As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de novembro

sábado, 28 de junho de 2014

28 de Junho de 1914: o assassinato que se tornou o estopim da I Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial foi um conflito em larga escala marcado pelo acirramento das tensões econômicas, políticas e sociais na Europa durante o final do século XIX e início do século XX, consagrando-se portanto, num choque de imperialismos. Tal fato estava diretamente relacionado com a "corrida colonial" provocada neste período pelas potências capitalistas com o objetivo de obter fontes de matérias-primas e mercados consumidores.

O processo de partilha das terras afro-asiáticas, no entanto, ocorreu de forma desigual, favorecendo principalmente a Inglaterra e França, em detrimento de potências em ascensão (como foi o caso da Itália e Alemanha, países que constituíram-se como estados nacionais somente em 1870).
Dessa forma, o cenário político europeu acumulou um intenso jogo de forças entre os países possuidores de grandes impérios coloniais e os países menos favorecidos neste sentido, disputando o controle hegemônico da Europa e dos mercados capitalistas.

No plano europeu, formou-se um grande foco de tensão entre a França e a Alemanha devido à vitória alemã na guerra Franco-Prussiana em 1870. Os resultados dessa guerra foram a unificação alemã, a anexação da Alsácia-Lorena (região rica em jazidas de carvão e ferro) e o pagamento de uma vultosa indenização pela França, implicando não só no desequilíbrio político-econômico do Estado francês (fim do segundo império e a instauração da III República), mas também no surgimento de um exacerbado nacionalismo através do revanchismo francês.
Além da França, a Alemanha era concorrente direta da Inglaterra tanto no setor político como no econômico, pois a industrialização alemã vinha num processo acelerado desde a unificação e já no início do século XX ameaçava a Inglaterra na disputa da produção industrial.

- Tríplice Aliança: formada por Alemanha, Itália e Império Austro-Húngaro; posteriormente, recebeu a adesão do Império Turco Otomano.
- Tríplice Entente: composta por França, Inglaterra e Rússia; havia uma aliança informal entre os russos e a Sérvia; vale lembrar que, no penúltimo ano de guerra, os Estados Unidos também entraram no conflito.

A "Paz Armada" tinha sido desenvolvida inicialmente pelo chanceler prussiano Otto von Bismarck. Acreditava ele que os países haviam desenvolvido tamanha força de destruição que fariam o máximo para evitar a guerra. Os anos seguintes, porém, mostraram que Bismarck estava errado.
Um dos fatores que impediu a paz entre os países foi uma disputa imperialista, a chamada Questão Marroquina. Desde 1880, o Marrocos era considerado uma região de portas abertas aos comércios e negócios das potências europeias. Entretanto, em 1904, foi realizado um acordo entre Inglaterra e França, pelo o qual o Egito seria entregue aos ingleses, enquanto estes ajudariam e apoiariam a presença francesa no Marrocos. A Alemanha, possuidora de poucas colônias, sentiu-se prejudicada e todas as tentativas de acordos resultaram em fracassos.

Além da disputa de caráter imperialista, a região dos Balcãs passou a ser conhecida como “o barril de pólvora da Europa”, isso devido à tensão e às rivalidades locais ali envolvidas:
- A região, de população majoritariamente eslava, era cobiçada pelo Império Russo, que se apresentava como o pai de todos os povos eslavos;
- A Sérvia pretendia unificar todos os países da região dominada pelos austríacos, ocupando o lugar destes e criando a Grande Sérvia;
- O Império Turco pretendia expandir-se na Europa através daquela região, além de garantir a integridade do território, que era cobiçado pelos ingleses ;
- O Império Austro-Húngaro, que já era uma “colcha de retalhos nacionalistas”, ampliou seus domínios ao anexar a Bósnia-Herzegovina em 1908;
- A Inglaterra desejava dominar aquele espaço para boicotar os planos de austríacos e alemães. Estes últimos pretendiam construir a ferrovia Berlim-Bagdá, ligando os germânicos aos ricos poços do Golfo Pérsico, área dominada pelos britânicos e cobiçada pelos russos.




Frente à complexidade deste quadro, o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austríaco , sobrinho do imperador da Áustria Francisco José (1848-1916), realizado por um grupo nacionalista extremista da Sérvia, chamado “Mão Negra”, deve ser entendido como o “estopim” que deu início à guerra entre esses dois países, disparando o sistema de alianças que colocou toda a Europa em guerra. Além dos países europeus (e suas colônias), outros países entraram no conflito e daí, sua denominação inicial de "A Grande Guerra".

A tensão na região balcânica era crescente desde a anexação da Bósnia em 1908 e vários grupos extremistas buscavam intensificar a "unificação" das lutas pela causa eslava, levando o Império a ser enérgico na região. Foi nesse sentido que, foram planejadas, a realização de várias atividades militares, as quais contariam com a presença do Príncipe Herdeiro em Sarajevo, capital da Bósnia e a data escolhida não poderia deixar de ser a mais provocativa, o 28 de junho, lembrando a derrota do Reino Sérvio em 1389 para os turcos na batalha de Kosovo, momento que representou o início de um período de cinco séculos de dominação estrangeira.

Adam Stefanovic "A derrota cristã na Batalha de Kosovo" c. 1869

A Sérvia em 1914 era um pequeno país com pretensões expansionistas para restaurar as "glórias" do passado, unindo os povos eslavos sob sua tutela e nisso, surgiria a "Grande Sérvia", mas para tanto, só o enfraquecimento do Império Austro-Húngaro traria tais condições e assim, os Balcãs seriam livres da tutela estrangeira, que já fora turca e naquele momento era austríaca.

Francisco Ferdinando parecia, segundo algumas fontes difusas e controversas, estar pensando numa ampliação da participação das minorias eslavas na estrutura política do Império, bem como, assegurar a igualdade de direitos aos cidadãos austríacos e húngaros, fato que poderia dar origem a um "Império Tríplice": Austro, Húngaro e Eslavo, contando com participação eletiva e representativa.

No seio das correntes nacionalistas e extremistas, surgiam vários grupos, como a "Jovem Bósnia" e a "Mão Negra", que buscavam através de ações violentas, como o assassinato de chefes de Estado ou de Governo trazer a mudança, tal qual como os anarquistas que assassinaram o rei Humberto I da Itália em 1900,  os carbonários responsáveis pelo duplo assassinato  do rei Carlos de Portugal e seu herdeiro, o príncipe Luís Felipe, em 1908.

Naquele 28 de junho de 1914, Francisco Ferdinando tinha uma ampla agenda de compromissos a cumprir e se deslocaria em Sarajevo numa comitiva de carros abertos, dotados de escolta e guarda de honra. Logo no início, um atraso para a partida acabou por se configurar numa "manifestação de sorte", pois uma bomba colocada num dos carros da comitiva explodiu, porém, sem atingir o príncipe. Sua atitude fora de mero espanto: "É com bombas que vocês recebem seus convidados?", perguntou Francisco ao prefeito de Sarajevo.

O general austríaco Potiorek pediu a Francisco que retornassem o quanto antes para Viena, mas o Sua  Alteza Imperial foi firme: o percurso e a agenda não seriam alterados. No percurso para a visita a um hospital, ao que parece, o motorista se atrapalhou e foi neste momento que, Gravilo Princip, um ativista de 19 anos, atingiu a queima-roupa o arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa a condessa Sofia (que não era alvo) ao invés do general Potiorek.

Um desenho que mostra a "reconstiuição" do crime


Gravilo Princip

A prisão de Gravilo, logo após o assassinato.

Gavrilo foi preso e ficou detido por quatro anos num campo de prisioneiros, vindo a falacer de tuberculose. Face ao envolvimento dos nacionalistas sérvios no assassinato, o governo austríaco impôs um ultimato ao governo sérvio:

A Áustria-Hungria demandou que o governo sérvio deveria tomar as seguintes providências:
  1. Suprimir qualquer publicação que incite o ódio e a desobediência a monarquia austríaca;
  2. Dissolver imediatamente a sociedade Narodna Odbrana e proceder do mesmo modo contra outras sociedades engajadas na propaganda anti-áustria.
  3. Eliminar de instituições públicas sérvias quaisquer aspectos que sirvam para fomentar a propaganda anti-áustria;
  4. Remover do serviço militar todos os oficiais ligados à propaganda anti-áustria, oficiais que deverão ter seus nomes dados ao governo Austro-Húngaro;
  5. Aceitar a colaboração de organizações do governo Austro-Húngaro na supressão de movimentos subversivos direcionados contra a integridade territorial da monarquia;
  6. Iniciar uma investigação judicial contra os cúmplices da conspiração de 28 de junho que estão em território sérvio, com órgãos delegados pelo governo Austro-Húngaro fazendo parte da investigação;
  7. Prender imediatamente o major Voislav Tankosic e o oficial sérvio Milan Ciganovitch, comprometidos pelas investigações preliminares empreendidas pela Áustria-Hungria;
  8. Providenciar por meio de efetivas medidas a cooperação da Sérvia contra o tráfico ilegal de armas e explosivos atráves da fronteira;
  9. Fornecer à Áustria-Hungria explicações sobre declarações de altos oficiais sérvios tanto na Sérvia quanto no exterior, que expressaram hostilidades para com a Áustria-Hungria; e
  10. Notificar a Áustria-Hungria sem demora a execução dessas medidas.

28 de julho de 1914 foi a data limite foi estabelecida pelo Império Austro-Húngaro e uma vez que a Sérvia não cumpriu as exigências, tropas austro-húngaras invadiram o território sérvio, dando início à Grande Guerra.

Sugestão do Gabinete:

O link abaixo traz uma série de fotos do dia do assassinato e dos momentos seguintes:


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Parte IV - Renascimento: a transição do mundo medieval para o mundo moderno

Durante o Cinquecento, a capital do Renascimento passou a ser a Roma papal, graças ao mecenato de papas como Alexandre VI (1492-1503), Júlio II (1503-1513) e Leão X (1513-1521). Na literatura, ainda em Florença, destacam-se O príncipe, escrito em 1513 por Nicolau Maquiavel; de Baltazar Castiglioni, O cortesão; de Ariosto, Orlando Furioso. Nas artes plásticas destacam-se Rafael Sanzio (1483-1520), pintor famoso por trabalhos como as Madonas, A Escola de Atenas, os afrescos laterais da Capela Sistina; e Michelangelo Buonarrotti (1475-1564), autor das esculturas: Davi, Pietá, Moisés, da planta da Cúpula da Basílica de São Pedro e dos afrescos da Capela Sistina.



Dentro do contexto da produção renascentista encontramos a valorização do retrato e talvez um dos mais emblemáticos seja a Mona Lisa ou La Gioconda, pintura datada entre 1503 e 1506, encomendada por Francesco del Giocondo, na qual está representada sua esposa, Lisa Gherardini.
O retrato, um tema da pintura concebido para guardar a imagem de alguém, no caso da Mona Lisa nos confere um grande desafio, pois Leonardo criou uma atmosfera que mistura beleza e mistério, presentes em inúmeros detalhes: desconhecemos a paisagem de fundo que a ambienta; somos tocados pela delicadeza das cores e tons que parecem estar imersos numa névoa (sfumato), que não esconde a imagem mas ao mesmo tempo lhe confere uma luz que é única, de acordo com os escritos deixados no Tratado de pintura escrito por volta de 1482.

Apesar de todos os questionamentos que envolvem a imagem da Mona Lisa, podemos levar em consideração um elemento vital na compreensão do período renascentista: a valorização do individualismo que ali se manifesta.

Tal fato implica na representação de uma pessoa, identificada em seus mínimos detalhes, tomada como tema central da pintura e trazendo um retorno à tradição clássica da representação dos vultos, porém dotada de uma especificidade: o olhar da Mona Lisa está direcionado ao observador e graças ao jogo de composição de Leonardo, temos a impressão que esse olhar “nos acompanha”.



A Capela Sistina foi pensada pelo papa Sisto IV para servir de espaço para as cerimônias de caráter mais privado da corte papal e também como espaço para a realização do conclave (eleição do papa pelo Colégio dos Cardeais). A decoração interna das paredes laterais foi realizada por vários pintores: Botticelli, Rafael, Cosimo Rosseli, Luca Segnorelli, Perugino, Ghirlandaio e Pinturicchio. Já as pinturas do teto em abóbada (1508-1512) e a parede do altar principal (1535-1541) foram feitas por Michelangelo, retratando os temas bíblicos desde a Criação e terminando no Juízo Final.

A riqueza de detalhes acompanhada de uma manifestação muito clara dos movimentos dos personagens impõem ao observador um desafio gigantesco: a dificuldade de contemplá-la por completo num único olhar, fazendo de sua observação um processo semelhante à leitura, pois o observador avança de uma parte para outra tal qual um leitor que percorre o texto ao longo de seus parágrafos.
Michelangelo dotou suas imagens de cores e gestos de vigorosa intensidade, cuja manifestação confere uma aparência realista aos temas retratados, diferente de uma representação estática e sobrenatural, pois justamente a ideia de naturalidade ou ainda de uma idealização da natureza se colocam presentes na composição, nos traços, cores e volumes.



Ao observarmos, por exemplo, o detalhe da Criação do homem, vemos a materialização de um canto gregoriano Veni Criator, segundo o qual se evoca a presença divina. Diferente do texto bíblico, onde o Criador esculpiu o homem no barro dando-lhe vida, Michelangelo apresenta Deus como um vigoroso ancião que se move em direção ao homem e com o toque lhe concede a vida, evidenciada pela ação divina em relação ao humano.




O Renascimento além da Itália

Conforme apontamos no início dessa aula, as transformações econômicas entre os séculos XV e XVI fizeram com que novos centros comerciais despontassem na Europa, como a região de Flandres e depois a península Ibérica, avançando também no século XVI para a Inglaterra e França. Todas essas regiões vivenciaram também grandes transformações culturais, cada qual ao seu modo, e assim, alguns historiadores cunharam a expressão “Renascimento tardio” em relação à Itália:
Flandres: encontramos na literatura o humanista Erasmo de Roterdã (1466-1536), autor de O elogio da loucura, publicado em 1508 e responsável por uma severa crítica ao desregramento do clero e nobreza que se manifestava de maneira cada vez mais intensa para o assombro de muitos. Erasmo usou a voz da loucura para apontar suas críticas sem se comprometer, escapando das perseguições e censuras movidas por seus inimigos mais poderosos; na pintura flamenga destacamos: Hieronymus Bosch (1450-1516), autor de O jardim das delícias, A pedra da loucura, A nau dos loucos; Pieter Brueghel (1525-1569), autor de O massacre dos inocentes, Torre de Babel; Rogier Van Der Weyden (1399-1464), autor de A deposição da Cruz; Jan Van Eyck com o quadro A virgem, o Menino Jesus e o chanceler Rolin, O homem de turbante vermelho e O casal Arnolfini, que analisaremos logo abaixo.
Portugal: recebeu influências com o retorno de Francisco Sá de Miranda (1495-1558) da Itália em 1527, trazendo o dolce stil nuovo (verso decassílabo e soneto) e mais tardiamente com Camões (1524?-1580) graças à publicação de Os lusíadas em 1572;
Espanha: o maior expoente foi Miguel de Cervantes (1547-1616) com a publicação de D. Quixote de la Mancha em 1605;
França: o principal nome é Rabelais (1483-1553), autor de Gargântua e Pantagruel;
Grã-Bretanha: destacaram-se William Shakespeare (1564-1618), dramaturgo, autor de Romeu e Julieta, Macbeth, Hamlet, Rei Lear, entre outras peças; e Thomas Morus (1478-1535) que escreveu Utopia em 1516, sobre uma ilha fantástica dotada de uma organização muito particular, a qual promovia o pleno equilíbrio entre seus habitantes, que não se envolviam em guerras ou outros problemas.


Dentre vários exemplos sobre o Renascimento além da Itália, escolhemos uma breve apresentação do quadro O casal Arnolfini, pintado em 1434 por Jan Van Eyck no intuito de registrar o casamento do rico banqueiro e comerciante italiano Giovanni Arnolfini com a jovem Giovanna Cenami, assim retratados em sua residência na cidade de Bruges, no Flandres (atual Bélgica).
A cena nos é apresentada com a visão imediata do casal no plano central, tendo ao fundo o leito nupcial, vários objetos em volta (frutos, rosário, tapete e espelho) e ainda contando com a presença de um cão e mais três pessoas: duas que se encontram representadas no espelho (ver detalhe abaixo) e a outra seria o próprio pintor, cuja assinatura e data estão marcadas logo acima do espelho: “Jan Van Eyck esteve aqui, 1434.”


A união dos Arnolfini registrada no interior de sua residência pode ser vista como a manifestação de uma cerimônia privada, no ambiente profano (fora do templo), mas mesmo assim é dotada de uma ligação com o sagrado, que se encontra representado pelas miniaturas da vida de Cristo presentes na moldura do espelho; o rosário dado como presente de noivado para a noiva e por fim, uma única vela acesa no lustre, evocando “os olhos de Deus representados pelo fogo sagrado”.
Por fim, não há como deixar de observar a riqueza e o luxo presente na vida dos noivos, os quais se encontram ricamente trajados, a mobília, o tapete oriental, bem como a presença de frutas estrangeiras, como as laranjas, oriundas de sua terra natal. E dentro do âmbito privado, caberia ainda a pergunta: estaria Giovanna grávida? Seria essa a explicação para uma cerimônia tão importante dentro do ambiente privado? Muitas dúvidas e poucas certezas, mas mesmo assim o quadro não perde a sua importância na história da arte.

O Renascimento e as ciências

Uma importante transformação ocorrida no contexto do Renascimento foi a invenção da imprensa de tipos móveis pelo alemão Johan Gutenberg, que em 1450 na sua oficina em Mongúcia começou a imprimir a Bíblia. Tal fato implicou numa maior agilidade que o método até então utilizado: a cópia manual, feita nos mosteiros e abadias pelos monges copistas, que se responsabilizavam em copiar o texto e produzir também as imagens que o acompanhavam, as iluminuras.



A divulgação e ampliação do uso da imprensa tiveram um grande impacto na sociedade ocidental, favorecendo a divulgação do conhecimento numa escala muito maior que antes, bem como tornando o livro mais acessível, muito embora ainda não houvesse uma democratização do conhecimento e cultura, algo que talvez estejamos vivenciando agora em nossa época, guardadas as devidas proporções, porque o analfabetismo e a educação de qualidade ainda travam uma batalha constante.
Durante a Idade Média, um dos principais temas defendidos pela Igreja era o geocentrismo, teoria pautada no pensamento de Cláudio Ptolomeu (100?-170?), o qual concebia a Terra como estática, tendo o Sol e os planetas girando ao seu redor.

Sistema Geocêntrico

Tal pensamento começou a ser questionado pelo astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), ao publicar, um pouco antes de morrer, o tratado De revolutionibus orbium celestium, defendendo o heliocentrismo (a Terra e os planetas giram em torno do Sol, que é estático).

Sistema heliocêntrico

A teoria heliocêntrica foi levada adiante por Galileu Galilei (1564-1642), físico e matemático florentino, responsável pelo aprimoramento do telescópio em 1609 e também pelo furor causado quando desafiou a Igreja ao defender intensamente os estudos de Copérnico. Devido a suas ideias acabou acusado de “inimigo da fé” e foi duas vezes processado pela Inquisição. Apesar de não ter sido condenado à morte, recebeu um castigo de maior crueldade para quem vive daquilo que estuda e ensina: foi obrigado a retratar-se publicamente, renegando suas pesquisas e acabou seus dias em prisão domiciliar. Os estudos de Galileu foram importantes para os trabalhos de Johann Kepler (1571-1630), que analisou o movimento dos planetas, elaborando a teoria das órbitas elípticas, vigente até os dias de hoje. Os estudos de Galileu também colaboraram para o aprofundamento do assunto com os trabalho de Isaac Newton (1642-1727), físico inglês que consolidou a posição de seus antecessores e publicou trabalhos sobre a chamada lei de gravitação universal, conhecidas por nós hoje como leis de Newton, as quais não só explicam uma série de eventos físicos que vivenciamos, como também acabaram por confirmar o heliocentrismo.
Somente em 1992, a Igreja Católica, então chefiada pelo papa João Paulo II, perdoou Galileu, reconhecendo o valor de suas pesquisas e a gravidade do erro que a instituição cometeu com o estudioso florentino.



Na medicina destacou-se André Vesálio (1514-1564) na área da anatomia ao publicar o tratado Sobre a estrutura do corpo humano(imagem acima), trabalho realizado pela experiência na dissecação de cadáveres; Miguel de Servet (1511-1553), médico espanhol responsável pela descoberta da circulação do sangue ou circulação pulmonar pelas artérias; William Harvey (1578-1657) estudou medicina em Pádua, onde Vesálio fora professor e deixou um grande número de discípulos. Harvey aprimorou as pesquisas de Servet sobre o sistema circulatório e publicou em 1628 o tratado Estudos anatômicos dos movimentos do coração e do sangue dos animais, considerado uma das mais importantes obras da sua época, tendo apenas omitido a existência dos vasos capilares, pois ainda não tinha sido inventado o microscópio. A descoberta dos capilares ficou por conta dos trabalhos do médico italiano Marcelo Malpighi (1628-1694), já que o microscópio foi inventado na Holanda em 1657.

Obras em destaque:

Rafael Sanzio: "Escola de Atenas", afresco, c. 1506-1510 - Museus do Vaticano, Roma, Itália.

Michelangelo Buonarroti "Cúpula da Basílica de São Pedro"

Michelangelo Buonarroti "David", c. 1501-1504, Academia de Florença, Itália.

Rogier van der Weyden "A deposição da cruz" óleo sobre madeira, c.1435, Museo del Prado, Madrid, Espanha.


Pieter Brueghel "O Casamento camponês"c. 1567, Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria.

Mathias Grünewald "Retábulo de Isenheim" c. 1510-12, Unterderliden Museum, Colmar, França.

Albrecht Dürer "Autorretrato", c.1500, óleo sobre madeira, Alte Pinakothek, Munique, Alemanha.

Albrecht Dürer "Rhinocerus", gravura, c. 1515, British Museum, Londres, Inglaterra.

Albrecht Dürer "Os quatro cavaleiros do Apocalipse" c.1501-1502, coleção particular. 

Hieronymus Bosch "O jardim das Deícias", óleo sobre madeira, c.1490-1510, Museo del Prado, Madrid, Espanha.









terça-feira, 24 de junho de 2014

Parte III - Renascimento: a transição do mundo medieval para o mundo moderno

No Quattrocento podemos observar um maior desenvolvimento das formas de representação, cujo intento era a tridimensionalidade, marcando portanto um aprofundamento daquilo que foi enunciado pelo Trecento nas artes plásticas. Na literatura, podemos observar o interesse pelo humanismo, pois os escritores voltaram a imitar os autores da Antiguidade, ao substituir os dialetos locais e a utilizar o grego e o latim.


O centro da produção renascentista naquele contexto era Florença, a capital dos domínios dos Médici (foto do brasão abaixo), uma poderosa família de comerciantes e banqueiros que governaram com plenos poderes entre 1434 e 1492. Na pintura os destaques foram Masaccio (1401-1428), um jovem pintor que, apesar de sua curta carreira, deixou obras de grande importância como A Trindade, A Virgem e o Menino com os anjos, as quais inspiraram vários de seus contemporâneos; Sandro Botticelli (1447-1510), autor de O nascimento de Vênus, A alegoria da Primavera, entre outras; e Fra Angélico (1400-1455), autor da Anunciação.



Na arquitetura encontramos o trabalho de Filippo Brunelleschi (1377-1446), responsável pela construção da cúpula da catedral de Florença, entre outros trabalhos, os quais são dotados de um grande rigor no estudo das formas geométricas e da linguagem matemática, e que fazem com que Brunelleschi seja considerado por alguns especialistas como o precursor da perspectiva matemática.

Entre os nomes do Quattrocento está Leonardo da Vinci (1452-1519), homem de múltiplas habilidades: pintor, construtor, escultor, inventor, matemático e filósofo, personificando o exemplo de "homem universal". De sua vasta obra destacam-se: A virgem dos rochedos, La Gioconda (Mona Lisa), projetos arquitetônicos, tratados de anatomia, pintura e vários inventos. Leonardo representa a transição do Quattrocento para o Cinquecento.


Tomemos um primeiro exemplo, o quadro O nascimento da Vênus, obra do pintor florentino Sandro Botticelli (1445-1510), cujo próprio nome já identifica sua temática: a representação do nascimento da deusa romana do amor, Vênus (Afrodite para os gregos), encomendada por Lorenzo di Pierfrancesco, primo de Lorenzo de Médici, o Magnífico, governante de Florença entre 1469 e 1492.

Na pintura, a Vênus ocupa a posição central do quadro, dividindo de forma harmoniosa o espaço da composição: na sua direita se encontram a personificação dos ventos, que sopram e assim formam as ondas e as espumas do mar, de onde nasce a Vênus, que está em pé sobre uma concha e encobrindo-se com suas mãos e cabelos; a sua esquerda, vindo ao seu encontro, a personificação da Flora que lhe traz suas vestes.

Apesar de o tema ser uma narrativa mitológica greco-romana, o cristianismo se faz presente através do pensamento neoplatônico de Botticelli, influenciado pelo filósofo Marsílio Ficino (1433-1499), que incorporou o pensamento de Platão a partir de uma visão cristã.
Botticelli representou a concha como uma alusão ao batismo, primeiro sacramento recebido, significado da inclusão na comunidade cristã e um contraponto ao paganismo e ao Pecado Original, pois só nas águas do batismo se encontra a Salvação. O pudor da Vênus é também outra referência greco-romana, o texto O banquete de Platão, no qual aparecem duas imagens da Vênus: a Venus Vulgaris (Vênus Vulgar) nua, simbolizando a relação com o mundo material, e a Venus Coelestis (Vênus Celestial), a qual representa a essência espiritual.

Além das referências platônicas, podemos também pensar nas diferentes esculturas que representavam a Vênus, dentre elas, a chamada Vênus Capitolina, cópia romana de um original grego que se perdera.
Outro ponto importante é a ideia da mimesis, pois a natureza é o modelo e assim, se observamos a posição dos ventos e a direção em que eles sopram, notamos claramente o acompanhamento dos cabelos da Vênus, bem como o movimento dos tecidos segurados por Flora, que tem suas vestes empurradas próximo ao seu corpo. Esses movimentos ficam acentuados pela predominância das linhas curvas sobre as linhas retas que delimitam o horizonte. A simplicidade é vitoriosa e o espírito se eleva com beleza e equilíbrio.


Uma possível exemplificação dessa ideia está no estudo de proporção feito por Leonardo da Vinci para ilustrar uma cópia do tratado De Architectura, escrito por Vitrúvio em 40 a.C. Na imagem acima, temos um homem esboçado em movimento, a partir do desdobramento das pernas e braços em duplicidade, em que a extensão das pernas até a cabeça delimita o tamanho do quadrado (um símbolo do mundo material e terrestre), enquanto a movimentação dos braços traça um círculo (símbolo do órbita celeste, do universo), podendo assim chegar a materialização de que o “homem é a perfeita medida de todas as coisas”.

O exemplo do “homem de Vitrúvio”, nome pelo qual ficou conhecido o desenho realizado por Leonardo, não só representa uma releitura da cultura greco-romana, mas também a apresentação de um novo olhar, mais centrado na experimentação, observação, análise e teorização do universo, não como algo estático e imutável, oriundo do poder divino, mas de uma sensibilidade que se tornou a base do pensamento científico ao longo dos séculos.

Analisemos agora a pintura de Leonardo da Vinci (1452-1519) A última ceia, encomendada pelo duque de Milão, Ludovico Sforza, e pintada na parede do refeitório do convento dos dominicanos de Santa Maria delle Grazie em Milão, entre 1495 e 1497.




A obra de Leonardo, assim como sua pessoa, foi objeto de inúmeras especulações desde a sua própria época aos nossos dias e ainda hoje preserva o encantamento, seja pela excelência de seu trabalho, seja pela diversidade de obras artísticas e de engenharia, fazendo de Leonardo da Vinci, o símbolo do conceito de homem universal (l’uomo universale), signo das múltiplas potencialidades nos diferentes campos do conhecimento.

O tema desta obra é o momento da última ceia de Cristo e seus apóstolos, cuja importância é vital no culto cristão, uma vez que nela se manifesta o dogma da transubstanciação (o pão se transforma em carne e vinho em sangue) e ao longo dos últimos dois mil anos se tornou o momento mais importante da liturgia cristã: a Eucaristia.


Como cena presente no imaginário cristão, seja pelo texto bíblico, seja pela sua constante repetição na liturgia ao longo da trajetória do cristianismo, a pintura de Leonardo traz uma série de elementos de representação, compondo a imagem como uma peça teatral: num grande e suntuoso salão, Cristo e seus apóstolos estão reunidos.



Jesus ocupa o centro da grande mesa, típica de banquetes medievais, tendo a cada um dos lados dois grupos de três apóstolos, logo, uma composição harmoniosa e equilibrada. O ponto central da imagem se encontra atrás da cabeça do próprio Cristo, que junto com a moldura da janela imediatamente posterior compõem uma circunferência, polo irradiador das linhas de perspectiva da composição, uma das principais contribuições do Renascimento.

A atenção de Cristo está voltada para o pão e o vinho, alimentos e metáforas de seu futuro destino, o sacrifício na cruz pela Humanidade. A posição de seus braços em relação à sua cabeça forma uma imagem triangular. Hipóteses para tal composição são inúmeras, destacando-se entre elas, as de caráter esotérico e místico, uma vez que os estudos herméticos e de alquimia foram muito comuns à época de Leonardo.

Não há como saber quais foram as referências que guiaram a mão e a cabeça do pintor. Mesmo as referências presentes nos Evangelhos não oferecem muitos dados para uma resposta precisa. Nesse sentido, chegamos a um ponto importante do entendimento sobre qualquer produção artística: as imagens não têm sentido sozinhas, existe um contexto e a recuperação desse contexto implica na compreensão ou na “atribuição” de um sentido mais preciso ou pelo menos mais plausível a respeito de seus possíveis significados.

Obras em destaque:


Masaccio: "A Trindade", afresco, c. 1428 - Igreja de Santa Maria Novella, Florença, Itália.

Fra Angelico: "A Anunciação", têmpera, c.1426 - Museo del Prado, Madrid, Espanha.


Filippo Lippi: "Madonna com o Menino Jesus e anjos", óleo sobre madeira, c. 1465 - Galleria degli Ufizzi, Florença, Itália.



Piero della Francesca: "A Madonna, o Menino Jesus e os santos", têmpera, c. 1472 - Pinacoteca Brera, Milão, Itália.

Filippo Brunelleschi: cúpula da catedral de Florença (1420-1436).

Sandro Botticelli: "A Primavera", óleo sobre madeira, c.1482 - Galleria degli Ufizzi, Florença, Itália.

Leonardo da Vinci: "A virgem dos Rochedos", óleo sobre madeira, c.1483-1486 - Museu do Louvre, Paris, França.

Leonardo da Vinci: "Monalisa", óleo sobre madeira, c.1503-1505 - Museu do Louvre, Paris, França.