As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de novembro

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Fanatismo e intolerância: a destruição da História praticada pelo Exército Islâmico

É saber sabido para a maioria dos historiadores que "a História é contada pelos vencedores", salvo exceções, o controle sobre o passado acaba por servir como um legitimador de um grupo, partido ou corrente religiosa e nesses casos, as vozes dos "vencidos" são caladas. Observemos também que o "vencido" pode assumir as posições e ideias do "vencedor", mas precisamos estudar caso a caso, sem generalizações grosseiras.

Os exemplos são vários: quando os romanos se expandiram pela bacia do Mar Mediterrâneo e dominaram entre 509 a.C. e 395 d.C., terras na Europa, África e Ásia, várias culturas foram assimiladas e romanizadas, como cantava o famoso poeta Virgílio na Eneida: "Poupar submissos, debelar soberbos". Obviamente, a cultura romana recebeu influências de outras culturas, mas poderíamos dizer que fora numa escala desproporcional. Aliás, a base linguística, a estrutura de leis e a organização do tempo seguidas na maior parte do Ocidente, entre outros exemplos, são de origem romana.

No entanto, no seio do Império Romano, uma seita marginal se transformou na religião imperial num espaço de três séculos e dessa forma, a cristianização de Roma destruiu aquilo que foi rotulado como "cultura pagã" ou pelo menos, assimilou através da releitura de tradições e costumes, mas o cristianismo detinha a hegemonia. Justamente na transição do Império para o Cristianismo, a Biblioteca de Alexandria foi vítima de mais um ataque em virtude da associação direta de sua existência com as crenças pagãs e assim, foi em nome da fé que o bispo Teófilo de Alexandria ordenou a sua destruição, junto dos ídolos e altares dos deuses, que a partir do Édito de Tessalônica em 391 d.C., tornaram-se ilegais, dando lugar aos altares dos templos cristãos.

Ressalta-se aqui um dado importantíssimo: em virtude da ascensão do Cristianismo e de seu papel na sociedade romana, o poder político conseguiu subverter a própria doutrina que foi sendo contrariada ao passo que seus líderes buscaram o conflito a intolerância, gerando mais dor e sofrimento, num contexto que deveria ser o oposto, uma vez que a mensagem de Jesus é a defesa da justiça, da liberdade, da paz e do amor ao próximo, cabendo aquele que foi ofendido nunca reagir, mas sim oferecer a outra face. Infelizmente, estas premissas ficaram para trás quando o poder e a força falaram mais alto, tendo como justificativa a defesa da fé e de Deus.




Ratos, insetos e tensões políticas sempre foram grandes inimigos das bibliotecas, dificultando sua conservação ou ainda, sob as “luzes das tochas” idéias muito mal iluminadas resolveram atentar contra o conhecimento, sob as justificativas mais bizarras ou “mais nobres”, preferindo a queima do livro, para cegar e emudecer mais a Humanidade.

Os seguidores de Maomé (570-632) dominaram diferentes territórios e culturas, tudo aquilo que fosse contrário ao Islã era destinado à destruição. 



Portanto, a postura expansionista islâmica não era em nada diferente das ações cristãs contra a cultura pagã ou se olharmos em outros momentos, o processo de destruição e aculturação promovido pelos europeus durante a conquista e colonização do Novo Mundo (séc. XV-XVIII) ou do movimento neocolonialista europeu focado na África, Ásia e Oceania.

No momento atual, assistimos mais uma vez, a ascensão de um grupo (o Exército Islâmico do Iraque e Levante - ISIS em inglês) que se impõe em áreas no leste da Síria e no norte do Iraque e ali instituiu aquilo que a seu ver é o "correto": destruição dos inimigos e de sua cultura, respeitando a premissa de que a Charia (Lei Islâmica) deve controlar a vida de todos. Caso haja entre eles os chamados "infiéis", imponha-se a conversão ou do contrário, pratica-se a destruição. Isso não é uma novidade completa.



Em março de 2001, quando o Taliban ainda controlava o Afeganistão, um conjunto de estátuas de Buda esculpidas num paredão de rocha (datadas do séc. V d.C. na região de Bamiyan) foram destruídas por representarem "idolatria" e assim, seguindo a Charia, os talibans as explodiram. Atualmente, o governo do Japão tem financiado sua reconstrução desde 2006.

Reconstrução de um dos Budas de Bumiyan - Afeganistão 


Nesta semana, assistimos a destruição do Museu de Antiguidades de Mosul e de sua Biblioteca Pública (inúmeros livros, incluindo manuscritos raros foram destruídos): estátuas do período assírio (séc. VIII-VII a.C.) com golpes de marreta e furadeiras. Vejam os links abaixo:




https://www.youtube.com/watch?v=2ai33CUg5oY

Alguns poderiam pensar, de modo mais limitado, que não é um problema que nos atinge, porém a dimensão da questão é outra: trata-se de uma parcela significativa de História da  Humanidade e não exclusivamente do Iraque que está sendo destruída. Obviamente que tem valor para a cultura local, mas também tem para o resto do mundo, portanto, é inadmissível aceitar tal conduta. 

O discurso radical e intolerante não desapareceu em diferentes partes do mundo, querendo usar argumentos nobres para mais uma vez, calar, censurar e até exterminar tudo aquilo que é tido por “diferente”, que dentro desta lógica se torna sinônimo de “perigoso” e por isso deveria ser proibido ou destruído, segundo os delírios radicalizantes da intolerância, fato que sempre representam uma grave perda para a Humanidade.


Precisamos de luz (Conhecimento) para iluminar nossas ações e decisões, mas que sejam sempre pautadas na dignidade, na liberdade, igualdade, justiça e na tolerância entre todos, independentemente, de qualquer condição (crentes e discrentes), dentro deste complexo universo que hoje já soma mais de sete bilhões de indivíduos.






domingo, 22 de fevereiro de 2015

E por falar na Bíblia: um passeio pela Biblioteca Apostólica Vaticana

Faz parte do imaginário coletivo um série de dúvidas, às vezes delírios, sobre a formação da Bíblia e os eventuais arquivos ultra-secretos que a Igreja Católica parece ter a perversão doentia de esconder.
Bem, Dan Brown que o diga e que agradeça, pois esta paranóia conspiratória o tornou um escritor milionário.

Desde ontem(21/02), através de uma notícia no Portal UOL (Coluna Darwin e Deus), aparece a informação da digitalização e acesso livre de um dos mais antigos escritos da Bíblia: um manuscrito escrito sobre pergaminho (pele de animal tratada para servir de suporte para a escrita), datado do século IV da Era Cristã do Codex Vaticanus.

Reprodução da página com o final da 2a Epístola aos Tessalonicenses (3, 11-18) e o início da Epístola aos Hebreus(1, 1-2; 2).

O texto de Reinaldo José Lopes aponta para algumas divergências que este antigo exemplar traz em relação ao texto conhecido por nós: a inexistência do final do Evangelho de Marcos, onde aparece o encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos (Mc 16, 9-19) ou ainda a célebre passagem da adúltera no Evangelho de João (Jo 7, 53).

Bem, primeiro lugar, os textos bíblicos são originários de uma tradição oral que depois, muito, mas muito depois passou para a escrita. Isto ocorreu com o chamado Antigo Testamento, que veio da tradição oral judaica e só por volta do século VIII a.C. apareceram as primeiras versões escritas e serve para o Novo Testamento, que também tivera uma base oral em e depois escrita em grego, como por exemplo, o Codex Vaticanus. Mais tarde, Jerônimo traduziu ambas as partes para o latim, originando a Vulgata, que se tornou o texto oficial durante a Idade Média, sendo contestado mais tarde por Lutero, que fizera a primeira tradução para o alemão e depois vieram outras versões em francês, holandês, inglês e outras línguas. 

Todas estas traduções foram repudiadas pela Igreja Católica(fizeram parte do Índex, a Lista de Livros Proibidos controlada pela Inquisição) até 1965, com a liberação do uso das línguas locais para o culto e textos, um resultado extremamente importante do Concílio de Vaticano II(1962-65), iniciado pelo papa João XXIII(1958-63) e concluído sob a presidência de Paulo VI.

Seria, portanto o Codex Vaticanus, a uma única fonte mais antiga? O texto que conhecemos hoje é/foi fruto de alguma "manipulação" intencional?

Vamos por partes e com muita calma.

Quando investigamos a formação do Cânon, quer dizer, do texto "oficial" da tradição cristã, identificamos várias outras fontes: o Codex Siniticus (presente no mosteiro de Santa Catarina do Monte Sinai), também datado do século IV d.C.; a polêmica Septuaginta (versão do texto hebraico para o grego que teria sido feita por 70 sábios e daí o significado de seu nome); os manuscritos do Mar Morto (fragmentos de papiros encontrados nas cavernas de Qumram, em Israel, sendo datados do séc. I d.C.)

Fica difícil dizer que as mudanças no texto foram feitas de modo premeditado, buscando obter algum resultado específico. Sabemos que, muitas vezes, uma palavra de uma determinada língua não tem equivalente em outra e aí entra a "interpretação" do tradutor.

Um exemplo: nas representações tradicionais do Paraíso daqueles primórdios de Império cristianizado, era bastante comum o enlace com a tradição pagã. Jonas poderia aparecer nu, sob um caramanchão de abóboras, cercado de peixes.

Jerônimo alterou a palavra hebraica qiqqayon, que seria equivalente a "abóbora" e deveria ficar em latim como "curcubita" para "hedera", a qual significa hera, a planta trepadeira comum em jardins e simboliza-se melhor a sua concepção do que seria o Além.

Fica a pergunta: quem estaria certo??

Abaixo temos algumas observações sobre o Codex Vaticanus:

Close apontando "notas" produzidas, provavelmente, por um copista.


Caso desejem um olhar mais amplo, segue o link da Biblioteca Apostólica Vaticana:

https://www.vatlib.it/

Boa Leitura!!



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Resenha do filme "Êxodo: deuses e reis", direção de Ridley Scott (2014)

Literatura versus Cinema sempre renderam uma boa briga, porque nem todas as eventuais adaptações do texto para tela alcançam a unanimidade dos fãs de uma e outra linguagem. 

Basta conversar com os devotos de "Harry Potter" e de "O Senhor dos Anéis" que as diferenças de opinião se manifestam facilmente. Isso para não falar de outras dezenas de obras. 

Mas, se falarmos que o texto é o Pentateuco, o qual integra a Torá (livro sagrado do judaísmo), o Antigo Testamento da Bíblia para os cristãos e tem ligações com o Corão, livro sagrado do Islã?
A situação se complica bastante.

O filme “Êxodo: deuses e reis”, dirigido por Ridley Scott em 2014, não é o primeiro a tratar da famosa história de Moisés e a busca da Terra Prometida e nesse caso, no imaginário coletivo ainda sobrevivem as referências do clássico filme de 1956, dirigido por Cecil B. DeMille e protagonizado por Charlton Heston como Moisés e Yul Brynner  como Ramsés, assim sendo, a comparação e a expectativa seriam inevitáveis.



Ridley Scott tem um curriculum invejável, marcado por inúmeros sucessos de público e crítica, dotados de um elevado padrão de qualidade em diferentes frentes: a execução do filme, a escolha de bons roteiros, pesquisa histórica, efeitos especiais e elenco de alto nível. No entanto, este background todo não foi suficiente para segurar a má recepção, tanto dos laicos quanto dos religiosos.

Scott optou por não fazer um decalque do filme de DeMille, portanto, ao contar a sua história, o caminho foi fugir dos cânones  (do cinema e da fé), sabendo que o risco seria grande. Na verdade, não é uma novidade tal opção, pois em “Gladiador”(2000), Scott construiu uma poderosa ficção para contar a epopeia do general Maximus que de preferido do imperador Marco Aurélio torna-se inimigo do seu sucessor, Cômodo, que assassinara o pai para assumir o trono, ao saber do plano de Marco Aurélio para restaurar a República, sob o controle de Maximus.

Ciúmes, ganância e loucura temperados com ficção (Cômodo não matou Marco Aurélio; nunca houve um plano de restauração republicana em Roma e Maximus era um personagem fictício) que renderam um excelente resultado, pois renovou a produção de filmes épicos e estourou como um sucesso milionário.

Bem, ao lidar com Moisés, este formato de mesclar ficção e história tem fator de complexidade ampliada: Moisés é um personagem venerado por judeus, cristãos e muçulmanos (metade da Humanidade se somarmos as três crenças) e o texto sagrado tem para os religiosos a condição de “Verdade”, quer dizer, tudo aconteceu daquele modo. Já para os estudiosos laicos, as dúvidas são imensas, seja do personagem em si (a existência de Moisés e a atribuição da autoria do Pentateuco), como dos fatos citados (condição dos hebreus no Egito, as ações de Deus, guiando Moisés na sua fuga) e desse modo, lidar com uma leitura pessoal sobre o tema seja tão complexo quanto manipular nitroglicerina.

Os grupos radicais presentes no judaísmo, cristianismo e islamismo não admitem qualquer questionamento de sua verdade e as tensões envolvendo grupos fundamentalistas é crescente: lembremos dos recentes atentados em Paris ou mesmo as execuções do Exército Islâmico, bem como, aumento da intolerância de certos grupos cristãos neopentecostais para com o catolicismo, espiritismo e as religiões de matriz africana no Brasil. 

Obviamente, sei que os eventos ocorridos no Brasil são poeira perto da barbárie praticada em outros lugares, mas é interessante apontar tal foco de tensão,  que sorrateiramente cresce, colaborando para mostrar que o brasileiro não é tão cordial quanto tenta parecer e também não somos uma democracia racial e muito menos religiosa, onde todos vivem harmoniosamente.

Ridley Scott escalou Christian Bale, muito celebrado pela trilogia de Batman dirigida por Christopher Nolan, portanto, transmitiria significativa credibilidade ao interpretar o papel de Moisés. Não foi o caso, pois o Moisés de Scott saiu como um jovem orgulhoso, sarcástico e quase agnóstico, sendo que, ao ser revelada a verdade sobre a sua origem, Moisés tenta se transformar numa espécie de líder guerrilheiro treinando um exército para lutar contra o poder do seu irmão de criação, Ramsés. 
Depois, ocorre a transição do líder militar para o líder espiritual, mas tudo acontecendo como eventos da Natureza, sem Moisés como o “instrumento de Deus” e por falar no “Todo-Poderoso”, este aparece a Moisés como um  frágil menino maltrapilho. Pelo que sabemos, o "Deus menino" está na outra parte: o Novo Testamento.

Então , qual seria o papel de Moisés, se Deus fez tudo? Aliás, tudo foi feito de tal modo, que  Moisés saiu molhado do Mar Vermelho...

O antagonista Ramsés, interpretado por Joel Edgerton, se parece com um moleque mimado, superprotegido pela mãe e negligenciado pelo pai. Suas ações são movidas pelo egoísmo e ciúmes e nada lembra o estadista Ramsés II, que governou o Egito entre 1279 e 1213 a.C., num período de significativa prosperidade.

Se Scott buscou uma releitura da narrativa lendária, se apropriando do mito num processo de reconstrução, o choque com a tradição seria inevitável.

Por exemplo, ao mostrar a opulência do Egito de Ramsés, muitas obras (palácios e templos) aparecem no cenário construído pela computação gráfica, mas em uma outra tomada, pirâmides em construção, como se ainda naquele contexto, as pirâmides de Gizé ainda não existissem. Erro crasso, afinal, ambienta-se o Êxodo no século XIII a.C., período do chamado Novo Império, enquanto as pirâmides foram construídas no Antigo Império (séc. XXVI-XXV a.C.) e nisso temos uma diferença de mais de mil anos.

Há outro ponto de forte controvérsia: o texto bíblico fala em “escravidão do povo hebreu”, enquanto muitos arqueólogos e historiadores contestam o fato, levando em conta as pesquisas mais recentes e as evidências históricas alheias ao texto bíblico. Nesse ponto, Scott optou por seguir a tradição.

Sabemos que inúmeras gerações de hebreus construíram oralmente a tradição no passado e só bem depois, por volta do século VIII a.C. começaram as ser registradas as informações que se transformaram na Torá, portanto, na análise destes textos, a condição alegórica e mitológica é marcante, não sendo possível conferir-lhes o status de “Verdade inquestionável” como a religião faz, seja pelo seu processo de organização, seja pelas edições e traduções que sofreu.

Então há uma Verdade? Qual seria a “História oficial”? E haveria algum limite para a licença poética do diretor?

A resposta depende do campo onde se encontra o leitor e nesse aspecto, cinéfilos laicos e religiosos encontrarão muito espaço para discutir, já os extremistas nem isso farão, pois o filme já foi visto e proibido em vários países, rotulado com “blasfêmia” e assim, a defesa cega da Fé abre mais espaço para a intolerância e violência.


Ridley Scott não quis blasfemar contra a fé de ninguém ou fazer polêmica pura e simplesmente para mais publicidade e lucro, do ponto de vista cinematográfico, entendo que este não é o seu melhor filme, porém pode-se dizer que nos ajuda a entender como estamos ameaçados por aqueles que desejam suprimir os conceitos de liberdade de expressão e de pensamento em troca de submissão e obediência cega.

Os antigos romanos bem diziam: "Ubi dubium ibi libertas", quer dizer, "Onde há dúvida, há liberdade"

Que assim seja sempre!

Sugestões do Gabinete:

"Os dez Mandamentos". Direção de Cecil B. DeMille, 1956, 220 min: 


"O Príncipe do Egito". Direção de Brenda Chapman, 1998, 110 min: