As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de setembro

sábado, 18 de junho de 2016

Reinos Bárbaros e o Sistema Feudal

REINOS BÁRBAROS

Com a decadência de Roma, as tribos germânicas que viviam além do limites do Império passaram a cruzar as fronteiras em pequenas expedições de saque e pilhagem. O exército romano mostrou-se incapaz de perseguir os bárbaros que se esconderam nas florestas, e passou, então, a contratar chefes de tribos germânicas amigas para patrulhar as fronteiras contra outros povos bárbaros. Esse acordo celebrado entre Roma e as tribos bárbaras recebeu o nome de Foedus e daí as tribos que se associavam aos romanos passavam a ser chamadas de federados.
Originários da Ásia central, os hunos sempre viveram em tribos independentes e em constantes lutas internas. Unificados por Átila, atravessaram boa parte da Ásia e da Europa em busca das riquezas do Império Romano. Chegando aos limites de Roma, provocaram uma debandada geral das tribos germânicas, desorganizando ainda mais o já combalido império.
As tribos bárbaras lutaram incessantemente entre si e devastaram todas as terras. A insegurança fez que a população fugisse das cidades, que eram o alvo preferido dos invasores, e procurasse abrigo no campo, sob a proteção de um patrício ou general poderoso, uma vez que este possuía um exército próprio para proteger-se em sua Villae (o latifúndio romano)
A larga convivência entre bárbaros e romanos fez que os primeiros assimilassem vários costumes dos últimos. A maior prova disso foi o fato de que os bárbaros gradativamente substituíram a tradicional organização tribal por algo que se aproximasse daquilo que viram funcionar no mundo ocidental romanizado.

Mapa das Invasões ao Império Romano entre os séculos III e V d.C. 
Fonte: Wikipédia - https://goo.gl/MYPBdK


Ao longo do século, pode-se assinalar alguns reinos bárbaros com razoável precisão:


  •          Reino dos Francos, na atual França. Foi o mais poderoso de todos os reinos bárbaros, destacando-se as dinastias merovíngia e carolíngia, que serão mais detalhadas adiante.
  •          Reino dos Visigodos, no território da Península Ibérica;
  •          Reino dos Vândalos, que ocupava o norte da África;
  •        Reino dos Lombardos, situado ao norte da Península Itálica.
  •        Reino dos Saxões, na ilha da Bretanha, atual Inglaterra.

A Igreja cristã, cujo poder era hegemônico em Roma, procurou apoio nos chefes bárbaros como forma de conseguir alguma proteção para a outrora capital do mundo. Diante do poder militar conquistado pelos francos frente a outras tribos bárbaras e da conversão ao cristianismo de seu rei, Clóvis, o bispo de Roma foi pessoalmente à Gália batizar o rei dos francos (496). A monarquia franca afirmava ser descendente de um herói mitológico de nome Meroveu, daí, o fato de posteriormente serem chamados de merovíngios.

Durante o governo de Clóvis, o reino franco ampliou suas fronteiras, dominando terras em toda a Gália. Com a morte do líder, ficou colocado o problema da dupla herança cultural dos francos. Enquanto a tradição germânica determinava que todos os bens fossem divididos igualmente entre os herdeiros, a romana entregava toda a herança ao filho mais velho. Clóvis preferiu seguir a tradição germânica, dividindo, assim, o reino entre seus quatro filhos. Entretanto, seus sucessores não tiveram a mesma habilidade e disposição política do pai, e mereceram ficar conhecidos como reis indolentes.

Paulatinamente, os soberanos merovíngios foram perdendo o poder para nobres subalternos, que se aproveitaram da carência de autoridade dos reis para se impor. Esses nobres eram os major domus, também chamados de prefeitos do palácio. Tais prefeitos passaram a governar efetivamente os reinos francos, exercendo o poder de fato, enquanto os reis detinham o poder de direito. Pepino de Heristal conseguiu consolidar a unificação dos reinos francos, entregando-os a seu filho, Carlos Martel. Este último foi o responsável pela interrupção da expansão muçulmana na Europa, vencendo os islâmicos na Batalha de Poitiers (732).

O IMPÉRIO CAROLÍNGIO

Pepino, o Breve, filho de Carlos Martel, depôs Childerico III, o último rei merovíngio e, com o apoio do Papa Zacarias, fez-se coroar novo rei dos francos, dando início a uma nova dinastia.
Pepino confirmou os questionáveis acordos e doações de Constantino à Igreja. Segundo esses acordos, o título de imperador pertenceria ao papado. Por essa proximidade com o cristianismo e por defender a Igreja de um ataque dos lombardos, Pepino recebeu o título de patrício. Também foi o responsável por conceder uma série de terras na Península Itálica que formaram o Patrimônio de São Pedro.
Porém, com a morte de Pepino, ocorreu uma nova disputa pelo trono e consequente divisão das terras entre seus filhos, Carlos e Carlomano, e recomeçaram as lutas internas. Com a morte de Carlomano em 771, Carlos Magno, como ficaria conhecido, reunificou o reino e, atendendo a um pedido do Papa, realizou novos ataques aos lombardos que ameaçavam Roma, entregou a região de Ravena ao Papa e, assim, o Patrimônio de São Pedro estava protegido. Mais uma vez, confirmou as doações de Constantino e de Pepino, O Breve.

Nunca um chefe bárbaro esteve tão próximo da Igreja. No dia de Natal do ano 800, durante uma missa celebrada pelo próprio Papa Leão III, Carlos Magno foi coroado Imperador Romano dos Francos. Não se pode esquecer de que o Império Bizantino continuava vivo em Constantinopla e seu imperador, Miguel I, não aceitou a ideia de que um bárbaro envergasse a púrpura imperial. Para ser reconhecido pelo soberano oriental, Carlos Magno entregou a ele os domínios da Dalmácia e Ístria.
Para melhor administrar os territórios que compunham o reino dos francos, Carlos Magno dividiu-o em ducados (terras cedidas a um amigo do rei, o Duque), condados (governados por um conde que devia obediência ao rei), marcas (em regiões fronteiriças governadas pelo marquês), e criou os missi dominici (os olhos e ouvidos do rei). Estes últimos fiscalizavam todo o Império Franco e garantiam que os interesses do rei não fossem lesados.

Cabeça relicário de Carlos Magno - Séc. XIV - Tesouro da Catedral de Aachen, Alemanha
Crédito: Elias Feitosa

O sucessor direto de Carlos Magno foi Luís, o Piedoso, que governou até 841 e apenas procurou manter aquilo que seu pai havia conquistado. Luís legou o império a seus três filhos. Lotário, o mais velho, pretendeu ser o único imperador, valendo-se das tradições romanas que garantiam poder ao primogênito, mas teve de enfrentar seus dois irmãos, que reivindicavam os costumes germânicos e lhe impuseram o Tratado de Verdun (ano 843), que dividia o império em três partes:

·        Carlos, o Calvo, ficou com a Francia Ocidental;
·        Luís, o Germânico, ficou com a Francia Oriental;
·        Lotário ficou com uma faixa de terra entre as duas partes (a Lotaríngia) e o título de Imperador. 

Com a morte de Lotário, suas terras foram anexadas por seus irmãos. 
É importante destacar que Tratado de Verdun foi apresentado ao povo em língua romana e, depois, em língua germânica, demonstrando a divisão existente no Império Carolíngio.


Com a partilha do Império, a Francia Ocidental começou um lento processo de fragmentação sob Carlos, o Calvo, e seus descendentes. Luís, o Gago, e Carlos, o Simples, viram o poder passar lentamente às mãos dos condes, que já não prestavam homenagem (fidelidade militar) ao imperador e que, naquele momento, transmitiam a seus filhos o governo dos feudos. O poder real (ou imperial) submergiu na fragmentação do feudalismo.
Na Francia Oriental, Luís, o Germânico, enfrentou forte oposição dos grandes senhores da Saxônia e, em seu leito de morte, recomendou a seu filho que entregasse a coroa ao poderoso Duque de Saxônia, Henrique.
Os descendentes de Henrique governaram a Francia Oriental dando origem à Dinastia Otônida e ao Sacro Império Romano Germânico, fundado por Oto I, denominado Sacro Império Romano Germânico, o I Reich (Império na língua alemã) que existiu até 1806.

O FEUDALISMO

O feudalismo é classicamente definido como um sistema composto de relações econômicas e sociais servis, descentralização administrativa e fidelidade política e militar entre nobres.
Neste sistema de relação homem a homem, um nobre doador de terras (beneficium), que era chamado de Suserano, comprometia-se a dar proteção a um outro nobre, o recebedor de terras, sendo considerado Vassalo do primeiro. Este último, em troca das terras recebidas, comprometia-se a prestar uma série de serviços ao seu suserano, a maior parte deles de caráter militar. Sem dúvida, o mais importante deles era o juramento de fidelidade absoluta e indissolúvel quando houvesse a necessidade de formar um exército.

O feudalismo era um sistema complexo, por vezes conflitante. Formou-se na Europa Ocidental entre os séculos VIII e XI da Era Cristã, como resultado da ruralização e da insegurança provocadas pelas invasões: os normandos (vindos do norte), os muçulmanos (vindos do sul), os húngaros e eslavos (vindos do leste) e pela já existe fusão de costumes romanos e bárbaros (germânicos) desde o século V. A ruralização e a insegurança provocadas por essas invasões terminaram por afastar as comunidades dos centros urbanos, dando origem aos feudos.

A contribuição romana se deu pela prática do trabalho servil. A servidão originou-se do colonato, exercício de trabalho semilivre que se espalhou pela zona rural romana em virtude da crise do escravismo e do encarecimento decorrente da escassez da oferta de escravos. Por outro lado, com a insegurança e as crises sucessivas, muitos romanos poderosos passaram a se refugiar em suas villaes, protegidos por uma guarda pessoal. Plebeus fugidos das cidades ofereciam-se como colonos, na busca da proteção, abrindo mão de sua liberdade em troca da permissão para produzir e viver nas terras daquele senhor. Finalmente, acabavam se transformando em servos da gleba, e é esse processo que aponta no sentido da ruralização da Europa.

Já os bandos guerreiros germânicos introduziram o costume do Comitatus, que era uma relação de amizade e troca de presentes entre um chefe tribal e seus homens de confiança. O maior símbolo dessa relação era a homenagem, na qual os homens juravam fidelidade absoluta ao seu superior.
Uma vez que o suserano era, por definição, aquele que doava terras, evidentemente todo vassalo que doava uma porção de terra tornava-se também suserano. Quanto ao rei, ele era considerado o suserano de todos os suseranos, com o direito de gozar seus privilégios em todos os feudos se assim desejasse. A fragmentação do poder político e a ruralização propiciaram um processo de organização de várias alianças entre os senhores feudais, criando uma teia de vínculos de dependência, que unia os senhores mais poderosos e seus vassalos e dessa forma , o poder local era muito mais forte que o poder central, já que o rei detinha o poder de direito, mas os senhores feudais detinham o poder de fato.

Outro elemento que ajuda a visualizar a autonomia dos feudos é o fato de que as leis escritas da época romana foram, aos poucos, sendo obrigadas a conviver com a tradição oral dos germânicos (direito consuetudinário), isso quando a tradição e os costumes não substituíram completamente o direito escrito.

A investidura de Lancelot - Iluminura do séc. XV Fonte: BNF - Paris.


Essa estrutura nobiliárquica feudal, entretanto, não levou em conta o aumento da população, bem como o número finito de divisões que uma propriedade suportaria, levando em conta a sua capacidade de produção. Dessa forma, a fome era uma dura realidade em grande parte dos feudos e quando havia algum excedente, os senhores procuravam trocar ou comercializar com outros territórios.Os senhores feudais, impossibilitados de dividir suas terras entre seus filhos, passaram a transmitir todos os seus bens ao filho mais velho, dando aos mais novos tão somente as armas para que pudessem exercer a função de cavaleiro. Os demais filhos saíam, então, à procura de guerras que lhes garantiriam um feudo ou mesmo um lugar na corte de um nobre qualquer.

A cavalaria desenvolveu um código de ética profundamente rígido, no qual eram intocáveis princípios como a honra, a lealdade e o da defesa incondicional do cristianismo. Como cavaleiros andantes, esses nobres vagavam por toda a Europa, oferecendo seus serviços a todos os reis, condes, duques e marqueses envolvidos em disputas locais. Tais disputas tornaram-se tão frequentes e sangrentas que a Igreja foi obrigada a impor a Trégua de Deus, limitando os dias da semana em que poderia haver combates.
A sociedade feudal era estamental, ou seja, não havia mobilidade social, salvo em situações muito particulares. De maneira geral, pode-se dizer que as camadas sociais resumiam-se da seguinte forma: clero, nobreza e servos.

Sustentando praticamente todos os demais segmentos sociais, estavam os servos, famílias inteiras de pequenos agricultores que pagavam uma infinidade de contribuições para que o nobre lhes permitisse continuar no feudo.
Não se deve esquecer de que a moeda raramente era utilizada na Idade Média e, portanto, essas obrigações eram pagas com gêneros alimentícios ou trabalhos no castelo do senhor feudal. Entre as obrigações servis, pode-se destacar:

·        Corveia : trabalho compulsório nas terras do senhor. Além desse, havia os dias trabalhados na terra do senhor de forma gratuita;
·        Capitação: taxa paga pelo servo que correspondia a cada membro da família;
·        Talha: pagamento de parte da produção do servo e do vilão aos nobres;
·        Banalidades: pagamento de presentes obrigatórios ao senhor e taxas diversas pelo uso das instalações do senhor;
·        Formariage: pagamento ao senhor pela permissão de casar, em alguns lugares envolvia a entrega da noiva para passar as núpcias com o senhor . 
·        Mão morta: para entrar em posse de heranças, ou ainda para permanecer no feudo em caso de morte do chefe da família;
·        Tostão de Pedro: pago à Igreja.
           
A economia feudal baseava-se na agricultura, sempre voltada para a subsistência. Na maioria dos casos, não havia produção de excedente e o comércio de longa distância praticamente desapareceu, existindo, porém, um sistema de trocas comerciais diretamente com os próprios produtos, quanto às técnicas de cultivo e produção, estas permaneceram inalteradas, com processos extremamente rudimentares.
Apenas na virada do primeiro milênio algumas modificações significativas foram introduzidas. Uma delas foi a substituição do rodízio de cultivo bienal (a cada dois anos) pelo plantio trienal (a cada três anos), com a adoção do campo de pousio, permitindo o descanso da área cultivável, além do uso do arado de metal e do estribo e a mudança dos arreios na montaria, instrumentos que favoreceram uma melhor aragem do solo, bem como uma melhor condição para o desempenho da tração pelo animal, pois com os arreios ajustados no dorso, a divisão de peso era mais eficiente, favorecendo uma melhor utilização do animal durante o trabalho.
A maioria dos feudos europeus era semelhante no que se refere aos aspectos físicos. Havia um castelo, residência do nobre e seus familiares – geralmente, a única casa de pedra de grandes proporções em todo o feudo. Com o aumento da ameaça de invasões, o século XI produziu os primeiros castelos medievais fortificados, construídos integralmente de pedra.
Próxima ao castelo, estava a igreja, estabelecendo a presença do poder papal no feudo. Os padres eram filhos de servos que foram entregues à Igreja para seguir a vida religiosa, comumente, tinham uma precária formação religiosa e intelectual.
Um pouco mais adiante, estava a aldeia, onde havia as cabanas das famílias de servos, bem como o forno e o moinho, pertencentes ao senhor, mas que poderiam ser utilizados desde que uma taxa especial fosse paga (banalidade).

Abadia de San Miniato al Monte, datada do século XI,  nas montanhas de Florença, Itália.
Crédito: Elias Feitosa


Não muito distante estava a área cultivável, chamada de domínios. Os servos deveriam trabalhar no manso senhorial como pagamento da corveia e, ainda, deveriam trabalhar no manso servil e entregar parte da produção, respeitando a taxa da talha. O manso servil era fracionado em lotes menores, chamados tenências, cada uma cuidada por uma família.Como os nobres poderiam possuir vários feudos, a administração só era possível com a presença local de um ministerial, vilão funcionário do senhor feudal e responsável por tudo, até a passagem deste. Ao contrário do que podemos imaginar, tal função não atraía o interesse dos moradores do feudo.

A Igreja Cristã sempre foi muito poderosa durante a predominância do feudalismo na Europa. O cristianismo era professado por todos os feudos. Mas é importante frisar que a reprodução desta religião misturava-se a uma infinidade de antigos costumes bárbaros.
A religião era utilizada como mecanismo de harmonização entre o poder dos nobres e a submissão forçada dos servos. Estes últimos deveriam acreditar que Deus teria estabelecido a função de cada um nessa vida e que não haveria mais diferenças sociais quando chegassem ao Paraíso. Por outro lado, os nobres acolhiam os servos em seus domínios partindo da ideia de que realizavam um ato divino: “uns rezam, outros lutam e os demais trabalham”.

A "Fortaleza de Deus": a igreja românica
Igreja da Sé Patriarcal de Lisboa - Séc. XII - Crédito: Elias Feitosa


A Igreja era a detinha o monopólio do saber, tornando-se a guardiã do conhecimento no intuito de preservar seus interesses e garantir sua posição como incontestável. Dessa forma, incentivou a produção cultural que favorecesse seus objetivos, principalmente a reafirmação de seus dogmas e a supremacia do papado.
Um dos principais centros de cultura durante a Alta Idade Média foram os mosteiros e abadias, como os mosteiros de Cluny e Císter, ambos localizados na França, os quais influenciaram  muitos outros. Nestes  locais realizavam-se estudos sobre a Bíblia, copia de textos em pergaminhos e livros como também sua decoração com iluminuras. Outro importante trabalho dos monges eram as traduções de textos dos pensadores da Antiguidade, como Aristóteles, Platão, Sócrates, entre outros.
A produção intelectual foi marcada inicialmente pela influência de Santo Agostinho (395-430), defensor da predestinação e das idéias de Platão, tendo originado o neoplatonismo (a fusão de valores cristãos com a doutrina platônica).

A arquitetura entre os séculos IX e XII , denominada posteriormente ,de românica representou o retrato daquele período, ou seja, de uma Europa rural, fechada e buscando proteção, pois as abadias, igrejas e mosteiros eram construídos como a "Fortaleza de Deus" , isto é, paredes espessas, janelas pequenas, ambiente escuro, seguindo os padrões de construção das antigas basílicas romanas, com a presença de arcos e colunas de inspiração greco-romana.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Bizâncio e o Islã - o Oriente como protagonista

BIZÂNCIO

Com a decadência do Império Romano do Ocidente, Constantinopla permaneceu como último reduto da cultura romana. Construída sobre a colônia grega chamada de Bizâncio, localizada em uma posição estratégica, entre a Ásia e a Europa, próxima aos estreitos de Bósforo e Dardanelos, essa cidade dominava as rotas marítimas entre o Mar Egeu e o Mar Negro, bem como as rotas terrestres daquela região. Foi esse conjunto de fatores que incentivou o imperador romano Constantino a reforma-la em 330, rebatizando-a e depois se tornou a capital do Império Oriental: “a Roma do Oriente”.
A proximidade com a Grécia fez que Constantinopla recebesse forte influência da cultura helenística, tornando o grego sua segunda língua. Ao longo dos séculos V e VI, a cidade foi um movimentado entreposto comercial de lã, linho, seda, objetos de cobre, ouro e prata vindos da África, Pérsia, China e Índia, conferindo a Constantinopla o cognome de “Porta do Oriente” ou "Porta Dourada".
As principais atividades econômicas eram: comércio, devido à localização geográfica, ponto de convergência de várias rotas de comércio e agricultura, praticada com o trabalho escravo, mas também com a produção de pequenos proprietários livres. Apesar de existir a possibilidade de tais atividades serem desenvolvidas por particulares, toda a economia era fortemente controlada pelo Estado, dando a esse setor uma característica marcadamente intervencionista.

Justiniano, coroado ao centro, acompanhado do bispo Maximianus.
Mosaico do séc. VI, Basílica de San Vitale, Ravena Itália.
Fonte: Wikipédia


Sob o governo de Justiniano (527-565), o Império Bizantino viveu a sua fase mais grandiosa. Ele estabeleceu a paz com o Império Persa e procurou reconstruir o antigo Império Romano do Ocidente, retomando as terras que estavam nas mãos dos bárbaros germânicos.
No plano interno, Justiniano mandou construir hospitais, novos muros para aumentar a segurança da cidade, e numerosas igrejas, dentre as quais se destaca Hagia Sophia, que significa Divina Sabedoria em grego, uma das  marcas da arquitetura e da arte bizantina.

Outras questões, estas de caráter religioso, movimentaram a população bizantina, que se envolvia em profundos debates entre os membros do clero oriental. As mais famosas foram o monofosismo (crença apenas na natureza divina de Cristo, negando sua natureza humana) que foi combatida e definitivamente negada com o concílio de Calcedônia em 451, quando foi estabelecido que Jesus é detentor das duas naturezas (divina e humana) e a questão iconoclasta, que abertamente defendia a destruição de imagens, provocando vários conflitos que destruíram templos e também provocaram muitas mortes e somente no II Concílio de Nicéia em 787 a resolução definitiva foi tomada: as imagens seriam utilizadas em caráter pedagógico e doutrinal, assumindo a dimensão de “Bíblia dos Pobres”, pois o importante é a mensagem que trazem e não o objeto religioso em si, mas isso não evitou que muitos fiéis se comportassem como idólatras ou preservassem superstições que vinham das tradições pagãs.

Também por ordem de Justiniano, os juristas bizantinos compilaram toda a legislação romana, bem como toda a jurisprudência dos seus tribunais em uma obra que ficou conhecida como Corpus Juris Civilis (Corpo do Direito Civil) ou Código Justiniano.
Com o crescimento do cristianismo, as igrejas das grandes cidades passaram a organizar-se em torno de um padre denominado Bispo. Com o passar do tempo, estes bispos começaram a estender seu poder muito além dos limites de suas cidades, rivalizando-se. Por volta do século V, os bispos de Jerusalém, Alexandria, Antioquia, Constantinopla e Roma firmaram-se como os mais poderosos entre os cristãos.
Outro grande feito de Justiniano foi a tentativa de reconquistar o Império do Ocidente, recuperando o litoral do norte da África, a península Itálica e a porção sul da península Ibérica. Justiniano também conseguiu conter os ataques na porção oriental do império, principalmente, dos persas sassânidas e dos búlgaros nos Balcãs.

A sustentação deste império, no entanto, foi mantida através de um grande exército e de uma extensa burocracia, sendo ambos sustentados pelos inúmeros impostos pagos pela população.
Por volta do século VII, com o advento do Império Islâmico, as cidades de Jerusalém, Alexandria e Antioquia foram dominadas pelos muçulmanos. O mundo cristão viu-se ameaçado e, como campos sólidos dessa religião, restaram tão somente os bispos de Constantinopla e Roma. Entretanto, a figura do papa incomodava os imperadores bizantinos, que se sentiam coagidos pelo líder cristão. Crescia, então, a força do cesaropapismo, ou seja, a submissão da Igreja ao Estado.

As divergências teológicas e doutrinais, a influência da cultura grega e a pressão exercida pelo poder imperial bizantino prolongaram os conflitos entre Roma e Constantinopla, os quais continuaram até 1054, quando ocorreu o Cisma do Oriente, que acabou dividindo o cristianismo da seguinte forma:

  • Igreja Católica Apostólica Romana - sob a hegemonia do Bispo de Roma, que assumiu os títulos de Papa e Sumo Pontífice, dominando a Europa Ocidental.
  • Igreja Católica Apostólica Ortodoxa  - sob a hegemonia do Bispo de Constantinopla, que assumiu o título de Patriarca , porém era claramente sem autonomia e submisso ao imperador.


O Auge sob Justiniano - Fonte: Wikipédia


Os muros da cidade garantiram a paz e a prosperidade durante um longo período. Mas os sucessores de Justiniano sequer tentaram assemelhar-se ao grande imperador, permitindo avanços de povos estrangeiros, fazendo com que no século XII, o Império tivesse menos da metade do seu período de expansão no séc. VI. Os muçulmanos, árabes de um lado e turcos de outro,  conquistaram grande parte dos territórios pertencentes ao Império Romano do Oriente. As Cruzadas conclamadas por Roma deveriam "ajudar" os irmãos cristãos do Oriente, não promoveram a recuperação de espaço e poder esperados, aliás, foram até contrárias, como o caso da IV Cruzada, que patrocinada por Veneza, invadiu e saqueou Constantinopla, impondo um período de dominação latina (governo favorável aos interesses venezianos) no Império Oriental (1204-1261). 

A longa agonia - Fonte: Wikipédia


Apesar da retomada do Império por Miguel VII Paleólogo, descendente da dinastia destronada pelos Cruzados, o vigor e força não voltaram a Constantinopla, que lentamente se enfraqueceu até sua queda definitiva em 1453, quando a "Roma do Oriente" foi invadida pelos turcos otomanos, liderados pelo sultão Mehmet II. Sob domínio muçulmano, a cidade de Constantinopla passou a chamar-se Istambul, capital do Império Turco.

A queda de Constantinopla - Fausto Zanaro, Istambul - Fonte: Wikipédia



Nesse momento de tensão, vários estudiosos da cultura clássica (greco-romana) abandonaram a capital bizantina. Muitos deles dirigiram-se para o Ocidente, na busca de refúgio. Um dos locais escolhidos foi a Península Itálica, onde a cultura da Antiguidade seria relida séculos depois, na forma de movimento renascentista.
            
O ISLÃ

Maomé em ascensão glorificado pelos anjos. Miniatura turca, c. 1539-43, British Library, Londres, Reino Unido da Grã-Bretanha. Fonte: Wikipédia.


O Islamismo surgiu primeiramente entre os árabes que habitavam a atual Arábia Saudita. Antes do advento de Maomé, esse povo vivia em tribos nômades, governadas por um patriarca, vagando de oásis em oásis conduzindo rebanhos de ovelhas e cabras. Eram politeístas e idólatras, e cada tribo adorava vários deuses e objetos sagrados.
A fome e as guerras por disputas políticas ou por motivos religiosos eram constantes. A expectativa de vida era bastante baixa e a poligamia surgia como forma de compensar os homens mortos nas guerras.
Em meio a essa realidade, nasceu Maomé, na cidade de Meca, no ano 570. Este homem trabalhou como caravaneiro, e tal atividade lhe permitiu conhecer a cidade de Jerusalém, onde entrou em contato com cristãos e judeus.
Quando tinha cerca de 40 anos, Maomé afirmou ter tido uma visão, na qual o anjo Gabriel, mensageiro de Allah, lhe transmitira as bases da religião islâmica. Os homens deveriam abandonar os cultos idólatras e reconhecer que Allah era o único e verdadeiro deus.
Tal proposta não foi bem aceita inicialmente. Em 622, Maomé foi perseguido pelos comerciantes da cidade de Meca, que temiam perder os lucros obtidos com as vendas de artigos ligados às religiões pagãs. O pregador foi obrigado a fugir para a cidade de Yatrib, que, posteriormente, recebeu o nome de Medina (Madina al Nabi) - “cidade do profeta”.
A fuga de Maomé de Meca para Medina passou posteriormente a ser o marco inicial do calendário muçulmano, recebendo o nome de Hégira. Em Medina, Maomé conseguiu reunir grande número de seguidores que poderiam formar uma espécie de exército com profundas motivações religiosas. As tropas comandadas pelo novo profeta invadiram a cidade de Meca, destruindo todos os símbolos pagãos, poupando apenas a Caaba (uma pedra negra que, segundo a lenda, fora enviada por Deus aos homens). Todos os que se opuseram à nova religião foram mortos.

Página do Alcorão, c. séc. XII, Al-Andaluz - Fonte: Wikipédia


Maomé reuniu os princípios de sua religião em um livro sagrado, denominado Alcorão. Nele, estão os Cinco Pilares do Islã:

  • Crença em Allah
  • Oração: cinco vezes ao dia, com a face voltada para Meca;
  • Purificação: jejuar durante o mês do Ramadã;
  • Caridade: ajudar aos pobres;
  • Peregrinação: visitar a cidade de Meca pelo menos uma vez na vida.


A expansão árabe: época de Maomé 622-32(em marrom); seguidores de Maomé 632-661(em laranja) e 661-750 (em amarelo). Fonte: Wikipédia


Existem outros costumes que também são observados pelos seguidores do Islã, como por exemplo, abster-se de álcool e de carne de porco.
O Islã tem entre seus conceitos importantes a Jihad, palavra árabe que significa “esforço, empenho” em relação à palavra de Allah, podendo no entanto, se converter numa ação militar de caráter defensivo ou ofensivo, dependendo do contexto e nesse caso, ganha a dimensão de “Guerra Santa”.
Aqueles que morressem na Guerra Santa teriam todos os seus pecados perdoados e direito ao Paraíso, onde haveria fartura de comida, bebida e mulheres. O fanatismo resultante dessa pregação levou os muçulmanos a conquistar um imenso império, tomando todo o Império Persa, bem como o Egito, a Palestina e a Síria, que estavam sob o domínio Bizantino.
De 661 a 750, os muçulmanos foram governados pela Dinastia Omíada, que transferiu sua capital para Damasco, na Síria. Essa dinastia conquistou a Índia, o norte da África e a Península Ibérica. Tentou tomar também a Gália, em poder do Reino dos Francos, mas foram derrotados na Batalha de Poitiers (732), sendo obrigados a recuar.
A Dinastia Abássida (750 - 1258) não conseguiu manter a unidade dos islâmicos e assistiu à fragmentação do Império em numerosos Califados independentes. Também nessa época, os abássidas sofreram novas derrotas, como as invasões mongóis e turcas a leste e a vitória dos cristãos na Guerra da Reconquista da Península Ibérica.

Assim como qualquer outra religião, o islamismo não suportou o próprio crescimento, o que provocou a divisão entre os seguidores. Existem dois grupos que dividem o islamismo mundialmente:

·       Sunitas: surgiram após a morte de Maomé. Além de seguirem os ensinamentos de Alcorão, aceitam os ensinamentos contidos no Suna (significa costume), espécie de biografia de Maomé, que mescla eventos da vida do Profeta aos costumes do povo árabe. Defendem a separação entre o poder laico e o religioso. Para eles, os chefes de Estado não precisam ser sacerdotes, considerados infalíveis, mas reunir sólidas virtudes. Representam a grande maioria dos muçulmanos até hoje.
·       Xiitas: acreditam que os chefes de Estado deveriam ser da linhagem de Maomé, isto é, descendentes de Fátima (filha de Maomé) e de Ali (genro). Portanto, a palavra xiita significa shi’ at’ Ali: partidários de Ali. O governante deve ser também um guia espiritual (imã). Para os xiitas, o Corão é a única fonte de ensinamento da verdade.

Nos povos islâmicos, a grande atividade econômica era o comércio, já bastante característico das populações de origem árabe. Porém, também as manufaturas e a agricultura tiveram extraordinário desenvolvimento .
A influência árabe foi marcante dentro da Europa Ocidental em virtude da grande sofisticação desta civilização, responsável pela introdução do cultivo da cana-de-açúcar, laranja, algodão e arroz; pelas técnicas de fabricação do vidro e do aço ( técnica vinda de Damasco e instalada na cidade de Toledo).
Do ponto de vista intelectual, os árabes tinham profundos conhecimentos em Medicina, Física, Astronomia, Matemática (desenvolvimento da aritmética e utilização dos algarismos hindus, depois denominados arábicos) e Química. Ademais, os árabes já possuíam várias universidades, destacando-se nas cidades de Bagdá, Cairo, Isfahan e Córdoba e podiam estudar Medicina, Teologia, Direito, Matemática e Filosofia.

"Fonte dos Doze Leões, séc. XIV,  pátio do Palácio Alhambra, Granada, Espanha.
Crédito: Elias Feitosa

Na cultura, os árabes desenvolveram grandes conhecimentos em matemática, astronomia, medicina (destacando-se o persa Ibn Sina, conhecido no Ocidente como Avicena) e filosofia, com o médico e filósofo Ibn Roshd (Averróes), tradutor e comentarista de Aristóteles. Na literatura, destacam-se obras conhecidíssimas até hoje, como As Mil e Uma Noites , tradição oral, posteriormente registrada em vários manuscritos e Rubayat, versos do poeta persa Omar Khayan.

A escultura e a pintura figurativas receberam pouca atenção, uma vez que eram interpretadas como produção de caráter idólatra. Em relação a escultura e arquitetura, os árabes construíram mesquitas grandiosas(como a  de Córdova), ricamente decoradas, utilizando a técnica dos arabescos(cúpulas e rendilhados esculpidos em pedra) e faianças, como também de palácios, destacando-se o Palácio Alhambra em Granada. Percebemos que a tradição figurativa não teve um grande desenvolvimento na cultura islâmica em virtude da condenação às imagens existentes no Islã, sendo predominante a utilização de motivos geométricos ou abstratos, associados à caligrafia árabe, denominados como arabescos.