedade, originando as tão conhecidas formas camufladas de discriminação e marginalização, das quais se encontram resquícios até hoje no Brasil.
            Os cafeicultores do Vale do Paraíba, em sua maioria escravistas, esperavam receber uma indenização pelos escravos que perderiam e, como essa indenização não foi acessível à grande maioria, boa parte deles ingressou no Partido Republicano, ficando conhecidos como “republicanos do 13 de maio”.

QUESTÃO MILITAR - Desde o fim da Guerra do Paraguai, o Exército brasileiro passara a defender a tese de que os políticos (casacas), ligados a seus interesses mesquinhos, não eram capazes de dar a devida atenção aos negócios públicos, e somente os militares estariam capacitados a exercer o poder. Paralelamente a isso, deve-se destacar a influência do positivismo (ideologia criada por Augusto Comte que propunha uma ditadura científica como forma ideal de governo), difundido pelo militar e professor, Benjamin Constant, na academia militar.

            O primeiro conflito entre o Exército e o Império teve como pivô o tenente-coronel Sena Madureira, veterano da Guerra do Paraguai, que publicou um artigo no jornal a respeito da Reforma do Montepio do Exército – projeto pelo qual as famílias dos militares mortos ou mutilados na Guerra do Paraguai receberiam uma pensão. Tal atitude foi repreendida pelo Ministro da Guerra, o civil Marquês de Paranaguá II, que proibiu, desde então, qualquer outra manifestação de militares através da imprensa. O Exército reagiu afirmando que o soldado era um cidadão fardado e que, assim sendo, teria direito de opinar sobre a política nacional. Mas tal protesto não obteve sucesso.

            A segunda questão militar envolveu novamente o tenente-coronel Sena Madureira por utilizar as dependências da Escola de Tiro de Campo Grande (Rio de Janeiro) para uma recepção ao jangadeiro Francisco Nascimento, que havia liderado um movimento contrário ao embarque de escravos do Ceará para o Sul do País. Sena Madureira foi, mais uma vez, repreendido, o que provocou novos protestos do Exército.
            A terceira questão militar começou em uma inspeção de rotina do coronel Cunha Matos, que encontrou numerosas irregularidades em uma instalação militar no Piauí e concluiu que o tenente-coronel Pedro José Lima era o responsável, encaminhando seu relatório a seus superiores. Um deputado civil, amigo do militar denunciado, publicou um artigo ofensivo à honra de Cunha Matos, como forma de desmerecer seu relatório. Cunha Matos reagiu instantaneamente com a publicação de um artigo em que respondia às acusações do civil, e foi punido pelo Ministro da Guerra por desrespeito às normas do Exército.


            Os militares protestaram, afirmando que um civil havia ofendido um militar, e que este fora proibido de se defender. Os partidários do Exército publicaram, então, um manifesto que criticava violentamente a posição do governo. Tal  manifesto foi assinado por vários oficiais, inclusive pelo Marechal Deodoro da Fonseca. Mais uma vez, o Ministro da Guerra puniu os signatários do documento, rompendo definitivamente as ligações entre o Exército e o governo. Deodoro foi convidado a ingressar no Partido Republicano.

            Na tentativa de reduzir a oposição, cada vez maior, Dom Pedro II formou um novo gabinete, chefiado por Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, que elaborou, em meados de 1889, um programa de reformas. Esse programa incluía liberdade de culto, autonomia para as províncias, mandatos para senadores e liberdade de ensino, entre outras mediadas. Tais propostas visavam a preservar a monarquia, mas acabaram vetadas pelos deputados conservadores.

A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

            O governo do Império tinha perdido suas bases econômicas, militares e sociais. Porém, as ideias republicanas não tinham grande penetração popular, mesmo às vésperas da queda da monarquia. O povo estava descrente do regime, mas não havia uma crença generalizada de que a República seria a solução para os problemas do País.

            Havia até certo temor quanto à questão sucessória do trono. Os dois filhos homens de Dom Pedro II tinham morrido ainda crianças e, como a sucessora natural era a Princesa Isabel, casada com o francês Conde d’Eu, não era simpático para a opinião pública e as forças políticas da época que o terceiro reinado viesse a ser comandado por um estrangeiro.

            Na capital, Rio de Janeiro, os republicanos insistiram junto ao Marechal Deodoro para que ele chefiasse o movimento que poria fim à monarquia. Mas Deodoro estava indeciso, pois era amigo pessoal de Pedro II, pois defendia que a República só seria proclamada após a morte do imperador. Mas mudou de ideia quando, em 14 de novembro, começaram a circular boatos de que ele (Deodoro) e o professor Benjamim Constant seriam presos.

            Na madrugada de 15 de novembro de 1889, o Marechal iniciou o movimento golpista que pôs fim ao regime imperial. Os revoltosos ocuparam o quartel-general do Rio de Janeiro e, depois, o Ministério da Guerra, e depuseram o Visconde de Ouro Preto. Na tarde do dia 15, na Câmara Municipal, a República foi proclamada em cerimônia solene.

            Dom Pedro II, que estava em Petrópolis, retornou ao Rio, pois pensava que o objetivo dos golpistas era impor a substituição do Ministério. O imperador já articulava a formação de um novo gabinete quando recebeu das mãos do Major Frederico Sólon Sampaio Ribeiro uma comunicação, na qual era intimado a deixar o País, pois não era mais considerado o legítimo governante. Na manhã de 17 de novembro, Dom Pedro II partiu com toda a família para o exílio na Europa, rumando primeiro para Portugal, onde falecera a imperatriz Teresa Cristina e depois para Paris, onde D. Pedro ficou residindo até sua morte em 1891.

O Governo Provisório

As diversas forças que se uniram para proclamar a República organizaram-se para formar um Governo Provisório. Sob a liderança do Marechal Deodoro da Fonseca, a primeira administração do novo regime procurou conciliar os interesses de militares, fazendeiros de café e camadas médias urbanas. O primeiro ministério foi composto por várias personalidades que se destacariam na vida política do período, como Aristides Lobo, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Campos Sales, Rui Barbosa, Demétrio Ribeiro, entre outros.
            Entre as principais medidas tomadas pelo Governo Provisório, pode-se destacar o fim do caráter vitalício do cargo de senador, a dissolução da Câmara e a expulsão da família real. Foi realizada, também, uma grande naturalização, pela qual muitos estrangeiros que aqui moravam puderam adquirir a nacionalidade brasileira. Houve a separação entre Igreja e Estado, promoveu-se a liberdade de culto e regulamentou-se o casamento civil. Para as províncias e cidades mais importantes, foram nomeados interventores, em sua maioria militares.
            Em dezembro de 1889, foram marcadas eleições para que entrasse em funcionamento uma Assembleia Constituinte. Tais eleições deveriam ocorrer em setembro de 1890 e, durante esse período, já havia corrosivas disputas internas no Governo Provisório.

            A pasta da Fazenda era ocupada pelo advogado Rui Barbosa, que colocou em prática sua reforma econômica. Em meio a uma economia marcada pela concorrência desleal dos monopólios privados e a voracidade imperialista desferida pelas potências europeias e pelos Estados Unidos, Rui Barbosa deu início a um projeto de incentivo à produção interna. Nesse sentido, aumentou as taxas alfandegárias de produtos importados que tivessem similares produzidos no Brasil.

            Segundo o historiador Werneck Sodré, Rui Barbosa “tomou medidas de incentivo às atividades de menos vulto, como a fundação de um Banco de Crédito Popular, cuja finalidade era realizar empréstimos a juros módicos e maior assistência ao operário com a construção de habitações populares...”
            Bancos estrangeiros ameaçaram fechar, mas o ministro afirmou que, se isso ocorresse, o governo nada faria para impedi-los. Rui Barbosa também extinguiu o pagamento de indenizações aos antigos proprietários de escravos.

            A abolição da escravidão e a corrente migratória criaram um número maior de assalariados e a consequente necessidade de mais moeda circulante. Tentou-se obter empréstimos junto a bancos europeus, mas sem sucesso. A solução foi o abandono do padrão ouro e um aumento na emissão  de papel-moeda, visando ao crescimento do crédito. Alguns bancos foram autorizados a emitir dinheiro usando títulos do governo como lastro. Tal prática ficou conhecida como pluriemissão.

            Num primeiro momento, essas medidas reativaram os negócios, mas a produção interna não cresceu na mesma proporção, e a inflação aumentou. O resultado foi catastrófico. “Empresas fantasmas” surgiam da noite para o dia, cédulas falsas misturavam-se às verdadeiras - provocando o caos financeiro – instalou-se uma especulação desenfreada com títulos, ações e outros componentes que jogaram o país em uma violenta crise econômica.

            Essa especulação financeira assemelhava-se aos bastidores do Jóquei Clube. Daí o fato de, na época, muitos se referirem ao plano de Rui Barbosa pelo nome de "Encilhamento". O ministro havia avaliado mal a situação social e econômica do País. Desprezou o fato de o Brasil ter eliminado o escravismo muito recentemente e de que o mercado interno era insuficiente para acompanhar uma rápida industrialização. Também não considerou a pressão que poderia sofrer do capital internacional. Tais fatores precipitaram a demissão de Rui Barbosa.

Constituição de 1891

Destacamos como os principais pontos da 1ª constituição republicana, promulgada pela Assembleia Constituinte:

·      regime republicano presidencialista
·      três poderes autônomos e equilibrados
·      grande autonomia dos Estados
·      Estado laico (separação entre Igreja e o Estado)
·      voto universal masculino aberto (exceto analfabetos, mendigos e clérigos)
·      representatividade regional e federal renovável
·      o Município Neutro passou-se a chamar Distrito Federal