As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de setembro

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A figura da bruxa e sua perseguição

De acordo com o senso comum, magia e bruxaria poderiam ser vistos como algo que tivessem mais ou menos, numa relação de semelhança, embora possa-se pensar que magia assinale algo mais elevado, mais nobre e por outro lado, a bruxaria representasse algo mais perigoso e terrível.
Porém, popularmente, a magia "natural" e mesmo a magia "cerimonial" não têm nada a ver com a bruxaria. O discurso é diferente se usamos outras distinções, na verdade menos antigas e autorizadas, mas infelizmente difundidas hoje em dia: da "magia branca" e "magia negra", por exemplo, que nasce de muitos equívocos; ou aquela - muito empírica – da "alta magia" e da "baixa magia" ("baixa" seja no sentido de vulgar, material ou de terrena e mesmo demoníaca.)

"O sabá das feiticeiras", xilogravura anônima, séc. XV.

Na verdade, todas estas distinções têm uma raiz nobre. Trata-se do De Civitate Dei (A Cidade de Deus) ou do Divinatione Daemonium (A adoração ao demônio) de Santo Agostinho, obras nas quais - com forte sentido polêmico contra os gnósticos - ele discute a distinção gnóstica entre duas formas de invocar os espíritos e de dominar, através de sua sabedoria, a natureza, ou de conhecer o futuro com a sua ajuda. Estas duas formas são, em grego, a teurgia ("arte de atuar com os deuses") e a goeteia ("arte de atuar com as coisas da terra, da matéria"). Atuando em teurgia, diziam os gnósticos, nos referimos apenas a espíritos bons, puros, superiores, com cerimônias puras e em situações sempre boas; atuando em goeteia (o que permanecia, ao nível teórico, coisa vergonhosa e perigosa, pois proibida), entramos em contato com espíritos maus, inquietos, infelizes, que buscam sacrifícios impuros para manifestarem-se e sempre gozam com o sangue e outras coisas sujas. Com esses espíritos só se atua quando se quer fazer o mal.
Gravura "Feiticeiras", Albrecht Dürer, 1491.

A resposta de Santo Agostinho aos gnósticos sobre esse ponto coincide com a fundação da demonologia cristã. Esclarecendo que a goeteia é, sem dúvida, ciência diabólica, Agostinho demonstra que a teurgia também o é, porque os únicos espíritos que querem entrar em contato com os homens, sem a ordem de Deus, são espíritos maus.
Podemos, de toda maneira, aceitar a visão comum, que faz coincidir "baixa magia" e "bruxaria"?
A resposta a essa pergunta, se quer ser correta, tem que ser colocada em dois níveis distintos: histórico e antropológico. No histórico o saber mágico apresenta-se como um conjunto complexo de fatores, uma "visão do mundo" orgânica, que também permite a ação prática nas coisas. Há, sem dúvida, na fenomenologia do ato mágico, rituais que se podem aproximar da feitiçaria ou da bruxaria, mas a distinção está, seja no método, seja no plano da sabedoria e do conhecimento. O mago age porque e na medida em que conhece as relações entre as coisas; a bruxa só conhece, e de forma mecânica, alguns atos que determinam alguns efeitos nas relações de causa e efeito.


Gravura presente no Martelo das Feiticeiras (Malleus Maleficarum), 1484.

O espanhol bruja e o português bruxa são palavras usadas no mesmo sentido em que se usaram strega em italiano, sorcière em francês, witch em inglês, Hexe em alemão, e todas estas palavras traduzem o que nos documentos latinos, a partir do século 13, se entendia por palavras como incantatrix ou malefica (as palavras strix ou striga se afirmaram, no sentido que nos interessa, só mais tarde. Menos freqüentemente se usou também lamia e arlia ).
Nossa cultura europeia tem duas raízes: a primeira é bíblica, a segunda greco-romana. Atrás de ambas há uma ampla história de encontros, de relações, de misturas. Nós, aqui, não podemos falar disso. Limitamo-nos, então, à Bíblia e aos gregos e romanos. A Bíblia proíbe o que, em sua tradução latina, é carmina, incantationes, maleficia; ela condena os arioli e os incantatores. Ela proíbe, também, toda forma de investigação do futuro e de interrogação dos mortos, como se vê no episódio do rei Saul e da pithonissa de Endor.

Gregos e romanos têm uma atitude diferente. Sem dúvida há homens, e sobretudo mulheres, que fazem prodígios, até trazer a lua do céu e fazer com que a corrente dos rios corra ao contrário, subindo da foz à fonte; mulheres que podem, também, controlar a metamorfose de seres humanos em animais e dar ordens aos mortos. Desde as divinas Circe e Medéia, filhas do sol, até as incantatrices - algumas repugnantes - das quais nos falam Virgílio, Ovídio, Horácio, Lucano, Stacio e Apuleio, a cultura clássica nos oferece um quadro fenomenológico completo da bruxaria. Mas tudo isso é chamado carmen ou então cantus, ou seja, "fórmula mágica", ou simplesmente maleficium, isto é - eufemisticamente -"mal feito", "crime".

A cultura medieval, muito antes do Renascimento, se enche de literatura latina. Os poetas latinos são inclusive auctoritates, ou seja, é difícil recusar o que eles apresentam como fatos seguros e verdadeiros. Santo Agostinho será obrigado a construir uma completa - e complexa - teoria teológica e demonológica para demonstrar que os prodígios mágicos são somente enganos demoníacos. Frente aos prodígios e rituais dos magos, entretanto, o papel da incantatrix torna-se ao mesmo tempo mais simples mas também mais obscuro, mais mau. O magus conhece as leis ocultas do universo, lê o caminho das estrelas, sabe quais são as relações entre os planetas, as pedras preciosas e a alma humana: é um sábio. A incantatrix não sabe ou não tem o cuidado de conhecer as coisas que emprega para atuar, e atuar de maneira má. A incantatrix é maléfica, porque faz o mal (feiticeira de "fazer" ?). 

Ela atua, sobretudo, em três direções:

1. A metamorfose. A incantatrix pode transformar-se em animal (frequentemente uma ave de rapina noturna, como um morcego ou uma coruja) e nessa forma perturbar sobretudo as crianças, sugando-lhes o sangue até a morte. Na origem, esta crença era estruturada ao contrário: havia gênios maus que à noite tomavam forma de pássaros sugadores de sangue e de dia a de velhas mulheres. A incantatrix pode também transformar os outros em animais.

2. A incantatrix atua como xamã: viaja ao país dos mortos, fala com eles e graças a eles prediz o futuro.

3. A incantatrix também faz, com seu carmen, seu cantus, rituais e ervas que ela conhece, maleficia que dão ou tiram amor, que matam as crianças no próprio seio materno, que podem chegar até à morte.
Essas são as características das incantatrix, que a antiguidade e a Idade Média nunca esqueceram, mas que ao longo de muitos séculos ficaram no fundo das crenças comuns. Com a Idade Média, entraram em contato com a cultura cristã - que permanecia bíblica e romana e não admitia a realidade dos poderes mágicos - e também com crenças novas de origem céltica, germânica, inclusive, mais tarde, eslava e báltica. As crenças em sua expressão folclórica muitas vezes se assemelham: mas a Igreja não parecia preocupar-se com todas aquelas coisas que ela chamava superstitiones, vanitates.

Gravura “Feiticeiras” Hans Baldung Grien, 1514.

Entre o século IX e o século XI, por exemplo, em algumas regiões alemãs, muitas mulheres confessavam aos curas que, à noite, enquanto seus corpos jaziam ao lado do marido na cama, seus espíritos voavam em cortejo atrás da deusa Diana. Segundo os curas que relatavam estas confissões, os bispos reagiam rindo e respondiam que tudo isso eram apenas sonhos de pobres mulheres insatisfeitas.

A crise do século XIV, que começou com uma série de anormalidades agrícolas muito desfavoráveis, e teve seu ápice da Peste Negra entre 1348 e 1350, criou uma situação muito ruim, que continuou até a metade do século XVII, caracterizada por epidemias, carestias, fome e mortalidade, sobretudo de crianças. No nível religioso, aconteceu que, nestes mesmos séculos, a Igreja teve que fazer frente a muitas heresias e, depois, sofrer a Reforma Protestante, que a cortou em duas. No nível político, estes séculos - desde o XIV  até o XVII - foram os mesmos em que se tentou criar os Estados modernos, que não admitiam que ninguém nem nada pudesse fugir do seu controle.

Na luta pela manutenção da supremacia, a Igreja perseguia as velhas superstições: desastres climáticos, econômicos e sociais para os quais era necessário encontrar um "bode expiatório" a quem atribuir responsabilidade, coincidindo também com o novo e duro controle da sociedade pelo estado absolutista. Estas três circunstâncias, atuando ao mesmo tempo, foram a origem da caça às bruxas como da perseguição de outros marginais, como os leprosos e os judeus.

Num primeiro momento, como se vê muito bem nos tratados inquisitoriais de Bernardo Gui e de Nicholas Eymerich - que são, os dois, do século XIV, o problema era ver se as bruxas (mas havia bruxos também) podiam ser consideradas heréticas, analisando suas ações e o desdobramento delas, que podia gerar o “abandono da fé verdadeira” e assim, seus seguidores buscavam adorar Satã.

                                   “A negação da Fé” xilogravura anônima, séc. XV.

Mas, em muitíssimos casos, a insistência das denúncias, inclusive, ou melhor, sobretudo populares, de acontecimentos de bruxaria, obrigou os inquisidores a considerá-las. As acusações mais frequentes eram de assassinato de crianças, de feitiçarias feitas, também, com o uso de coisas provenientes desses assassinatos (por exemplo, toucinho de crianças pequenas), de profanação de hóstias consagradas. Mais ou menos desde a metade do século quatorze começaram também as acusações de "encontros mágicos"  em que as bruxas chegavam transformadas em animais mágicos (sobretudo bodes), e onde se cozinhavam e se comiam carnes infantis e se mantinham relações sexuais promíscuas, inclusive com o próprio diabo. Essa prática presumida acabou denominando-se "sabá", desenvolvimento do "vôo mágico", do qual, no século XI, haviam apontado como "pouco provável" pelos bispos da Alemanha.

                                           

                           "Linda maestra "Gravura da série "Los Caprichos",  de Francisco Goya,1799.

Uma grande quantidade de superstições até então dispersas convergiu para esta nova imagem das bruxas, que era a imagem de uma mulher má, aliada do diabo e enlaçada a ele através de um pacto, cuja tarefa era a derrubada da cristandade. Foram os teólogos do século quinze que aperfeiçoaram os elementos que ainda faltavam à imagem "definitiva" da bruxa: o pacto com o diabo e a realidade dos poderes mágicos. Foi uma revolução teológica e jurídica que inaugurou a "caça às bruxas".

Quero que me permitam acentuar o caráter disperso - como acabo de dizer - dos elementos que começam a compor a imagem da bruxa. Estes elementos se refletem nas palavras vulgares que compreendem o que os textos latinos continuam chamando incantatrix, maleficia, lamia. No italiano a striga e a strighiera, ou mesmo, a ideia de strix se refere à ideia de metamorfose e de vampirismo; na língua francesa temos a sorcière, que vem de sortes e indica, antes de tudo, uma técnica de conhecimento do futuro; já no espanhol bruja, o português bruxa e o alemão Hexe referem-se ao caráter sagrado de antigas mulheres sábias, pagãs, que habitavam os bosques, e provêm de etimologias que indicam a madeira e as árvores; em inglês witch indica a sábia germânica, a Wicca (que no alemão significa wissen, "saber", "conhecer").
                                         
                                          "O beijo obsceno", xilogravura anônima, séc. XV

Características comuns da bruxa nos finais da Idade Média, como as que se veem no Malleus Maleficarum dos frades dominicanos, Kramer e Sprenger (1484), são o voo mágico, o pacto com o diabo, o assassinato das crianças, a destruição de farinha e de colheitas, a metamorfose animal. É a construção de um perfeito "bode expiatório", ao qual, até a metade do século dezessete, serão atribuídas as responsabilidades por toda a má sorte do Ocidente. O que não significa que não existiam bruxas, no sentido de que não existissem mulheres que afirmavam - também espontaneamente, para ganhar dinheiro - serem bruxas. Mas, em última instância, o que era a bruxaria? Uma ficção, uma burla, uma mentira feita para enganar os ingênuos? Uma ilusão criada, inclusive pelas próprias bruxas, quando sob o efeito de substâncias alucinógenas ou de sonhos ou de loucura?



Talvez um misto de todas estas coisas. Quem estuda a bruxaria tem que lembrar que limitar-se à fenomenologia é mais prudente do que tentar uma tipologia; e que nunca será possível estudar as bruxas em si mesmas porque sua voz livre nunca chegou até nós, obrigados a estudá-las através dos documentos de teólogos e inquisidores. Indiretamente. O que vale, por fim, é que os clientes das bruxas são muito mais interessantes que as próprias bruxas. Porque as bruxas são, antes de mais nada, consolatrices afflictorum, vendedoras de sonhos e de ilusões de potência, de triunfo, de vitória, de vingança. E são bodes expiatórios dos maus pensamentos de uma sociedade cheia de desejos e de medo, de vícios e de impotência. A bruxaria triunfa quando não há esperança de outra redenção, nem social nem cultural.

                                                  “A visão do Inferno”, anônimo, séc. XVIII

Documento histórico: 
Bula Summis desiderantes (1484)
Inocêncio VIII (1484-1492)
Inocêncio, Bispo, Servo dos servos de Deus, memória eterna
Ansiamos por com a mais profunda ansiedade, como exigido pelo nosso apostolado, que a fé católica para crescer e florescer em todos os lugares, especialmente em nossos dias, e que toda depravação herética ser removidos os limites e fronteiras dos fiéis, e com grande alegria e até mesmo proclamar restaura os meios e os métodos através dos quais o nosso desejo piedoso para obter o efeito desejado, porque, quando todos os erros foram Mostrar arrancadas pelo trabalho diligente, ajudados pela enxada de um providente agricultor zelo, para a nossa Santa Fé e observância regular que irá imprimir mais fortemente nos corações dos fiéis.
De fato, nos últimos tempos veio aos nossos ouvidos, mas não aflito com amarga tristeza, a notícia de que em algumas partes do norte da Alemanha e nas províncias, municípios, territórios, distritos e dioceses Mungúcia, Colônia, Trier, Salzburgo e Bremen, muitas pessoas de ambos os sexos, sem se importar com sua salvação e removido da fé católica, foram abandonados a demônios, íncubos e súcubos, e pelos seus encantamentos, feitiços, encantamentos e feitiços outros execráveis e artefatos, enorme e crimes horríveis, mataram os filhos que ainda estavam no útero, que também fez a prole de gado, que arruinou os produtos da terra, as uvas da vinha, os frutos das árvores ainda mais, para mulheres e homens, animais de carga, rebanhos e animais de outras espécies, vinhas, pomares, prados, pastagens, trigo, cevada, e qualquer outro cereal; esses infelizes também perseguir e atormentar homens e mulheres, bestas de carga, rebanhos e animais de outras espécies, com dores terríveis e dolorosas condições, tanto internos como externos; impedir os homens de ter relações sexuais e mulheres engravidar, de modo que o casal não pode conhecer as suas mulheres, ou aqueles que recebem.

Além disso, como blasfema a renunciar sua fé é deles pelo Sacramento do Batismo, e por instigação do Inimigo da Humanidade não é abrigo de cometer e perpetrar os mais horríveis abominações e excessos mais sujo, com o perigo moral de sua alma , que ultrajaram a Majestade Divina e são causa de escândalo e perigo para muitos. E embora nosso amado filhos Heinrich Kramer e James Sprenger, professores de teologia da Ordem dos Frades Pregadores, foram nomeados, por Cartas Apostólicas inquisidores para investigar as práticas dessas depravações heréticas, e ainda são, o primeiro nas regiões citadas no norte da Alemanha, incluindo os municípios acima mencionados, distritos, dioceses e outros locais específicos, e o segundo em determinados territórios que se estendem ao longo das margens do Reno.  Devem descobrir mais coisas que lhes dizem respeito, e como já mencionado nas cartas de delegação expressa sem mencionar nomes específicos destas províncias, cidades, dioceses e distritos, e dado que os dois delegados e abominações que eles terão de enfrentar não são designados em detalhes e especiais, essas pessoas não têm vergonha de afirmar, com a máxima desfaçatez, que essas atrocidades não são praticados nas províncias.

Inquisidores não têm o direito legal de exercer os seus poderes inquisitoriais nas províncias, cidades, dioceses, distritos e territórios referidos acima, e não pode continuar punindo e corrigindo os criminosos presos condenados por crimes hediondos e os a muitos males foram expostos. Portanto, no referido províncias, cidades, dioceses e distritos, as abominações e atrocidades em questão continuam a doença de altura, não sem perigo aparente para a alma de muitos e ameaça a condenação eterna.
Porque nós, como é nosso dever, nós profundamente ansiosos para remover todos os impedimentos e obstáculos que podem atrasar e dificultar o bom trabalho dos inquisidores, e aplicar remédios poderosos para prevenir a doença de heresia e infâmia outros dão a sua destruição ritmo veneno de muitas almas inocentes, e como o nosso zelo pela fé nos inspira a fazer em particular, e para estas províncias, cidades, dioceses, distritos e Alemanha, já especificadas, não estão privados dos benefícios do Santo Ofício que lhes são atribuídas pelo tenor destes presentes, e em virtude de Nossa. Autoridade apostólica Nós decretamos e ordenamos que os inquisidores citada poderes para proceder à sua correção, prisão e punição de qualquer povo justo, sem impedimento ou obstáculo em todos os sentidos, como se as províncias, cidades, dioceses, distritos, territórios, e até mesmo os indivíduos e seus crimes, tinham sido especificamente nomeados e particularmente designados em Nossas cartas. Além disso, nós dizemos, e para a segurança estender essas cartas, a delegação dessa autoridade, de modo que eles atinjam as províncias acima mencionadas, cidades, dioceses, distritos e territórios, pessoas e crime agora referido, e dar permissão para os inquisidores citada cada um deles separadamente ou ambos, bem como Gremper, Nosso amado filho, John, sacerdote da diocese de Constança, como seu escrivão, tabelião ou outros para estar junto com eles, ou com um deles, temporariamente delegada às províncias, cidades, dioceses, distritos e territórios referidos, a fim de proceder, de acordo com as regras da Inquisição, contra qualquer pessoa, independentemente do status posição ou riqueza, e para corrigir, tudo bem, prender e merecem punição como seus crimes, que foram considerados culpados, a pena adaptar o grau da ofensa. Além disso, dizemos que apreciar a total e completa autoridade para expor e pregar a palavra de Deus aos fiéis, como muitas vezes como a oportunidade se apresenta como lhes parecer adequada em todas as igrejas paroquiais destas províncias e podem celebrar livremente e legalmente quaisquer ritos ou realizar quaisquer atos que parece aconselhável nos casos mencionados. Por Nossa autoridade suprema, nós garantimos o poder total e completa novamente.
Ao mesmo tempo, e Cartas Apostólicas, pedimos aos nossos irmão venerável bispo de Estrasburgo * que se anuncia ou através de outros fazem anunciar o conteúdo da nossa
Bula, quando solenemente publicar e sempre que necessário, ou quando ambos ou um deles inquisidores pediu para fazê-lo. Também assegurar que, em obediência ao nosso mandato não é para molestar ou impedir por qualquer autoridade, mas todos os que ameaçam tentar irritar ou assustar os inquisidores, todos os que se opõem a eles, esses rebeldes, independentemente da sua classificação , fortuna, posição, destaque dignidade, ou condição, o. , O que quer que os privilégios de isenção podem reivindicar, com a excomunhão, suspensão, interdição e penalidades, censuras e castigos ainda mais terríveis, e sem direito a recurso, e que, como desejado por Nossa autoridade pode acentuar e renovar estas penalidades, como muitas vezes como que acha conveniente, e chamada de sua ajuda, se assim o desejar, ao braço secular da justiça.
Portanto, ninguém. Mas se alguém presumir fazer tal coisa, Deus me livre. deixá-lo saber que ele vai cair sobre a ira de Deus Todo-Poderoso, e os Santos Apóstolos Pedro e Paulo.
Dada em Roma, junto de São Pedro no dia 9, Ano da Encarnação de Nosso Senhor 1448, no primeiro ano do nosso pontificado.


domingo, 11 de agosto de 2013

Hiroshima e Nagasaki: horror e vergonha para a Humanidade


No início de 1945 a guerra indicava a vitória aliada devido ao cerco das tropas alemãs em seu próprio território, graças à ação conjunta das frentes ocidental e oriental. Os soviéticos foram os primeiros a entrar em Berlim, tomando a cidade e encontrando Hitler e a cúpula nazista morta no quartel general do Führer após suicídio, terminando com a guerra na Europa em 8 de maio de 1945.

A guerra, no entanto, ainda acontecia no Pacífico por causa da resistência japonesa, principalmente com a ação dos camicases (expressão que significa “vento divino” em japonês e foi usada pelos pilotos que faziam ataques aéreos suicidas contra o exército dos EUA) contra a frota norte-americana.

A partir de uma decisão tomada pelo presidente dos Estados Unidos Harry Truman, (Franklin Roosevelt havia falecido em 12 de abril de 1945) foram feitos dois ataques às cidades de Hiroshima e Nagasaki, respectivamente em 06 e 09 de agosto de 1945, com uma nova e aterrorizante arma: a bomba atômica. Ambas as cidades foram quase que totalmente arrasadas, contabilizando mais de 150.000 mortos e milhares de feridos, além de pessoas contaminadas com a radiação por várias gerações.


Após a rendição incondicional, o Imperador Hirohito (1926-1989), foi à rádio e pela primeira vez, seu povo ouviu a voz daquele seria, segundo a tradição, um "ser divino que os governava", mas as notícias não eram nem um pouco agradáveis, pois Hirohito negou publicamente sua origem divina, afirmou que o exército imperial japonês fora derrotado e tinha se rendido incondicionalmente. A partir daí, o Japão se transformou numa monarquia parlamentar, cujo projeto de Constituição foi esboçado pelo General Douglas MacArthur, responsável pela ocupação militar do Japão de 1945 a 1952.



Tal notícia fora tão dura e profunda que, muitos seguiram uma outra tradição, uma vez que a derrota era entendida como desonra, só restava o suicídio.

Em 2 de setembro de 1945, o Estado-Maior japonês capitulava definitivamente a bordo do porta-aviões norte-americano Missouri , encerrando a II Guerra Mundial, que deixou um saldo de aproximadamente 50 milhões de mortos.

Já se passaram 68 anos dos ataques nucleares, mas ainda existem sequelas nos sobreviventes e uma marca indelével dos horrores cometidos pela Humanidade, que Vinícius de Moraes, registrou em versos na sua famosa Rosa de Hiroshima.

Rosa de Hiroshima
Vinícius de Moraes, 1973

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Sugestão:

O Sol. Direção: Aleksandr Sokúrov. Rússia/Itália/França/Suíça, 2005: Em 15 de agosto de 1945, os japoneses ouvem pela primeira vez a voz de seu imperador, que exorta seu exército e seu povo a pôr fim às hostilidades. Isso permite aos norte-americanos desembarcar nas ilhas japonesas sem encontrar resistência. O pedido do imperador ajuda a salvar muitas vidas, mas os vencedores exigem que Hirohito (Issei Ogata) compareça diante de um tribunal de guerra. O general MacArthur (Robert Dawson), comandante das tropas americanas no Pacífico sul, desaconselha o presidente Truman a converter Hirohito num criminoso de guerra.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Hospital da era das Cruzadas é descoberto em Jerusalém

Arqueólogos israelenses descobriram na velha Jerusalém uma estrutura de grandes dimensões que pertencia a um hospital do período das Cruzadas há cerca de mil anos, que era muito movimentado e abrigava até 2.000 pacientes.
É o que informa nesta segunda-feira em comunicado a Autoridade de Antiguidades de Israel (AAI, na sigla em inglês), que realizou as escavações e encontrou uma galeria de arcos, de até seis metros de altura, do período das Cruzadas (1099-1291 d.C.).
O edifício, propriedade do Waqf, a autoridade de bens inalienáveis islâmicos, está situada no coração do bairro cristão da cidadela antiga de Jerusalém, em uma área conhecida como Muristan. Há cerca de dez anos, o lugar era ocupado por um movimentado mercado de frutas e verduras, mas desde então tenha ficado em desuso.
De acordo com a pesquisa, a estrutura descoberta é apenas uma pequena parte do que foi o grande hospital que parece abranger uma área que compreende 1,5 hectare.
Sua arquitetura é caracterizada por vários pilares e abóbadas de mais de seis metros, o que sugere que foi uma ampla estadia composta por pilares, quartos e pequenas salas.
Os coordenadores da escavação, Renee Forestany e Amit Reem, pesquisaram documentos da época para conhecer a história do centro ambulatório.
"Aprendemos sobre o hospital por documentos históricos contemporâneos, a maior parte em latim", contam, e explicam que os textos mencionam a existência de um sofisticado hospital construído por uma ordem militar cristã denominada "Ordem de San Juan do Hospital em Jerusalém".
Seus integrantes prometeram cuidar e atender os peregrinos na Terra Santa, e quando fosse necessário somar-se aos combatentes cruzados como unidade de elite.

Assim como nos modernos hospitais, o edifício estava dividido em diferentes alas e departamentos segundo a natureza das doenças e condição dos pacientes, e em situações de emergência podia ter capacidade de tratar 2 mil pessoas.
Os integrantes da ordem atendiam homens e mulheres doentes de diferentes religiões e também acolhiam recém-nascidos abandonados pelos pais.
Os órfãos eram atendidos com grande dedicação e, quando adultos, passavam a integrar a ordem militar, diz o comunicado.
A AAI destaca, no entanto, que quanto à medicina e à higiene, os cruzados eram ignorantes, e como exemplo cita um depoimento da época relatando que um médico amputou a perna de um cavaleiro por uma pequena ferida infectada, levando o paciente à morte.
Grande parte do edifício desmoronou durante um terremoto em 1457 e suas ruínas ficaram sepultadas até o período Otomano. Na Idade Média, parte da estrutura foi usada como estábulo e foram encontrados ossos de cavalos e camelos.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Tribunal da Santa Inquisição: um exemplo de intolerância



A Cristandade medieval enfrentava não só inimigos externos, como foi o caso dos muçulmanos ou judeus, mas também inimigos internos que se encontravam entre seus fiéis, os hereges. A palavra heresia vem do grego hairesis e significa "escolha", desta forma, ser um herege era escolher uma interpretação diferente dos Dogmas (Verdade Absoluta revelada por Deus) da Igreja Católica.

Em contrapartida, a Igreja defendia a tese de que a salvação era coletiva, portanto, todos devem obedecer as leis de Deus para obter a salvação. Quando aparecia alguém entre o "rebanho de Deus" que negava algum dogma da Igreja, tal ato representava uma ameaça e a Igreja deveria reconduzir a "ovelha desgarrada" para seu seio, usando se necessário, a força.

As manifestações heréticas são uma presença antiga que remontam aos primeiros séculos do cristianismo, quando a Igreja ainda se forma e buscava definir o que era a sua doutrina e mesmo que as posições divergentes fossem reprimidas, continuaram a aparecer em diferentes pontos da Europa outras formas de questionamento e cada vez mais a Igreja procurou reprimi-los. 

A implantação dos tribunais da Inquisição e suas características

O processo de organização dos tribunais medievais da Inquisição foi marcado por uma interação entre os inquisidores das diferentes províncias, que, representavam a autoridade papal naquela região, garantindo para Roma o centro das decisões.
No contexto dos séculos XIII e XIV, era comum a circulação dos inquisidores, ora ocupando o controle de um tribunal numa cidade, ora passando para outra, além de trocarem um extensa correspondência, compartilhando questões complexas, solicitando consultas aos pares na condução dos procedimentos jurídicos, tendo nesse contexto, a composição da Inquisição as ordens mendicantes dos franciscanos e dominicanos.

Neste contexto, começam a surgir as ordens mendicantes, irmandades religiosas que pregam a pobreza e condenam o luxo e a ostentação de Roma, destacando-se a Ordem dos Irmãos Menores, fundada por Francisco de Assis, um  filho de um rico comerciante, que abandonou todos seus bens, pregando voto de pobreza. No intuito de trazê-las para o controle da Igreja, essa Ordem foi reconhecida pelo papa em 1209, mas essa sorte não recaiu sobre outros movimentos que insistiam na contestação do poder e da riqueza da Igreja. Morreu em 1226 e foi canonizado dois anos depois.
A tensão social e a dificuldade de lidar com diferentes formas de religiosidade levaram à multiplicação das ações de pregação e doutrinação dos fiéis, procurando aproximá-los da doutrina e, quem sabe, conter eventuais desregramentos que pudessem dar espaço ao pensamento herético. No mesmo contexto, surge a Ordem dos Irmãos Pregadores (hoje conhecida como Ordem Dominicana), fundada por Domingos de Gusman em 1216, uma ordem mendicante que buscava através da pregação preservar o rebanho divino.

Em 1231, a Santa Inquisição foi entregue ao controle dos dominicanos, que passaram a atuar, além da pregação, na ação repressora mais incisiva, fato que lhe rendeu alguns nomes de peso como Bernard Guy (autor de um manual dos inquisidores, entre outros textos) ou Tomás de Aquino (autor da Suma Teológica e um dos principais articuladores do pensamento escolástico pela releitura de Aristóteles).
O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição tem sua função desdobrada da expressão latina inquerire: inquerir,  dessa forma, inquisitio, ou seja, inquérito, questionamento e, daí a origem para o termo “Inquisição”.

O processo movido pela Inquisição era amparado pelo Direito Canônico (conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja Católica), ao qual estavam submetidos membros do clero e todos os fiéis, tudo orientado pela perspectiva da salvação da alma e do cumprimento da doutrina santa defendida pela Igreja.
Em diferentes regiões da Europa ocidental, no século XII, as tensões sociais envolvendo a contestação da ordem vigente, tanto civil quanto religiosa, motivou a observação destes fenômenos de forma mais próxima e assim, começava o movimento de nomear bispos para visitarem, ao menos duas vezes no ano, as paróquias suspeitas de alguma manifestação herética.

Os “bispos visitadores” ganham a distinção de “Inquisidores Ordinários” e buscavam provas concretas da manifestação herética: contestação dos dogmas (negação ou reinterpretação), manifestações de práticas pagãs ou feitiçaria (superstições para a boa colheita), além de conduta social inadequada (a homossexualidade vista como “perversão”, as blasfêmias).
Ao chegar na paróquia era instituído o “Tempo de Graça”, um período de aproximadamente um mês, quando o inquisidor esperava que, de livre e espontânea vontade, os pecadores comparecessem à sua presença e declarassem suas faltas, demonstrando arrependimento para alcançarem a reconciliação. Por outro lado, também se acolhiam as denúncias, cabendo ao inquisidor direcionar à justiça civil a colaboração para efetuar prisões, caso o indiciado não comparecesse ao tribunal depois de ser intimado.

A denúncia nem sempre era fundamentada, ou seja, acompanhada de provas concretas. Havia um estímulo aos fiéis para apontarem entre seus irmãos aqueles que estavam “incorrendo em erros” e ao examinar muitos processos, não é difícil encontrar nas citações dos denunciantes, expressões vagas como “ouvi dizer que fulano...”, mas ao olhos do inquisidor, estas tinham um valor concreto.
O acusado era advertido constantemente sobre a necessidade de assumir suas faltas, declarando-se culpado, senão, sua situação seria a condenação e assim, diferentemente dos tempos atuais, o acusado era sempre “culpado até que provesse o contrário”, lembrando que não havia advogado de defesa.

Tal qual a justiça civil, o processo inquisitorial era  acompanhado da tortura, os famosos “tormentos” e sob tortura, o acusado era constantemente estimulado a entregar “cúmplices” ou outros que assim como ele, estavam numa conduta errônea. Todos os citados no interrogatório seriam presos e também torturados, sendo que, nem sempre tinham qualquer envolvimento com o suposto crime que foram relacionados, mas na busca pelo exercício da defesa da ortodoxia, os inquisidores não tinham piedade.

O interrogatório era minucioso, sendo acompanhado por um escrivão, que anotava todas as manifestações do acusado, mediante às questões do inquisidor e muitas vezes, era este escrivão que assinava as confissões, pois o acusado “não se encontrava em condições para fazê-lo” e na maior parte dos casos, não se tratava de analfabetismo, mas sim de ferimentos e lesões graves decorrentes das torturas do próprio inquérito.

Terminada a fase do inquérito, passava-se para a conclusão do processo e daí a elaboração da sentença: os indiciados poderiam ser “Reconciliados com a Santa Igreja” (absolvidos com a aplicação de penitências, jejuns e peregrinações, que serviam para reafirmar o compromisso destes com a fé cristã) ou “relaxados à justiça civil” para a aplicação da pena capital, isto é, a execução do condenado.

O movimento cátaro
O termo cátaro deriva da expressão grega katharoi , que significa “puro”, tendo em sua doutrina uma perspectiva muito particular sobre a sexualidade, condenando o sexo mesmo depois do casamento, dessa forma, contrariavam inclusive, a perspectiva da união matrimonial ter a procriação como sua principal função, denominando-a como “fornicação juramentada”.
Além, da visão negativa sobre o sexo, os cátaros tinham uma concepção muito particular sobre o Universo, sua existência e organização, pois a Criação não seria apenas uma ação de Deus, mas partilhada com Lúcifer, o anjo caído que disputara espaço com o Todo Poderoso e fora derrotado, segundo o texto bíblico, pelas hostes celestiais lideradas pelo arcanjo Miguel.

Dentro desta perspectiva, Lúcifer (ou Satã) seria a força sobrenatural responsável pela criação do homem, tendo portanto, a valorização de que aquilo que fosse perfeito (a Natureza) seria uma ação de Deus, enquanto o que fosse imperfeito (o homem), seria uma cria de Satã e daí, a noção reforçada de pecado sobre a sexualidade.

Há um mito cátaro que explica a “queda da Humanidade” do seguinte modo: Satã teria terminado a criação do homens, mas estes eram seres inertes.. Nesse momento, Deus lhe enviara um emissário, um anjo de nome Adão, que também fora aprisionado por Satã, sendo obrigado a revestir-se de um “corpo humano” e daí , a figura de Adão como o grande ancestral.

Ao ter sucesso, Satã conseguiu dar vida aos seres que criou, usando do mesmo recurso: aprisionando dentro destes as almas dos anjos e assim, concebeu-se a ideia de que o corpo físico é uma prisão formada por matéria impura (criada por Satã) enquanto a alma seria a matéria perfeita (criada por Deus) e desse modo, se reconhece uma clara noção dualista (bem x mal) para se explicar as contradições dos homens.

Algumas vertentes entre os cátaros supunham até a possibilidade de dentro de um mesmo corpo existirem duas almas (uma boa e outra má) e nesse sentido, através dos ensinamento divinos, o elemento benigno deveria prevalecer, fazendo com que o homem alcançasse a “Iluminação” e assim, recuperava a relação com Deus.

No que diz respeito aos textos sagrados, o cátaros não aceitavam o Antigo Testamento, valorizando apenas o Novo Testamento e este posicionamento era justificado pela concepção cátara da origem humana: sendo o homem uma criação de Satã, o texto do Antigo Testamento seria a “expressão do próprio Mal”, falavam inclusive que o texto verdadeiro teria desaparecido e aquele então conhecido era manipulado pelo Mal e que mesmo os mandamentos enviados no Sinai, seriam fruto da esperteza de Satã, misturando coisas boa entre aquilo que não seria a “verdadeira religião”.
No século XIII, no entanto, apareceram outras formas de interpretação do pensamento cátaro, como por exemplo, João de Lugio, que haveria um mundo intermediário entre a terra e o céu, apontando que os sacrifícios dos patriarcas teriam sido inspirados por Deus.

Quanto ao Novo Testamento, todos os livros eram aceitos e mesmo os evangelhos apócrifos, havendo uma predileção pelo Livro das Revelações, o Apocalipse, por mostrar o retorno triunfante de Jesus e a vitória sobre o mal, mas a própria visão sobre Jesus era distinta daquela que a Igreja Católica ensinava: segundo os cátaros, Jesus não seria nem homem ou Deus, mas um anjo que veio pregar, mas sem ter a ideia de salvar os homens.

As concepções cátaras sobre Jesus não seriam uniformes, pois alguns acreditavam que ele um elemento puro (anjo) teria se revestido de carne para aqui estar entre os homens e depois, no momento da Ascensão, rompido com este corpo físico para que seu “corpo místico” chamado de  corpus phantasticum, pudesse voltar aos Céus.

Por volta de 1230, surgiram outras concepções entre os cátaros que apontavam a figura de Jesus como “salvador dos homens” e mesmo assim, não haveria uma postura uniforme: para os mais moderados, Jesus de fato realizou milagres e para os radicais, tudo não passava de truques de circo.
Como ficava então o papel de Jesus como Redentor da Humanidade?

A ideia predominante era que Cristo era também um pecador e daí a sua necessidade de fazer um “sacrifício pessoal”, entendido como a paixão e morte, havendo até uma leitura muito particular da morte na cruz: enquanto no plano terrestre Jesus era crucificado, Satã seria crucificado nos céus, dessa forma, se colocava uma relação espelhada entre os dois planos (celeste e terrestre) e também um momento de profunda manifestação do sagrado, pois o Espírito desceria  para a matéria e também subiria para a Luz, enfatizando a importância do caminho para a elevação espiritual (ascese).

Muitos cátaros, porém, não acreditavam na possibilidade de Deus ter sido crucificado na forma humana, sendo então um homem qualquer como um ladrão ou mesmo, um demônio teria sido posto em seu lugar.

Para combater as heresias, a Igreja criou a Santa Inquisição em 1162 no intuito de organizar a luta contra os hereges. Muitos movimentos heréticos surgiram na Europa medieval, como por exemplo os valdenses (na Espanha, na região da Lombardia no norte da Itália e nos Alpes franceses), os albigenses e cátaros (na região do Languedoc, sul da França).

O caso dos cátaros (eram contrários a autoridade da Igreja, ao direito de propriedade e aos sacramentos católicos)  representava uma ameaça à Igreja e também ao poder real da França, fazendo com  que o papa Inocêncio III e os reis da França, Luís VIII (1223-1226) e Luís IX (1226-1270) organizassem  uma cruzada (1209-1229) contra estes hereges, culminando com o massacre dos cátaros em várias cidades do sul. Com a vitória dos católicos, a região do Languedoc foi anexada à Coroa da França, portanto, se tornou posse direta do rei.

Os processos e seus métodos de tortura

Durante a atuação da Santa Inquisição tanto na Idade Média quanto nos períodos posteriores, a tortura era um recurso utilizado regularmente pela justiça para extrair confissões dos acusados de pequenos delitos, até crimes mais graves Os métodos de tortura mais agressivos eram reservados àqueles que provavelmente seriam condenados à morte, portanto, o suplício do condenado era bem lento e a morte “soava como misericórdia”.

Além de aparelhos mais sofisticados e de alto custo, utilizava-se também instrumentos simples como tesouras, alicates, garras metálicas que destroçavam seios e mutilavam órgãos genitais, chicotes, instrumentos de carpintaria adaptados, ou apenas barras de ferro aquecidas. Há ainda, instrumentos usados para simples imobilização da vítima. No caso específico da Santa Inquisição, os acusados eram, geralmente, torturados até que admitissem ligações com Satã e práticas obscenas.

Os inquisidores utilizavam-se de diversos recursos para extrair confissões ou "comprovar" que o acusado era feiticeiro. Segundo registros, as vítimas mulheres eram totalmente depiladas pelos tortura- dores que procuravam um suposto sinal de Satã, que podia ser uma verruga, uma mancha na pele, mamilos excessivamente enrugados (neste caso, os mamilos representariam a prova de que a bruxa "amamentava" os demônios) etc. Mas este sinal poderia ser invisível aos olhos dos torturadores. Neste caso, o "sinal" seria uma parte insensível do corpo, ou uma parte que se ferida, não verteria sangue. Assim, os torturadores espetavam todo o corpo da vítima usando pregos e lâminas, à procura do suposto sinal.


No Liber Sententiarum Inquisitionis (Livro das Sentenças da Inquisição) o padre dominicano Bernardo Guy (Bernardus Guidonis, 1261-1331) descreveu vários métodos para obter confissões dos acusados, inclusive o enfraquecimento das forças físicas do prisioneiro. Dentre os descritos na obra e utilizados comumente, encontra-se tortura física através de aparelhos, como a Virgem de Ferro e a Roda do Despedaçamento; através de humilhação pública, como as Máscaras do Escárnio, além de torturas psicológicas como obrigar a vítima a ingerir urina e excrementos.

De uma forma geral, as execuções eram realizadas em praças públicas e tornava-se um evento onde nobres e plebeus deliciavam-se com a súplica das torturas e, consequentemente, a execução das vítimas. Atualmente, há dispostos em diversos museus do mundo, ferramentas e aparelhos utilizados para a tortura.


Métodos de torturas

Berço de Judas
Peça metálica em forma de pirâmide sustentada por hastes. A vítima, sustentada por correntes, é colocada "sentada" sobre a ponta da pirâmide. O afrouxamento gradual ou brusco da corrente manejada pelo executor fazia com que o peso do corpo pressionasse e ferisse o ânus, a vagina, cóccix ou o saco escrotal.
O Berço de Judas também é conhecido como Culla di Giuda (italiano), Judaswiege (alemão), Judas Cradle ou simplesmente Cradle (inglês) e La Veille (A Vigília, em francês).

Garfo
Haste metálica com duas pontas em cada extremidade semelhantes a um garfo. Presa por uma tira de couro ao pescoço da vítima, o garfo pressiona e perfura a região abaixo do maxilar e acima do tórax, limitando os movimentos. Este instrumento era usado como penitência para o herege.

Garras de gato
Uma espécie de rastelo usado para açoitar a carne dos prisioneiros.

Pêra
Instrumento metálico em formato semelhante à fruta. O instrumento era introduzido na boca, ânus ou vagina da vítima e expandia-se gradativamente. Era usada para punir, principalmente, os condenados por adultério, homossexualismo, incesto ou "relação sexual com Satã".

Máscaras
A máscara de metal era usada para punir delitos menores. As vítimas eram obrigadas a se exporem publicamente usando as máscaras. Neste caso, o incômodo físico era menor do que a humilhação pública.

Cadeira
Uma cadeira coberta por pregos na qual a vítima era obrigada a sentar-se despida. Além do próprio peso do corpo, cintos de couro pressionavam a vítima contra os pregos intensificando o sofrimento. Em outras versões, a cadeira possuía uma bandeja na parte inferior, onde se depositava brasas. Assim, além da perfuração pelos pregos, a vítima também sofria com queimaduras provocadas pelo calor das brasas.

Cadeira das bruxas
Uma espécie de cadeira na qual a pessoa era presa de costas no acento e as pernas voltadas para cima, no encosto. Este recurso era usado para imobilizar a vítima e intimidá-la com outros métodos de tortura.

Cavalete
A vítima era posicionada de modo que suas costas ficassem apoiadas sobre o fio cortante do bloco. Os braços eram presos aos furos da parte superior e os pés presos às correntes da outra extremidade. O peso do corpo pressionava as costas do condenado sobre o fio cortante.
Dessa forma, o executor, através de um funil ou chifre oco introduzido na boca da vítima, obrigava-a ingerir água. O executor tapava o nariz da vítima impedindo o fluxo de ar e provocando o sufocamento. Ainda, há registros de que o executor golpeava o abdômen da vítima danificando os órgãos internos da vítima.

Esmaga cabeça
Como um capacete, a parte superior deste mecanismo pressiona, através de uma rosca girada pelo executor, a cabeça da vítima, de encontro a uma base na qual encaixa-se o maxilar. Apesar de ser um instrumento de tortura, há registros de vítimas fatais que tiveram os crânios, literalmente, esmagados por este processo. Neste caso, o maxilar, por ser menos resistente, é destruído primeiro; logo após, o crânio rompe-se deixando fluir a massa cerebral.

Quebrador de joelhos
Aparelho simples composto por placas paralelas de madeira unidas por duas roscas. À medida que as roscas eram apertadas pelo executor, as placas, que podiam conter pequenos cones metálicos pontiagudos, pressionavam os joelhos progressivamente, até esmagar a carne, músculos e ossos.
Esse tipo de tortura era usualmente feito por sessões. Após algumas horas, a vítima, já com os joelhos bastante debilitados, era submetida a novas sessões.

Mesa de evisceração
O condenado era preso sobre a mesa de modo que mãos e pés ficassem imobilizados. O carrasco, manualmente, produzia um corte sobre o abdômen da vítima. Através desta incisão, era inserido um pequeno gancho, preso a uma corrente no eixo. O gancho (como um anzol) extraía, aos poucos, os órgãos internos da vítima à medida que o carrasco girava o eixo.

Pêndulo
Um dos mecanismos mais simples e comuns na Idade Média. A vítima, com os braços para traz, tinha seus pulsos amarrados (como algemas) por uma corda que se estendia até uma roldana e um eixo. A corda puxada violentamente pelo torturador, através deste eixo, deslocava os ombros e provocava diversos ferimentos nas costas e braços do condenado.
Também era comum que o carrasco elevasse a vítima a certa altura e soltasse repentina- mente, interrompendo a queda logo em seguida. Deste modo, o impacto produzido provocava ruptura das articulações e fraturas de ossos. Ainda, para que o suplício fosse intensificado, algumas vezes, amarrava-se pesos às pernas do condenado, provocando ferimentos também nos membros inferiores. O pêndulo era usado como uma "pré-tortura", antes do julgamento.

Potro
Uma espécie de mesa com orifícios laterais. A vítima era deitada sobre a mesa e seus membros, (partes mais resistentes das pernas e braços, como panturrilha e antebraço), presos por cordas através dos orifícios. As cordas eram giradas como uma manivela, produzindo um efeito como um torniquete, pressionando progressivamente os membros do condenado.
Na legislação espanhola, por exemplo, havia uma lei que regulamentava um número máximo de cinco voltas na manivela; para que caso a vítima fosse considerada inocente, não sofresse seqüelas irreversíveis. Mesmo assim, era comum que os carrascos, incitados pelos interro- gadores, excedessem muito esse limite e a vítima tivesse a carne e os ossos esmagados.