As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de novembro

sábado, 31 de maio de 2014

Gabinete de História Ano III

Caros leitores,

Hoje o Gabinete de História completa 3 anos de existência, com mais de 86.000 acessos e nesse período, busquei oferecer textos que pudessem ajudar quem está estudando História no colégio ou quem tenha a leitura sobre História como um hobby ou mesmo no caso dos meus colegas de ofício, apresentar reflexões que sempre buscaram a melhor compreensão do saber histórico, buscando desfazer as visões de "senso comum" ou os anacronismos constantes que somos muitas vezes submetidos, que infelizmente, prejudicam em muito o entendimento da História.

Agradeço pela companhia, observações e sugestões e dessa forma, continuarei a tarefa de fazer com que a História esteja mais presente na vida das pessoas, não somente numa disciplina que vale nota na formação escolar e universitária.

Sigo na longa empreitada histórica, acompanhado das palavras do célebre historiador francês Marc Bloch (1886-1944): "O bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde sente o cheiro de carne humana, sabe que lá está a sua caça.

Boa leitura!


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Suposições e invenções sobre uma "Bíblia de 1500 anos"

 


Caros leitores,

Hoje, alguns alunos vieram me perguntar sobre uma "Bíblia muito antiga" (foto acima) recentemente encontrada (em 2000), mas que a notícia só foi revelada a pouco tempo. A matéria saiu em 2013 e ainda continua rolando por aí, em diferentes sites  e aí achei a dita notícia, que alias estava copiada e recopiada em diferentes blogs, sites (muitos de caráter religioso) e uma breve matéria no Youtube. Um ou outro texto citava a fonte e foi justamente num destes que citavam a fonte, que eu encontrei um texto mais completo que reproduzo (grifado em amarelo) e faço o contra-argumento logo abaixo, buscando apontar sob a luz da História, o que teríamos de pertinente ou não nessa "novidade" de artefato encontrado.

Segue a reportagem:

As páginas do livro, do século V ou VI, são de couro tratado e estão escritas em um dialeto do aramaico, língua falada por Jesus. Suas páginas hoje estão negras, por causa da ação do tempo, mas as letras douradas ainda possibilitam sua leitura.
As autoridades turcas acreditam que se trata de uma versão autêntica do Evangelho de Barnabé, um discípulo de Jesus que ficou conhecido por suas viagens com o apóstolo Paulo, descritas no Livro de Atos.

Autoridades religiosas de Teerã insistem que o texto prova que Jesus nunca foi crucificado, não era o Filho de Deus, mas um profeta, e chama Paulo de “Enganador.” O livro também diz que Jesus ascendeu vivo ao céu, sem ter sido crucificado, e que Judas Iscariotes teria sido crucificado em seu lugar. Falaria ainda sobre o anúncio feito por Jesus da vinda do profeta Maomé, que fundaria o Islamismo 700 anos depois de Cristo. O texto prevê ainda a vinda do último messias islâmico, que ainda não aconteceu.

O começo do texto já começa um pouco enrolado, pois cita autoridades turcas e iranianas, mas não diz quais (arqueólogos, especialistas em línguas antigas, algum grupo de pesquisa de uma Universidade, etc). Este livro foi encontrado junto de um lote de antiguidades que estavam sendo contrabandeadas da Turquia e ficou retido por bastante tempo e agora foi repassado ao Museu Etnológico de Istambul, na Turquia.
A parte mais embaraçosa do texto são as afirmações das ditas "autoridades iranianas", que tendenciosamente estariam apontando o livro encontrado como uma prova da realidade e verdade do Islã e que toda doutrina cristã não passaria de uma farsa.
Em primeiro lugar, como qualquer documento antigo, este livro deverá ser traduzido e datado para verificar seu conteúdo, origem e autenticidade. 

Maomé nasceu em 570 e morreu em 632, portanto, num período posterior ao texto escrito entre os anos 400-500 e segundo a tradição islâmica teria recebido a "revelação da palavra de Allah" por volta de 610, tendo 40 anos de idade.

Chama a atenção a hipótese de "Jesus teria anunciado Maomé", uma leitura muito mais coerente com o pensamento islâmico do que com o cristão, pois para o Islã, Maomé é o último profeta, e eles então, aceitam os personagens hebreus (Adão, Moisés, Isaiais, Jeremias, Elias, etc.) e Jesus também, mas todos como profetas, cabendo a Maomé a importância maior, isto é, completa a revelação sobre os ensinamentos de Deus.
Vale lembrar também que, os muçulmanos não aguardam um "Messias" como os judeus ou como os cristãos aguardaram até Jesus nascer e assim, aparece como mais uma outra imprecisão citada no texto da reportagem.


A foto divulgada da capa mostra apenas inscrições em aramaico e o desenho de uma cruz. A Internacional News Agency, diz que a inscrição na fotografia pode ser facilmente lida por um assírio. Os assírios viviam na região que compreende hoje o território do Iraque, o nordeste da Síria, o noroeste do Irã, e o sudeste da Turquia.
A tradução da inscrição inferior, que é o mais visível diz: “Em nome de nosso Senhor, este livro está escrito nas mãos dos monges do mosteiro de alta em Nínive, no ano 1.500 do nosso Senhor”.

A agência citada aparece com o nome incompleto, podendo  ser qualquer agência internacional de notícias, talvez tenha sido a IRNA, a agência oficial de notícias do governo do Irã ou então, a AINA, que representaria a minoria assíria, que viveu ali onde hoje é a Turquia e Síria. 
Além desta dúvida, há esta tradução que o texto nos relata como elementar, quer dizer, de fácil realização, mas se é um texto escrito em siríaco, uma língua que deriva do aramaico e hoje não é mais falada, como fazer uma tradução tão rápida??? Apelar para o Google não vale.... 

O Vaticano teria demonstrado preocupação com a descoberta do livro, e pediu às autoridades turcas permitissem aos especialistas da Igreja Católica avaliar o livro e seu conteúdo, em especial o "Evangelho de Barnabé", que descreveria Jesus de maneira semelhante à pregada no Islã.


O relatório da Basij Press, que divulgou o material para a imprensa, sugere que a descoberta é tão importante que poderá abalar a política mundial. “A descoberta da Bíblia de Barnabé original irá minar a Igreja Cristã e sua autoridade e vai revolucionar a religião no mundo. O fato mais significativo, porém, é que esta Bíblia previu a vinda do profeta Maomé, mostrando a verdade da religião do Islã”.

Continuando as excentricidades, temos a citação da preocupação do Vaticano, em virtude do conteúdo talvez ser coerente com a visão do Islã. Como se trata de um texto cristão, o Vaticano está interessado em seu conteúdo, porém a colocação de um grau de "preocupação" é no mínimo tendenciosa e equivocada, pois não houve uma manifestação formal da Igreja Católica, assim, aqui se levanta a teoria conspiratória de há algo escondido, um mistério misterioso...
Porém, há um detalhe que passa despercebido: a citação de um relatório da Basij Press. De onde é esta Agência? Resposta: é a responsável pela comunicação de um grupo paramilitar xiita, defensor do regime iraniano desde 1979, implantado com a Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini.
Aí, portanto, aparece a motivação para colocar em tão elevado grau de importância os "possíveis conteúdos" deste livro antigo e sua ameaça ao Cristianismo. No entanto, o que foi mais bizarro nessa matéria, que como disse acima, foi reproduzida em sites de conteúdo religioso cristão aqui no Brasil, é alguns grupos pentecostais ou neo-pentecostais tentarem usar o texto a seu favor para atacar a Igreja Católica, sem perceberem que ele ataca "todas as igrejas cristãs", afinal todos aqueles que seguem os Evangelhos, independentemente da denominação, são cristãos. Alguns diriam que este tipo de postura foi um tiro no pé, eu acredito que foi um "tiro na cabeça".


A Basij afirma que o capítulo 41 do Evangelho diz: “Deus disfarçou-se de Arcanjo Miguel e mandou (Adão e Eva) embora do céu, (e) quando Adão se virou, ele notou que na parte superior da porta de entrada do céu, estava escrito La elah ELA Allah, Mohamadrasool Allah”, significando “Alá é o único Deus e Maomé o seu profeta”.

Por fim, a tradução desta parte, profundamente tendenciosa, que seria um anúncio do Corão antes do próprio profeta e que nas portas do "céu" e não Jardim do Éden teria a inscrição acima em árabe. Muito estranho, pois o Corão não nomeia o anjo que guardou as portas do Paraíso e expulsa diretamente, Adão e Eva, sem necessitar de se disfarçar.

Moral da história: qualquer fonte deve ser analisada com rigor, seja o que for, sempre tendo a cautela de contrapor as informações presentes com outras e assim, ter uma visão melhor sobre o passado e seus desdobramentos. Um pesquisador deve interrogar suas fontes, sem confiar nelas e assim, verificar se obtém respostas para suas questões ou não. A posição adotada nesta reportagem analisada é tendenciosa ao Islã, isto é, o objetivo está claro desde o começo: provar a supremacia do Islã sobre as outras crenças.

Como diz a sabedoria popular por aqui no Brasil: "Cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém". Eu acrescentaria que a boa leitura também!


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Resenha crítica: filme "Getúlio", João Jardim 2014

Assisti o filme na sua estreia: o emblemático 1 de Maio, o Dia do Trabalho, data que Getúlio Vargas muito bem usara durante seus governos, seja entre 1930 e 1945, seja entre 1951 e 1954, sempre se colocando dentro daquilo que ficou de sua imagem na memória e inconsciente coletivo - o "pai dos pobres" e por seus inimigos, a "mãe dos ricos".

Getúlio ascendera ao poder dentro de um golpe de Estado, ao qual ele e seus partidários das oligarquias descontentes naqueles idos de 1930, chamaram de "Revolução de 1930", mas na verdade, sabemos que fora apenas uma troca de cenários, porque era deposta a então poderosa oligarquia paulista e em seu lugar, ascendiam os descontentes de Minas Gerais, Paraíba e o Rio Grande do Sul.

A fase do Getúlio ditador e autoritário é assumida pela narrativa do próprio no início do filme, através da voz de Tony Ramos, seu intérprete e que em breves palavras apresenta ao espectador como se numa rápida reflexão interna, aquilo que se passara nos 15 anos da chamada "Era Vargas"(a censura, as prisões e torturas, o fechamento do Congresso) e daí se faz a introdução para o segundo momento, a sua primeira eleição direta como presidente e o conturbado processo que seus adversários construíam para corroer sua imagem e poder.

Justamente nesse ponto o filme, evitando o didatismo monótono, recorre a ideia de se mostrar um thriller de suspense. Mas é possível de se fazer suspense quando se conhece o final da história?
Apesar da perda do fator surpresa, a história vai ganhando corpo a partir do atentado que ocorrera em 5 de agosto de 1954, na rua Tonelero: ao voltar de uma palestra que ministrara no Colégio Anchieta, na cidade do Rio, Lacerda era esperado nas imediações de seu prédio por um pistoleiro chamado Alcino, o qual fora contratado por Climério que era da guarda pessoal de proteção do Presidente e esta era chefiada por Gregório Fortunato, leal empregado de Vargas há mais de 15 anos e por sua vez, compadre de Climério.

No atentado a Lacerda, este saíra vivo, mas ferido (ao que parece por si próprio), enquanto o pistoleiro Alcino alvejara o Major Martim Vaz que tentara deter o assassino. A morte de Vaz, potencializada, pela postura firme e objetiva de Lacerda, de desde o começo acusar Getúlio fizeram do caso, a sensação nacional. Os discursos de Lacerda no rádio e TV, bem como a gradativa aproximação da investigação promovida pela Aeronáutica, cada vez mais, se aproximava de Vargas ou de seu círculo mais íntimo e nessa esfera, Alzira Vargas, braço direito de Getúlio, interpretada por Drica Moraes ganha bastante peso e espaço, enquanto outros como a 1a dama Darci Vargas (Clarice Abujamra) e o filho Lutero (Marcelo Medici) ficam num plano de fundo.



A filmagem foi feita no Palácio do Catete, hoje Museu da República, mas naquela altura, sede do Governo Federal e dessa forma, a luz, a sofisticação dos objetos e decorações vão se engendrando na trama como espectadores e ao mesmo tempo, testemunhas cúmplices daquelas discussões e tensões que se sustentavam numa constante: Getúlio negava seu conhecimento e envolvimento, buscava a apuração do caso, mas ainda assim, dada a proximidade dos envolvidos, a dúvida pairava no ar: na noite do atentado, o telefone toca no Palácio e Getúlio aparentemente, o atende. Não há conversa ou diálogo, mas apenas o silêncio, que aliás, é o que precede um diálogo bastante suspeito entre Gregório Fortunato e Benjamim Vargas (conhecido como "Bejo") num ponto da estrada entre a cidade do Rio e Petrópolis, pois Gregório se volta a Bejo e diz que faria uma confissão, "como se faz a um pai ou a um padre".

A oposição, caracterizada em Carlos Lacerda (Alexandre Borges), pelo deputado Afonso Arinos (Daniel Dantas) e pelo brigadeiro Eduardo Gomes, antigo tenente e sobrevivente do episódio dos "18 do Forte de Copacabana" em 1922, mas naquela altura o candidato que Vargas vencera nas eleições de 1951 e que queria seu lugar, bombardeavam intensamente a imagem de Vargas, buscando pelos atos e gestos possíveis minar o governo que fora rotulado por eles como "um mar de lama".

No seio das Forças Armadas, a "ferida Aeronáutica" recebia apoio da Marinha, enquanto o Exército estava rachado, pois alguns generais achavam o governo Vargas insustentável e queriam forçar a renúncia do presidente e empossar seu vice, Café Filho (Jackson Antunes), mas no início ainda havia a posição Leal do Gal. Zenóbio da Costa (Adriano Garib), como o Ministro da Guerra e do Gal. Caiado (Leonardo Medeiros), chefe do gabinete Militar. Sublinha-se entre os civis, o papel de Tancredo Neves (Michel Bercovitch) enquanto Ministro da Justiça, mas no filme, bem diferentemente que na história real, ocorre uma significativa ausência: a do ministro do Trabalho João Goulart, que entre 1953 e 1954, tivera um papel de vital importância para o governo de Getúlio, sendo seu aliado, conterrâneo e afilhado político, que no exercício do cargo ministerial, com aval de Vargas, aumentara em 100% o valor do salário mínimo e dez anos depois, estaria num turbilhão tão intenso e cruel quanto o de Getúlio, o Golpe de 1964.

Fica difícil pensar que o presente filme seja uma "obra prima", mas ao pensarmos na juventude das produções cinematográficas brasileiras e o tatear que vem se fazendo com a História, o mérito esta em fazer a ponte entre o público e este personagem complexo e de vital condição para entendermos a moldagem da República do Brasil.

Acredito que, Vargas não foi posto num altar por João Jardim, não incensou o mito, mas dadas as condições do recorte feito, buscou explorar as características e dilemas da jovem democracia brasileira, porém nesse processo, entram várias ressalvas.
Cabe dizer que, as falas assumidas sobre a ditadura e o autoritarismo não o isentam de suas responsabilidades anteriores que, não chegaram a ser investigadas por nenhum tipo de "Comissão da Verdade", podendo soar como uma espécie de mea culpa e o fato de Getúlio ter vencido uma eleição direta não significou um "perdão coletivo" da nação brasileira, como se a CLT (Consolidação da Legislação Trabalhista, implantada em 1943 e que estabelecia a carteira de trabalho, férias remuneradas e o FGTS) e o investimento nas indústrias fossem suficientes para encobrir as arbitrariedades e violências do Estado Novo.



A frase de Afonso Arinos, interpretado por Daniel Dantas, é lapidar: "Ditador é como mau caráter. Ele não muda, simplesmente, tira férias" e dessa forma, apesar das posições claramente assumidas e uma aparente defesa da Constituição naquele momento, aqui e ali, alguns de seus íntimos e subalternos, evocavam o uso de medidas de força e Getúlio resistia: "Já rasguei duas constituições (1891 e 1934), não rasgarei uma terceira". Pode até soar bonito, mas não apaga o passado sangrento de seu período como um repressor a frente do país.

Por fim, as falas do filme parecem muito se amparar nos diários de Getúlio, que podem num primeiro momento ser uma ótima fonte para conhecer seu âmago, mas devem ser lidos também no contra-pelo, pois afinal, perpassam pela auto-censura e construção dos fatos pelo autor e não simplesmente, uma representação exata da História.

Muitos acalentam a teoria conspiratória de que ele não se matou, mas sim teria sido "assassinado", porém, mera especulação em brumas que não levam a lugar nenhum fato concreto.

Segue abaixo, a carta-testamento deixada por Getúlio e datilografada por Maciel Filho (Fernando Eiras), seu ghost writer (escritor que trabalha nos bastidores na produção dos discursos) e que teve um papel importante na carreira política de Getúlio, sendo de grande confiança, ao ponto de receber o texto que demonstrava nas entrelinhas, o desejo de Vargas se matar, mas que ficara, encoberto ou pelo menos, não diretamente assumido, na forma de uma citação de "cansaço" ou "vontade de largar tudo" para voltar a sua querida São Borja. O texto de Maciel é diferente do manuscrito, mas preserva a posição de vítima de uma cruel conspiração e foi este o que fora divulgado na imprensa, conferindo-lhe aí, um gesto de heroicidade, tal qual nos antigos códigos de honra, quando esta última era manchada, só havia uma condição: lavá-la com sangue do inimigo ou de si próprio.
Getúlio, imbuindo-se de heroísmo, optou pela segunda.


O texto datilografado: 

“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci.
Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo.
A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios.
Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o povo seja independente.
Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos.
Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação.
Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém.
Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.
Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”



O texto manuscrito: 

“Deixo à sanha dos meus inimigos, o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia. A mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa.
Acrescente-se a fraqueza de amigos que não defenderam nas posições que ocupavam à felonia de hipócritas e traidores a quem beneficiei com honras e mercês, à insensibilidade moral de sicários que entreguei à Justiça, contribuindo todos para criar um falso ambiente na opinião pública do país contra a minha pessoa.
Se a simples renúncia ao posto a que fui levado pelo sufrágio do povo me permitisse viver esquecido e tranqüilo no chão da pátria, de bom grado renunciaria.
Mas tal renúncia daria apenas ensejo para, com mais fúria, perseguirem-me e humilharem-me.
Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos poderosos do dia e às castas privilegiadas.
Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor, não dos crimes que não cometi, mas de poderosos interesses que contrariei, ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes.
Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos.
Que o sangue dum inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus.
Agradeço aos que de perto ou de longe me trouxeram o conforto de sua amizade.
A resposta do povo virá mais tarde...”


Sugestões do Gabinete:

"Getúlio", João Lira, Companhia das Letras (Volumes I e II)















Volume I




Volume II

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Getúlio: controvérsias de uma trajetória política complexa

Com a ascensão de Vargas ao poder em 1951, reconduzido à presidência “nos braços do povo” através da chancela das urnas, instalou-se uma política nacionalista, com o estabelecimento do monopólio estatal sobre a extração e o refino do petróleo, expresso na criação da PETROBRAS e coroando uma imensa campanha conhecida como "O Petróleo é Nosso". Houve também a expansão da Companhia Siderúrgica de Volta Redonda mas, em contrapartida, Vargas teve também de enfrentar uma inflação  crescente e um Congresso e imprensa contrários à sua prática política. Seu ministro do Trabalho, o trabalhista João Goulart, amedrontava a burguesia conservadora que temia uma guinada de Vargas à esquerda e a implantação  de uma república sindicalista, tal como fizera na Argentina o ditador Juan Domingo Perón(1946-52;1952-55 e 1973-74).

Dessa forma, o segundo governo Vargas foi pontilhado de manifestações contrárias a ele, um verdadeiro cerco da imprensa, manifestos dos militares que julgavam estar ocorrendo uma marginalização das Forças Armadas e agitações populares. O anúncio de que o salário mínimo seria elevado em 100% acirrou ainda mais os ânimos.

No auge das manifestações, ocorreu o “atentado da Rua Toneleros”, onde Carlos Lacerda, membro da UDN e proprietário do jornal A Tribuna da Imprensa, foi ferido a tiros e o major da Aeronáutica Ruben Tolentino Vaz , responsável pela escolta de Lacerda, perdeu a vida.

Os opositores culparam Getúlio, que declarou inocência, comprometendo-se a investigar o fato. A Força Aérea decidiu averiguar o caso por conta própria, chegando no pistoleiro, seus cúmplices e daí até o nome de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente. A partir de então, as investigações referiam-se ao ambiente do governo descrevendo-o como “mar de lama”.

As pressões para que Getúlio deixasse o poder cresciam de todos os lados: UDN, Forças Armadas, e até mesmo o vice Café Filho sugeriu que ambos renunciassem. Lacerda usou de seus jornais, emissoras de rádio e aparições na TV para pedir diretamente a renúncia de Vargas.

Na noite de 23 de agosto de 1954, em uma reunião ministerial, Vargas comprometeu-se a tirar uma licença e deixar o Executivo temporariamente. Mas, na madrugada de 24 de agosto, Getúlio cometeu suicídio com um tiro no peito, depois de redigir uma inflamada carta-testamento.

A UDN percebeu, então, que havia perdido sua ultima chance de chegar ao poder e decidiu dar um golpe de Estado para evitar a posse do candidato eleito, Juscelino Kubitschek, com o pretexto de que ele não conseguira maioria absoluta dos votos. Café Filho afastou-se do poder alegando motivos de saúde, sendo substituído pelo presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz.

                                               Fonte: UOL

A articulação de um golpe era comentada em todos os círculos e já dado como certo por muitos, quando o ministro da Guerra, Marechal Henrique Teixeira Lott, decidiu dar um "golpe preventivo": as tropas do Exército ocuparam os edifícios governamentais, estações de rádio e jornais. Em virtude da posição negativa dos ministros da Marinha e Aeronáutica às ações de Lott , as tropas do Exército cercaram as bases aéreas e navais.


Os parlamentares decidiram pelo afastamento do presidente em exercício Carlos Luz e colocaram em seu lugar o presidente do Senado, Nereu Ramos. O País foi mantido em estado de sítio por trinta dias, prorrogado por igual período. A posse de JK ocorreu em 31 de janeiro de 1956 e assim, o Brasil retornava ao Estado de Direito.

Hoje estreou o filme "Getúlio" de João Jardim(responsável por "Para o dia nascer feliz" e "Lixo extraordinário"), buscando retratar os últimos 20 dias do governo de Getúlio: do atentado da Rua Toneleros até o suicídio em 24 de agosto de 1954.

Personagem complexo e controverso, amado e odiado, dependendo do ponto de vista, um problema para a Nação ou um "salvador" que começara a consolidar as bases do Brasil atual.
Qual seria a verdade? Há um lado só nessa história?
Converso sobre isso na próxima semana...

Sugestão do Gabinete:

"Getúlio". Direção de João Jardim, 2014, 100 min.