As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de novembro

sábado, 28 de abril de 2012

Violinos de colecionador ajudam a contar histórias do Holocausto


Fonte: Portal G1

Após anúncio em rádio, israelense conseguiu reunir 36 instrumentos.
Filho de sobreviventes, ele diz que violinos são como lápides para mortos.


Todos os dias, eles tocavam para os companheiros nos campos de concentração nazistas espalhados pela Europa da época da Segunda Guerra Mundial. Muitos dos músicos, geralmente amadores, que compunham as orquestras dos campos foram salvos por sua habilidade - e pelos seus instrumentos, que guardam até hoje a história do massacre de 6 milhões de judeus pelo regime de Adolf Hitler na Alemanha.
Um pouco dessa história está nas mãos de um israelense chamado Amnon Weinstein. Fabricante de violinos, Amnon tem uma loja-ateliê em Tel Aviv onde guarda 36 violinos de músicos judeus que viveram na Alemanha na época do genocídio nazista, inclusive de sua família.
Em entrevista ao G1 por telefone dos Estados Unidos, onde expôs em abril os violinos pela primeira vez no continente americano - na Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte -, o simpático senhor de 73 anos contou como começou o projeto "Violinos da Esperança" e falou sobre a importância de manter a memória do que aconteceu. "Eles [os violinos] são como lápides para todos os músicos mortos no Holocausto, centenas deles, milhares, minha família."
G1 - Como tudo começou?
Amnon - O começo é muito prosaico, eu sempre digo. Eu tinha um aluno que veio do leste alemão trabalhar como fabricante de arcos em Israel, estamos falando de 15 anos atrás, e no momento em que ele apendeu sobre o Holocausto, ele tentou me convencer a dar uma palestra sobre violinos que vieram para Israel em 1936 [vou explicar depois o porquê, tenho uma coleção deles], na associação de produtores de arcos e violinos da Alemanha. Levou dois anos para eu dizer sim e depois foi como uma bola de neve. Desse tempo em diante, eu tenho trabalhado no projeto 'Violinos da Esperança'.

Violino com cinco estrelas de Davi é exibido na Universidade da Carolina do Norte, nos EUA (Foto: Chuck Burton/AP)

Violino com cinco estrelas de Davi é exibido na
Universidade da Carolina do Norte, nos EUA
(Foto: Chuck Burton/AP)
28/04/2012 08h32 - Atualizado em 28/04/2012 09h06

Violinos de colecionador ajudam a contar histórias do Holocausto

Após anúncio em rádio, israelense conseguiu reunir 36 instrumentos.
Filho de sobreviventes, ele diz que violinos são como lápides para mortos.

Giovana SanchezDo G1, em São Paulo
1 comentário
Violino com cinco estrelas de Davi é exibido na Universidade da Carolina do Norte, nos EUA (Foto: Chuck Burton/AP)Violino com cinco estrelas de Davi é exibido na
Universidade da Carolina do Norte, nos EUA
(Foto: Chuck Burton/AP)
Todos os dias, eles tocavam para os companheiros nos campos de concentração nazistas espalhados pela Europa da época da Segunda Guerra Mundial. Muitos dos músicos, geralmente amadores, que compunham as orquestras dos campos foram salvos por sua habilidade - e pelos seus instrumentos, que guardam até hoje a história do massacre de 6 milhões de judeus pelo regime de Adolf Hitler na Alemanha.
Um pouco dessa história está nas mãos de um israelense chamado Amnon Weinstein. Fabricante de violinos, Amnon tem uma loja-ateliê em Tel Aviv onde guarda 36 violinos de músicos judeus que viveram na Alemanha na época do genocídio nazista, inclusive de sua família.
Em entrevista ao G1 por telefone dos Estados Unidos, onde expôs em abril os violinos pela primeira vez no continente americano - na Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte -, o simpático senhor de 73 anos contou como começou o projeto "Violinos da Esperança" e falou sobre a importância de manter a memória do que aconteceu. "Eles [os violinos] são como lápides para todos os músicos mortos no Holocausto, centenas deles, milhares, minha família."
G1 - Como tudo começou?
Amnon - 
O começo é muito prosaico, eu sempre digo. Eu tinha um aluno que veio do leste alemão trabalhar como fabricante de arcos em Israel, estamos falando de 15 anos atrás, e no momento em que ele apendeu sobre o Holocausto, ele tentou me convencer a dar uma palestra sobre violinos que vieram para Israel em 1936 [vou explicar depois o porquê, tenho uma coleção deles], na associação de produtores de arcos e violinos da Alemanha. Levou dois anos para eu dizer sim e depois foi como uma bola de neve. Desse tempo em diante, eu tenho trabalhado no projeto 'Violinos da Esperança'.
Amnon segura violino da coleção (Foto: Ken Lambla)Amnon segura violino da coleção (Foto: Ken Lambla)
E por que 1936? É muito especial e importante. Em 1936, Bronisław Huberman, um grande violinista judeu, e o maestro italiano Arturo Toscanini, na época número um do mundo, criaram a orquestra filarmônica de Israel atual. E Huberman trouxe os melhores músicos da Europa para Israel, judeus. Porque ele viveu em Berlim e entendeu o que os alemães tinham planejado fazer com os judeus mais para frente. Então ele convenceu os músicos a vir para Israel formar essa orquestra e salvou cem músicos e as pessoas ao redor - o que dava cerca de 300 pessoas salvas dos nazistas.
A maioria desses músicos que vieram de Alemanha, França, Suíça ou Polônia tocava em instrumentos de fabricação alemã. Para eles, naquela época não havia problema em usar um violino feito na Alemanha e ser um músico judeu. E eles sabiam que em Israel não havia nada, nenhum fazedor de violino, não se podia nem comprar cordas. Então cada um trouxe consigo ao menos três violinos, violas e violoncelos, pois em caso de quebrar eles tinham que mandar para a Europa de barco para arrumar e demorava muito tempo.
Agora pulemos para 1945, após a guerra. Em Israel, todos sabem sobre as atrocidades que os alemães fizeram na Europa. E pode-se dizer que em Israel, nessa época, a maioria das pessoas tinha família entre os 6 milhões de pessoas [mortas no Holocausto]. Então houve um boicote completo de qualquer produto de origem germânica, de vacas até qualquer produto de casa, incluindo, claro, violinos. Os músicos chegavam e diziam 'não vamos mais tocar nesse instrumento'. Alguns quebraram os violinos e outros chegaram pro meu pai e disseram 'se você não comprar o violino, eu vou queimá-lo'. Então meu pai...
G1 - Seu pai também fazia violinos?
Amnon - 
Sim, claro! Então sem mencionar nada - ou sentindo algo - meu pai adquiriu uma enorme coleção de instrumentos de origem alemã. Portanto aquele fabricante de arcos de que lhe falei me convenceu a fazer uma palestra sobre isso em Dresden (Alemanha). Depois, num programa de rádio em Israel, eu perguntei ao público quem tinha violinos relacionados ao Holocausto e hoje tenho uma coleção de 36 violinos assim divididos em quatro categorias: a primeira é de violinos que estiveram no Holocausto e de que sabemos o nome da pessoa que tocava, e às vezes até temos fotos dos donos; a segunda categoria é de instrumentos que estiveram no Holocausto, mas de que não sabemos nada de seus donos. Porque, para essas pessoas, os violinos sobreviveram à vida, à guerra, os alemães precisavam de todos esses músicos para tocar e enganar os judeus para ir para a câmara de gás.
Os violinos da coleção de Amnon (Foto: Ziv Shenhav)Os violinos da coleção de Amnon (Foto: Ziv Shenhav)
Após a guerra, nenhum deles tocou violino nunca mais na vida, só algumas mulheres que não viram tantas das atrocidades e mortes que os homens viram durante a guerra. Muitos deles escaparam da Europa e foram para os EUA, muitos não quiseram vir para Israel, que estava em guerra, e acredito que 99% guardaram os violinos e nunca mais falaram sobre o assunto. É um fato que muitos sobreviventes não falavam uma palavra sobre o Holocausto. Era como um tabu para eles, um assunto proibido.
A terceira categoria da coleção são violinos de membros da orquestra, tenho muitos no ateliê, e só um deles está pronto para ser tocado. A quarta categoria é de violinos usados por músicos populares, que tocam em casamentos e bar mitzvahs [cerimônia judaica que insere o jovem na comunidade adulta], e muitos deles tocavam em violinos com a Estrela de Davi. Os alemães confiscaram milhares de instrumentos pertencentes a judeus e é impossível rastrear quem são os donos por causa da falta de documentação.
Todo esse trabalho feito com os violinos é porque estamos deixando de volta em condições de serem tocados quase todos os instrumentos. Eles são como lápides para todos os músicos mortos no Holocausto, centena deles, milhares, minha família. Minha irmã uma vez fez a conta, e quase 400 pessoas da nossa família morreram no Holocausto.
G1 - Só da sua família?
Amnon - 
Sim! As famílias judias daquela época eram muito grandes. Só o meu pai tinha 11 irmãos, imagina quanta gente. Ele e um outro irmão sobreviveram, mais ninguém.
G1 - Quando seu pai chegou a Israel?
Amnon - 
Em 1938. Meu pai decidiu emigrar para Israel, ele era um músico profissional e também um fabricante de violinos.
G1 - O senhor aprendeu a profissão com ele?
Amnon - 
Sim, primeiro com ele, depois fui para a Itália e a França, esse é meu currículo como fabricante de violinos. Ganhei prêmios em competições, e depois todo meu tempo é dedicado para o 'Violinos da Esperança'.
Amnon trabalha em seu ateliê  (Foto: Ken Lambla)Amnon trabalha em seu ateliê (Foto: Ken Lambla)
G1 - Como o primeiro violino chegou ao senhor?
Amnon - 
Como lhe falei, foi por meio de um programa de rádio, em Israel. Aí chegou um, dois, fizemos concertos em Istambul e depois fizemos um grande concerto em Paris, e na época tínhamos só quatro violinos. Hoje estamos falando de 36 violinos - 18 aqui em Charlotte [na exposição]. Você consegue imaginar isso? Todos em condições de tocar, todos para concertos. Há alguns instrumentos que nunca serão restaurados e ficarão como evidência para as próximas gerações.
Por exemplo, eu recebi de um americano, fabricante de arcos, Joshua Henry, ele me escreveu um e-mail dizendo que comprou um violino de um comerciante judeu e quando abriu o violino ele achou o escrito 'Heil Hitler' [saudação nazista], 1936 e uma suástica. Com uma caneta, escrito de um jeito muito agressivo e feio. Nossa opinião é que, não temos provas porque o dono provavelmente morreu, mas no ano 1936 havia muitos judeus morando na Alemanha e o dono, que era um tocador amador, porque não era um violino grande, era um violino normal, alguma coisa aconteceu e ele foi num ateliê para arumar e essa pessoa sem permissão, sem falar para ninguém, abriu e escreveu 'Heil Hitler' dentro e não havia como fazer isso sem abrir o violino - e isso eu posso confirmar. E então ele devolveu o violino para o homem judeu, que tocou com o violino de 'Heil Hitler' por toda a sua vida. Os alemães não cometeram apenas atrocidades contra pessoas, mas também contra instrumentos.
G1 - Como foi receber o primeiro violino vindo com uma história do Holocausto?
Amnon - 
Em primeiro lugar, [...] um violino é um violino. Mas um violino com um enorme passado histórico é completamente diferente. E cada violino tem uma história diferente. O primeiro que me chegou foi muito muito especial pois veio do ateliê do homem que foi o professor do meu pai. Então era um violino judaico, com duas estrelas de Davi, uma inscrição em iídiche e veio do professor de meu pai. O que pode ser melhor que isso? Nada.
G1 - Sobre as estrelas de Davi nos violinos: todos tinham a inscrição? Era uma tradição?
Amnon - 
Não, não, não, não cometa esse erro. Os tocadores judeus tocavam em qualquer instrumento. Nessa época, estamos falando de 1900, metade de 1800, era muito comum nas casas judaicas ter violinos, para tocar nas nossas festividades. Eles eram mais comuns no leste europeu - no oeste não se encontra esses violinos - e em geral eram muito baratos. A decoração era feita pelos judeus e cristãos faziam cruzes também. Neste caso, todos esses instrumentos, na nossa tradição, eram pregados na parede, pois para os judeus ortodoxos era proibido pregar qualquer pintura ou ter escultura nas casas, então eles tinham violinos.
G1 - Quanto tempo o senhor leva para restaurar um violino assim? Como é o processo?
Amnon - 
Esses violinos da exposição [nos EUA] levaram um ano e meio. Cada um leva entre três e seis meses. Depende das condições que eles estão. Os violinos que vieram do Holocausto estão em péssimas condições.
G1 - O senhor acredita que todo violino fica com a marca de seu dono? Como isso acontece?
Amnon - 
Sim, sim. Todo violino é tocado pelo tipo de som que o músico gosta e colocado dentro do violino. E quando você é um violinista profissional você pode ouvir isso, quando você toca nele hoje. E é muito sabido, por exemplo se pegarmos um instrumento pertencente a um grande nome e se tocar corretamente você pode ouvir o jeito que a pessoa tocava nele. É algo muito especial, mas é preciso ser um violinista educado para isso. Mas é possível sentir.
G1 - O senhor também faz registros escritos, documenta as histórias desses violinos?
Amnon - 
Eu tomo minhas notas e registro qualquer informação que conseguir, a restauração que fiz. E agora, um professor da orquestra daqui vai escrever um livro sobre os violinos, até os que não estão na exposição. [...] Na minha coleção eu tenho 20 outros violinos que não estão contabilizados, pois não estão em condições de serem tocados e vieram da filarmônica de Israel.
G1 - Quantos violinos têm informações sobre os donos?
Amnon -
 Tem um que temos todas as informações sobre o dono e uma foto dele tocando. Aí outro é o que era do meu pai - não estava no Holocausto, mas salvou sua vida, podemos dizer - há outro violino, vindo da Romênia, cujo dono veio para Israel, e ele tocava para os vizinhos em festividades e toda comida que ele conseguia ele levava para os guetos, então no fim do dia cerca de 18 pessoas sobreviveram com essa comida extra.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Após Curió e Ustra, MPF denunciará outros militares por atuação na ditadura


Fonte: Portal UOL
O coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, durante evento organizado em 2007 no Clube Militar, no Rio de Janeiro, para homenageá-lo; Ustra foi denunciado pelo MPF por crimes cometidos durante a ditadura
Depois de denunciar criminalmente os coronéis reformados Sebastião Curió Rodrigues de Moura, em março, e Carlos Alberto Brilhante Ustra (foto), além do delegado da Polícia Civil de São Paulo Dirceu Gravina, nessa terça-feira (24), o Ministério Público Federal (MPF) pretende oferecer, nos próximos meses, novas denúncias contra militares que teriam participado de sequestros durante a ditadura (1964-85).
Segundo a procuradoria, esse tipo de denúncia não está em desacordo com a Lei da Anistia, cuja validade foi reafirmada em julgamento do STF (Supremo Tribunal Federal) em 2010, uma vez que o sequestro de desaparecidos políticos, no entendimento do MPF, é um crime permanente, diferentemente do crime de homicídio, esse sim, previsto na Lei de Anistia.
Isso quer dizer que, para a procuradoria, os denunciados podem ser condenados pelos crimes, ao contrário do que ocorreria se a denúncia fosse por homicídio ou outro crime prescritivo. Entretanto, no caso de Curió, o único já julgado, a denúncia foi rejeitada pela Justiça Federal de Marabá (PA). O MPF recorreu da decisão e aguarda o julgamento do recurso.
As investigações estão sendo feitas por procuradores do Grupo de Trabalho Justiça de Transição, criado em outubro do ano passado para apurar crimes cometidos na ditadura. Fazem parte do grupo procuradores de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pará e do Distrito Federal.
Só no Estado de São Paulo há 14 processos que podem resultar em denúncias de sequestro. No Rio, os procuradores investigam vários desaparecimentos de presos que passaram pelo DOI-Codi (Destacamento de Operações Internas, órgão de repressão da ditadura militar) da capital e pela Casa de Petrópolis, centro clandestino do Exército localizado na cidade serrana.
No Rio Grande do Sul, as investigações são de desaparecimentos relacionados com a Operação Condor, implantada conjuntamente nos países do Cone Sul. Já no Pará, o MPF apura sequestros contra militantes da Guerrilha do Araguaia. Investigações também ocorrem em Santa Catarina e Sergipe. Os procuradores não sabem precisar quantas dessas investigações resultarão em denúncias.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Deus e suas múltiplas faces

Fonte: Portal G1


Deus bíblico pode ser fusão de vários deuses pagãos, dizem especialistas

Personalidade e atributos de Javé são compartilhados com outras divindades do Oriente.
Pai celestial El, jovem guerreiro Baal e até 'senhora' Asherah teriam sido influências.

Reinaldo José LopesDo G1, em São Paulo

A afirmação pode soar desrespeitosa para judeus ou cristãos, mas não está muito longe da verdade: Javé, o Deus do Antigo Testamento, parece ter múltiplas personalidades. Para ser mais exato, especialistas que estudam os textos bíblicos, lêem antigas inscrições encontradas nos arredores de Israel ou escavam sítios arqueólogicos estão reconhecendo a influência conjunta de diversos deuses pagãos antigos no retrato de Javé traçado pela Bíblia.

Leia mais notícias da série Ciência da Fé 

A idéia não é demonstrar que o Deus bíblico não passa de mais um personagem da mitologia. Os pesquisadores querem apenas entender como elementos comuns à cultura do antigo Oriente Próximo, e principalmente da região onde hoje ficam o estado de Israel, os territórios palestinos, o Líbano e a Síria, contribuíram para as idéias que os antigos israelitas tinham sobre os seres divinos. As conclusões ainda são preliminares, mas há bons indícios de que Javé é uma fusão entre um deus idoso e paternal e um jovem deus guerreiro, com pitadas de outras divindades – uma delas do sexo feminino.

Foto: Reprodução
O deus cananeu El, retratado como um pai sábio e idoso, foi muito importante nos primórdios da religião israelita (Foto: Reprodução)

O ponto de partida dessas análises é o fundo cultural comum entre o antigo povo de Israel e seus vizinhos e adversários, os cananeus (moradores da terra de Canaã, como era chamada a região entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo em tempos antigos). A Bíblia retrata os israelitas como um povo quase totalmente distinto dos cananeus, mas os dados arqueólogicos revelam profundas semelhanças de língua, costumes e cultura material – a língua de Canaã, por exemplo, era só um dialeto um pouco diferente do hebraico bíblico.
 Memórias de Ugarit
Os cananeus não deixaram para trás uma herança literária tão rica quanto a Bíblia. No entanto, poucos quilômetros ao norte de Canaã, na atual Síria, ficava a cidade-Estado de Ugarit, cuja língua e cultura eram praticamente idênticas às de seus primos do sul. Ugarit foi destruída por invasores bárbaros em 1200 a.C., mas os arqueólogos recuperaram numerosas inscrições da cidade, nas quais dá para entrever uma mitologia que apresenta semelhanças (e diferenças) impressionantes com as narrativas da Bíblia. “Por isso, Ugarit é uma parte importante do fundo cultural que, mais tarde, daria origem às tribos de Israel”, resume Christine Hayes, professora de estudos clássicos judaicos da Universidade Yale (EUA).

Uma das figuras mais proeminentes nesses textos é El – nome que quer dizer simplesmente “deus” nas antigas línguas da região, mas que também se refere a uma divindade específica, o patriarca, ou chefe de família, dos deuses. “Patriarca” é a palavra-chave: o El de Ugarit tem paralelos muito específicos com a figura de Deus durante o período patriarcal, retratado no livro do Gênesis e personificado pelos ancestrais dos israelitas: Abraão, Isaac e Jacó.

Nesses textos da Bíblia há, por exemplo, referências a El Shadday (literalmente “El da Montanha”, embora a expressão normalmente seja traduzida como “Deus Todo-Poderoso”), El Elyon (“Deus Altíssimo”) e El Olam (“Deus Eterno”). O curioso é que, na mitologia ugarítica, El também é imaginado vivendo no alto de uma montanha e visto como um ancião sábio, de vida eterna.

Tal como os patriarcas bíblicos, El é uma espécie de nômade, vivendo numa versão divina da tenda dos beduínos; e, mais importante ainda, El tem uma relação especial com os chefes dos clãs, tal como Abraão, Isaac e Jacó: eles os protege e lhes promete uma descendência numerosa. Ora, a maior parte do livro do Gênesis é o relato da amizade de Deus com os patriarcas israelitas, guiando suas migrações e fazendo a promessa solene de transformar a descendência deles num povo “mais numeroso que as estrelas do céu”.
 Israel ou “Israías”?
Outros dados, mais circunstanciais, traçam outros elos entre o Deus do Gênesis e El: num dos trechos aparentemente mais antigos do livro bíblico, Deus é chamado pelo epíteto poético de “Touro de Jacó” (frase às vezes traduzida como “Poderoso de Jacó”), enquanto a mitologia ugarítica compara El freqüentemente a um touro. Finalmente, o próprio nome do povo escolhido – Israel, originalmente dado como alcunha ao patriarca Jacó – carrega o elemento “-el”, lembra Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP).

“É o nome do deus cananeu, mais um indício de que Israel surge dentro de Canaã, por um processo gradual”, diz Silva. Ele argumenta que, se Javé fosse desde sempre a divindade dos israelitas, o nome desse povo seria “Israías”. Isso porque o elemento adaptado como “-ías” em português (algo como -yahu) era, em hebraico, uma forma contrata do nome “Javé”. Curiosamente, o elemento se torna dominante nos chamados nomes teofóricos (ligados a uma divindade) dados a israelitas no período da monarquia, a partir dos séculos 10 a.C. e 9 a.C.

E esse nome (provavelmente Yahweh em hebraico; a sonoridade original foi obscurecida pelo costume de não pronunciar a palavra por respeito) é um enigma e tanto. As tradições bíblicas são um tanto contraditórias, mas pelo menos uma fonte das Escrituras afirma que Javé só deu a conhecer seu verdadeiro nome aos israelitas quando convocou Moisés para ser seu profeta e arrancar os descendentes de Jacó da escravidão no Egito. (A Moisés, Deus diz que apareceu a Abraão, Isaac e Jacó como “El Shadday”.) O problema é que ninguém sabe qual a origem de Javé, o qual nunca parece ter sido uma divindade cananéia, exatamente como diz o autor bíblico.
 Senhor do deserto
A esmagadora maioria dos arqueólogos e historiadores modernos não coloca suas fichas no Êxodo maciço de 600 mil israelitas (sem contar mulheres e crianças) do Egito, por dois motivos: a semelhança entre Israel e os cananeus e a falta de qualquer indício direto da fuga. Mas muitos supõem que um pequeno componente dos grupos que se juntaram para formar a nação israelita tenha sido formado por adoradores de Javé, que acabaram popularizando o culto. Quem seriam esses primeiros javistas? Uma pista pode vir de alguns documentos egípcios, que os chamam de Shasu – algo como “nômades” ou “beduínos”.

“Duas ou três inscrições egípcias mencionam um lugar chamado 'Yhwh dos Shasu', o que, para alguns especialistas, parece ser 'Javé dos Shasu'. Talvez sim, talvez não. Não temos como saber ao certo”, diz Mark S. Smith, pesquisador da Universidade de Nova York e autor do livro “The Early History of God” (“A História Antiga de Deus”, ainda sem tradução para o português).

“É menos provável que o culto a Javé venha de dentro da Palestina e da Síria, e um pouco mais plausível que ele tenha se originado em certas regiões da Arábia”, diz Airton da Silva. Mark Smith lembra que algumas das passagens poéticas consideradas as mais antigas da Bíblia – nos livros dos Juízes e nos Salmos, por exemplo – referem-se ao “lar” de Javé em locais denominados “Teiman” ou “Paran”. Aparentemente, são áreas desérticas, apropriadas para a vida de nomadismo. “Muitos especialistas localizam essa região no que seria o noroeste da atual Arábia Saudita, ao sul da antiga Judá [parte mais meridional dos territórios israelitas]”, diz Smith.
Foto: Reprodução
Baal, retratado como guerreiro (provavelmente a estatueta tinha uma lança na mão), lembra Javé por causa de sua luta contra monstros marinhos (Foto: Reprodução )
 Guerreiro divino
Seja como for, quando Javé entra em cena com seu “nome oficial” durante o Êxodo bíblico, a impressão que se tem é que ele já absorveu boa parte das características de um outro deus cananeu: Baal (literalmente “senhor”, “mestre” e, em certos contextos, até “marido”), um guerreiro jovem e impetuoso que acabou assumindo, na mitologia de Ugarit e da Fenícia (atual Líbano), o papel de comando que era de El.

Indícios dessa nova “personalidade” de Deus surgem no fato de que, pela primeira vez na narrativa bíblica, Javé é visto como um guerreiro, destruindo os “carros de guerra e cavaleiros” do Faraó e, mais tarde, guiando as tribos de Israel à vitória durante a conquista da terra de Canaã. Tal como Baal, Javé é descrita como “cavalgando as nuvens” e “trovejando”. E, mais importante ainda, uma série de textos bíblicos falam de Deus impondo sua vontade contra os mares impetuosos (como no caso do Mar Vermelho, em que as águas engolem o exército egípcio por ordem divina) ou derrotando monstros marinhos.

Há aí uma série de semelhanças com a mitologia cananéia sobre Baal, o qual derrotou em combate o deus-monstro marinho Yamm (o nome quer dizer simplesmente “mar” em hebraico) ou “o Rio” personificado. Na mitologia do Oriente Próximo, as águas marinhas eram vistas como símbolos do caos primitivo, e por isso tinham de ser derrotadas e domadas pelos deuses.

Javé também é associado à chuva e à fertilidade da terra pelos antigos autores bíblicos – atributos que aparecem entre as funções de Baal. Há, porém, uma diferença importante entre os dois deuses: outra narrativa de Ugarit fala do assassinato de Baal pelas mãos de Mot, o deus da morte, e da ressurreição do jovem guerreiro – provavelmente uma representação mítica do ciclo das estações do ano, essencial para a agricultura, já que Baal era um deus que abençoava a lavoura.

O lado guerreiro de Javé é talvez o mais difícil de aceitar para a sensibilidade moderna: quando os israelitas realizam a conquista da terra de Canaã, a ordem dada por Deus é de simplesmente exterminar todos os habitantes, e às vezes até os animais (embora, em alguns casos, os homens de Israel recebam permissão para transformar as mulheres do inimigo em concubinas).
Foto: Reprodução
Inscrição feita por ordem de Mesa, rei de Moab (país vizinho do antigo Israel): texto fala de genocídio por ordem divina, tal como se vê nos textos bíblicos (Foto: Reprodução )
Textos de outra nação da área, os moabitas (habitantes de Moab, a leste do Jordão) ajudam a lançar luz sobre esse costume aparentemente bárbaro. Um monumento de pedra conhecido como a estela de Mesa (nome de um rei de Moab em meados do século 9 a.C.) fala, ironicamente, de uma guerra de Mesa com Israel na qual o rei moabita, por ordem de seu deus, Chemosh, decreta o herem, ou “interdito”. E o herem nada mais é que a execução de todos os prisioneiros inimigos como um ato sagrado. Tratava-se, portanto, de um elemento cultural de toda a região.
 Lado feminino
Se a “múltipla personalidade” de Javé pode ser basicamente descrita como uma combinação de El e Baal, há uma influência mais sutil, mas também perceptível, de um elemento feminino: a deusa da fertilidade Asherah, originalmente a esposa de Baal na mitologia cananéia. Normalmente, Deus se comporta de forma masculina na Bíblia, e a linguagem utilizada para falar de sua relação com os israelitas é, muitas vezes, a de um marido (Deus) e a esposa (o povo de Israel). Mas o livro bíblico dos Provérbios, bem como alguns outras fontes israelitas, apresenta a figura da Sabedoria personificada, uma espécie de “auxiliar” ou “primeira criatura” de Deus que o teria auxiliado na obra da criação do mundo.

Segundo o texto dos Provérbios, Deus “se deleita” com a Sabedoria e a usa para inspirar atos sábios nos seres humanos. Para muitos pesquisadores, a figura da Sabedoria incorpora aspectos da antiga Asherah na maneira como os antigos israelitas viam Deus, criando uma espécie de tensão: embora o próprio Deus não seja descrito como feminino, haveria uma complementaridade entre ele e sua principal auxiliar.