As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de setembro

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Renascimento



O conceito de Renascimento vem da palavra italiana renascitá, pois se acreditava que o período anterior, a Idade Média, fora uma "espessa e longa noite gótica" imersa nas trevas e desprovida de cultura. Para os homens deste período, a "verdadeira" cultura encontrava-se na Antigüidade, a qual foi banida e em seu lugar a Igreja estabeleceu o teocentrismo. O saber, portanto, encontrava-se nas artes e nos escritos clássicos.
Dessa forma, os artistas e intelectuais buscavam uma concepção de cultura diferente da medieval e que tinha suas raízes no mundo greco-romano. A proposta central era afastar-se do teocentrismo, buscando o antropocentrismo, ou seja, o homem como medida de todas as coisas.
Ao pensarmos o conceito de Renascimento, a questão mais importante é pensa-lo como uma releitura de um pensamento que aparentemente teria desaparecido e seria recuperado pelos estudiosos. Tal idéia tinha força, porque os homens da época entendiam por arte os modelos da cultura clássica, os quais desapareceram durante o medievo e portanto precisavam ser recuperados, segundo Giorgio Vasari (1511-1574) e Leon Battista Alberti (1404-1472), ambos artistas renascentistas e importantes personagens na criação dos conceitos renascimento e homem universal (l’uomo universale), respectivamente.
Apesar desta repulsa à Idade Média, é importante perceber que as transformações sofridas durante o Renascimento foram resultados de um processo de continuidade que perpassou o medievo e atingiu seu esplendor no momento seguinte, portanto, não se pode considerar a Renascença como uma ruptura total, mas a mudança de largo processo de experimentação e aprimoramento. 
A partir da reabertura do Mediterrâneo após as Cruzadas, a Europa assistiu uma intensa transformação das relações sociais e do modo de vida, pois as cidades voltaram a crescer e se tornaram o centro das atividades comerciais através da atuação dos burgueses. A burguesia era um grupo oriundo da ordem dos trabalhadores e portanto, não possuía a legitimidade como a nobreza ou o clero, os quais controlavam a vida dos demais .
No que diz respeito a prosperidade italiana, esta era relacionada com o monopólio do comércio de especiarias com o Oriente, tendo se destacado as cidades de Gênova, Veneza, Florença e Pisa. Estas cidades controlavam a venda de especiarias dentro da Europa e também a sua compra com os árabes e turcos no Mediterrâneo.




ITÁLIA: O "BERÇO DO RENASCIMENTO"

O Renascimento tem como seu "berço" a Península Itálica devido a um conjunto de fatores que favoreceram sua formação. Em primeiro lugar, o fato de ter sido o centro do Império Romano e guardar milhares de ruínas e resquícios da cultura greco-romana, como templos, estátuas, prédios públicos e dessa forma, os italianos tinham uma convivência muito próxima com seu "glorioso passado". Em segundo lugar, o enriquecimento proveniente do comércio mediterrânico que permitiu aos burgueses o investimento nas artes, sendo denominados mecenas, com o objetivo de legitimar sua posição na sociedade e buscar uma visão de mundo que se relacionasse com seu modo de vida, rompendo portanto, coma visão de mundo medieval, na qual eram simples trabalhadores inferiorizados pela nobreza e clero. O mecenato, no entanto, não ficou restrito aos burgueses, pois nobres, papas e príncipes também o fizeram.
Um fator muito importante foi a sobrevivência de muitos textos clássicos através da sua conservação em bibliotecas de mosteiros e abadias que foram copiados e traduzidos por monges copistas, do intercâmbio entre sábios bizantinos e também pela ação dos árabes na tradução e divulgação de vários textos, como por exemplo o estudo de Aristóteles realizado por Ibn Rushd (chamado no Ocidente de Averróes) em Córdova durante o domínio árabe do sul da penísnsula Ibérica.
A sobrevivência dos elementos da cultura clássica pode ser relacionado com sua redescoberta a partir do interesse dos intelectuais pelos studia humanitatis (estudos humanos que incluíam filosofia, poesia, história, matemática , eloquência e o perfeito domínio do latim e do grego) , pois não se buscou a mera repetição dos modelos antigos, mas sua reinterpretação à luz de sua época e dessa forma constituiu-se o humanismo
Neste contexto, destaca-se a obra de Dante Alighieri (1265-1321) A Divina Comédia, poema épico composto por três partes (Purgatório, Inferno e Paraíso), escrito em tercetos com versos decassílabos, totalizando 100 cantos e totalmente escrito em dialeto toscano, o qual futuramente daria origem a língua italiana. Apesar de inovadora, a Divina Comédia ainda trazia vários elementos da cultura e visão de mundo medieval, representados pela hierarquia, linearidade e imobilidade, tendo porém, uma perspectiva que ressalta o valor humano, pois a passagem de Dante pelo Inferno e pelo Purgatório não deturpa seu caráter, ao contrário, reafirma-o.
           

O QUE LEVOU AO RENASCIMENTO
           
Uma série de fatores proporcionou a ocorrência do Renascimento a partir da Baixa Idade Média. Inicialmente, houve o renascimento comercial, isto é, a generalização do comércio pela Europa, fenômeno que se tornou irreversível desde a abertura do Mediterrâneo. Isso tudo foi acompanhado pelo renascimento urbano, que implicou o surgimento de novas cidades e uma série de funções para elas; a cultura renascentista foi essencialmente urbana.
Ocorreu também o surgimento e a ascensão dos mercadores, ligados principalmente ao comércio marítimo. Para que isso acontecesse, foi necessária a centralização do poder em algumas partes da Europa, o que favoreceu a redução do poder da Igreja e das ideias que condenavam o comércio de maneira geral. Tais mercadores, enriquecidos, passaram a viver em castelos tentando igualar-se à nobreza de sangue. Passaram, então, a praticar o mecenato, ou seja, a abrigar, financiar e incentivar jovens artistas, tornando-se protetores das artes. Estes jovens artistas entraram em contato com a herança do Império Romano presente em esculturas, pinturas, obras arquitetônicas e literárias espalhadas por toda a Península Itálica.
Aos burgueses interessava duplamente financiar os artistas da época, pois, ao mesmo tempo em que ascendiam socialmente dentro da Itália, divulgavam seus nomes e sua grandeza até mesmo nos países distantes.

O RENASCIMENTO E O CONTEXTO HISTÓRICO

"A Península Itálica em 1494" Fonte: Wikipédia


Durante a Baixa Idade Média ocorreu o renascimento comercial e urbano, o qual favoreceu em especial algumas regiões da Europa como a Flandres (região que hoje compreende Bélgica e Holanda) e o norte da Itália em virtude da intensa atividade comercial. Neste momento , começou o fortalecimento do poder monárquico em detrimento da nobreza, mas tanto na Itália não se formou uma monarquia nacional centralizada, uma vez que constituíam regiões dominadas por pequenos Estados sob o controle da burguesia (as Repúblicas de Florença,Gênova, Lucca, Siena e Veneza);da nobreza (os Ducados de Milão, Módena, Ferrara, Savóia) e da Igreja (região central da Itália). A região de Flandres era uma possessão dos Duques de Borgonha (passando no final do século XV para o domínio dos Habsburgo) e era dotada também de intensa atividade comercial, tendo porém uma burguesia desinteressada em nobilitar-se como era o caso da italiana, valorizando portanto, sua posição de mercadores e comerciantes.
O enriquecimento das cidades italianas fez com que as famílias burguesas que controlassem o governo das comunas a partir do podestá (líder político) que tinha sob seu controle um exército de mercenários liderados pelo condottieri (chefe de armas ou capitão de guerra). Em Veneza , porém, havia a figura do doge (chefe da República) apoiado pelo Senado e pelo temível Conselho dos Dez (órgão sigiloso, com poderes de vida e morte sobre os cidadãos, composto por membros da aristocracia veneziana).
Destacaram-se como importantes membros da burguesia italiana os Médici em Florença, os Baglioni em Perúgia e os Bentivoglio em Bolonha; em algumas cidades os próprios condottieri controlavam o poder como os Sforza em Milão.



A ESTÉTICA RENASCENTISTA

A estética renascentista propôs o retorno aos valores clássicos: arte mimética (a imitação da realidade com o objetivo de buscar a perfeição, segundo Aristóteles, forjando a idéia de respeitar o modelo adotado e dentro dele a busca da superação, com o auxílio da criatividade); a harmonia, a sobriedade (contenção dos sentimentos) e além desta recuperação da Antigüidade, o tema central foi o antropocentrismo (o homem como medida de todas as coisas) em detrimento do teocentrismo, favorecendo o surgimento de uma forma de cultura laica (não religiosa), a qual valorizava o individualismo. 
Quanto à temática, não foram abandonados os temas religiosos, como a vida de santos e as passagens da Bíblia, pois o que ocorreu neste período é a representação mais humanizada da divindade. Outro tema muito recorrente foi a mitologia greco-romana, pois os mitos foram resgatados e ganharam uma roupagem adequada ao gosto burguês.
A produção artística do Renascimento pode ser vista como a construção do imaginário burguês, pois a burguesia buscava a legitimidade e auto-afirmação, querendo romper com a Idade Média e assim livrar do estigma da servidão, afinal, os burgueses saíram deste estamento para depois morar nos burgos e viver do comércio.

AS INOVAÇÕES TÉCNICAS

Durante o Renascimento surgem inúmeras inovações nas artes plásticas: a perspectiva (a representação dos objetos, lidando com os conceitos de  espaço e volume, enfocados a partir de um pondo de vista (ponto de fuga), o que permitiu ampliar o espaço, trabalhando a profundidade e no entanto, delimita o olhar do observador ao ponto estabelecido pelo pintor , também chamado de "técnica do ponto fixo" . Um dos primeiros a utilizar esta técnica foi Giotto e posteriormente, Brunelleschi estabelece uma relação matemática proporcional na representação das imagens, também chamada de perspectiva geométrica; a pintura a óleo, importada da Flandres que foi difundida ao longo do Quattrocento , permitiu o trabalho mais detalhista por parte do artista, possibilitando-lhe o aprimoramento da técnica.


FASES DO RENASCIMENTO ITALIANO


Trecento (1300-1399): É a fase de transição entre a estética medieval e a renascentista. Destacam-se neste período os pintores: Giotto (afrescos da Basílica de Assis), Duccio, Cimabue, Simone Martini e Ambrogio Lorenzetti. Na literatura temos como autores importantes Francesco Petrarca (1304-1374), autor de Odes a Laura e da epopéia De África e Giovanni Boccaccio (1313-1375), autor de Decameron. A riqueza da produção literária deste período estava na utilização dos dialetos, o toscano principalmente, colaborando para a formação da língua italiana.


Duccio di Buoninsegna 1308-11 Museo dell'Opera Metropolitano del Duomo, Siena - Itália - Fonte: Wikipédia


Simone Martini e Lippo Memmi, c.1333 Galleria degli Ufizzi, Florença - Itália. Fonte: Wikipédia



Giotto de Bondone, c.1304 Cappella degli Scrovegni all'Arena, Padua - Itália. Fonte: Wikipédia




Quattrocento (1400-1499): Nesta fase houver um maior desenvolvimento das artes plásticas que na literatura, pois os escritores voltaram a apenas imitar a Antigüidade e assim não continuaram a escrever nos dialetos e dessa forma usavam o grego e o latim. O centro da produção renascentista é Florença. Na pintura encontramos o destaque de Masaccio (1401-1428), autor de A Trindade, Virgem e o Menino com os anjos; Sandro Botticelli( 1447-1510), autor de O nascimento de Vênus, A alegoria da Primavera entre outras; Fra Angelico, autor da Anunciação, Cenas da vida de S. Estevão.
Um dos grandes nomes do Quattrocento é Leonardo da Vinci (1452-1519), homem de múltiplas habilidades: pintor, arquiteto, inventor, matemático e filósofo, portanto, o exemplo de "homem universal". De sua vasta obra destacam-se: A virgem dos rochedos, La Gioconda (Mona Lisa), projetos arquitetônicos, tratados de anatomia, pintura e vários inventos. Leonardo representa a transição do Quattrocento para o Cinquecento.

Masaccio, Igreja de Santa Maria Novella, c.1426-28, Florença - Itália. Fonte: Wikipédia


Fra Angelico, 1438, Museo de San Marco, Florença - Itália. Fonte: Wikipédia


Piero della Francesca, c.1472, Pinacoteca di Brera, Milão - Itália.Fonte: Wikipédia




Sandro Botticelli, c. 1487, Galleria degli Ufizzi, Florença - Itália. Fonte: Wikipédia


Leonardo Da Vinci, c. 1483-86, Museu do Louvre, Paris - França.Fonte: Wikipédia


Leonardo Da Vinci, c.1495-98, Convento de Santa Maria delle Grazie, Milão - Itália.Fonte: Wikipédia



Michelangelo Buonarotti, c.1498-99. Basílica de São Pedro, Vaticano. Fonte: Wikipédia




Cinquecento (1500-1550): Nesta fase a capital do Renascimento passa a ser a Roma papal, graças ao mecenato de papas como Alexandre VI, Júlio II e Leão X e. Na literatura, ainda em Florença, destaca-se a publicação de "O Príncipe" , de Nicolau Maquiavel ; de Baltazar Castiglione, "O Cortesão"; de Ariosto, "Orlando Furioso". Nas artes plásticas destacam-se Rafael Sanzio, pintor famoso por suas Madonas, A Escola de Atenas e Michelangelo Buonarroti, autor das esculturas: David, Pietá, Moisés; da planta da cúpula da Basílica de São Pedro e dos afrescos da Capela Sistina.


Michelangelo Buonarotti, c.1501-1504, Galleria dell'Accademia, Florença - Itália. Fonte: Wikipédia


Leonardo da Vinci, c.1503-06, Museu do Louvre, Paris - França. Fonte: Wikipédia


Michelangelo Buonarotti, c.1508-10, Capella Sistina, Vaticano. Fonte: Wikipédia



Rafael Sanzio, c.1510-11, Vaticano. Fonte: Wikipédia

Rafael Sanzio, c. 1512, Gemäldegalerie Alter Meister, Dresden - Alemanha. Fonte: Wikipédia


O RENASCIMENTO ALÉM DA ITÁLIA

O Renascimento teve como centro a Península Itálica e gradativamente se espalhou para o restante da Europa. Depois da Itália, o centro mais importante foi a região de Flandres, pois também foi uma região de forte atividade comercial dotada de uma burguesia com grande dinamismo. Na literatura destacou-se Erasmo de Roterdam, autor de "O Elogio da Loucura".
Na pintura, temos Jan Van Eick com o quadro "O casal Arnolfini"; Hieronymus Bosch, autor de "O jardim das delícias", "A pedra da Loucura", O trinfo da Morte"; Pieter Brueghel, autor de "O massacre do Inocentes", "Torre de Babel", "A morte de Ícaro"; Rogier van der Weyden, autor de "A deposição da Cruz".
Em outros países o Renascimento foi tardio em relação à Itália, tendo menor expressão: Portugal recebeu influências com o retorno de Sá de Miranda da Itália em 1527, trazendo o dolce stil nuovo (verso decassílabo e soneto) e mais tardiamente com Luís Vaz de Camões graças à publicação de "Os Lusíadas" em 1572; na Espanha o maior expoente foi Miguel de Cervantes com sua obra "D. Quixote de la Mancha"; na França, o principal nome é François Rabelais, autor de "Gargântua e Pantagruel"; na Grã-Bretanha , destacaram-se William Shakespeare, dramaturgo, autor de "Romeu e Julieta", "Macbeth", "Hamlet", "Rei Lear" entre outras peças e Thomas Morus com "Utopia".



Jan Van Eyck, c.1434, National Gallery, Londres - Reino Unido. Fonte: Wikipédia


Rogier van der Weyden, c.1435, Museo del Prado, Madrid - Espanha. Fonte: Wikipédia


Hieronymus Bosch, c. 1500, Museo del Prado, Madrid - Espanha. Fonte: Wikipédia


Albrecht Dürer, c. 1500, Alte Pinakothek, Munique - Alemanha. Fonte: Wikipédia




Mathias Grünewald, c.1512-16, Musée d'Unterlinden, Colmar - França. Fonte: Wikipédia



Pieter Bruegel, o Velho, c.1562, Museo del Prado, Madrid - Espanha.Fonte: Wikipédia



O Renascimento e as Ciências

Durante a Idade Média, um dos principais temas defendidos pela Igreja era o geocentrismo, ou seja, a Terra era estática e os planetas giravam ao seu redor. Tal pensamento começou a ser questionado pelo astrônomo polonês Nicolau Copérnico(1473-1543), defensor do Heliocentrismo (a Terra e os planetas giram em torno do Sol que é estático). Esta teoria foi levada adiante por Galileu Galilei(1564-1642), físico florentino, o qual desafiou a Igreja defendendo tal tese e foi obrigado a retratar-se publicamente. Mais tarde os estudos de Johannes Kepler (1571-1630) acabaram por confirmar o heliocentrismo.
Na medicina destacaram-se Andrea Vesalius (1514-1564) na área da anatomia; Miguel de Servet (1511-1553), médico espanhol responsável pela descoberta da circulação do sangue  ou circulação pulmonar  pelas artérias.




Frontispício de De Humani Corporis Fabrica, c.1543. Fonte: Wikipédia



Imagem da página 178 de De Humani Corporis Fabrica, c.1543. Fonte: Wikipédia


Apresentamos uma série de transformações culturais, políticas e socioeconômicas que envolveram o período dos séculos XIV ao XVI, sendo muito mais pertinente a compreensão do Renascimento como um processo histórico do que  enfatizar a memorização automática de artistas e obras.

Destacamos como ponto central a mudança de paradigma (modelo) que a Europa ocidental passou: a Igreja e o clero perderam não só o monopólio sobre o conhecimento, mas também deixaram de ser a única fonte de explicação para todas as coisas, já que o questionamento, observação, investigação e análise dos dados ali coletados formaram um caminho (método) para levantar hipóteses e teorias sobre a explicação dos fenômenos que envolvem o homem e o Universo.

Ao tirar o foco da exclusiva orientação divina (teocentrismo) e aponta-lo em direção ao homem (antropocentrismo), o Renascimento abriu caminho para a construção do mundo que chamamos de moderno e criou um espaço de tensão aos segmentos dominantes, obrigando-os a reagir com força para não perderem mais espaço do que já tinha ocorrido, porém, foi um caminho sem volta, apesar de toda repressão aplicada. Mas isto já é assunto para um outra postagem!


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Curso de História da Arte 2017




O Cursinho da Poli promove um curso de História da Arte, que será ministrado pelo professor Elias Feitosa. Os encontros vão acontecer aos sábados no período de 9/9 a 20/10, das 12h30 às 13h50, na unidade Lapa.
A atividade vai trabalhar com análise de imagens e contexto da produção, apresentando conceitos e características das obras de arte. Além de visitas monitoradas a museus(MASP, Pinacoteca e MAC) e ao Centro Histórico de SP.
O curso dá a oportunidade para o estudante assumir reflexões interdisciplinares importantes para Artes e Linguagens e para outras áreas do conhecimento. Além de desenvolver linhas de argumentação para a redação. O objetivo é preparar os candidatos de Artes Visuais para as provas específicas da carreira - com ênfase no Enem, Fuvest, Unicamp e Unesp - que envolvem questões dissertativas sobre conteúdos da História da Arte.
Voltado para alunos e não alunos, o investimento é de R$ 70,00, com possibilidades de parcelamento.
As inscrições podem ser feitas na Secretaria de Alunos. Vagas limitadas!
Serviço:
Data: 09 de setembro a 20 de outubro (aos sábados).
Horário: das 12h30 às 13h50
Local:  Unidade Lapa: Av. Ermano Marchetti, 576 – Água Branca, São Paulo (SP)
Mais informações: (11) 2145-7654

sábado, 8 de julho de 2017

Racismo e violência: a trilha da Ku Klux Klan no filme "Mississipi em chamas"




O filme de Alan Parker apresenta as sutilezas de uma sociedade racista, em que negros vivem sujeitos a uma série de atrocidades, como por exemplo, tendo direito a voto, mas não sendo esclarecidos ou estimulados a se organizarem para exigirem seus direitos. Neste ambiente de segregação legitimada pelas leis locais, evitam contribuir com os investigadores que se propõem a quebrar o status quo, do qual faz parte o poder local (xerife, juiz, prefeito, ), muitos deles integrantes da Ku Klux Klan, grupo extremista branco que defendia a supremacia branca que se sustentava no ideal "WASP": White, Anglo-Saxon and Protestant, ou “Branca, Anglo-Saxã e Protestante, acompanhado de métodos terroristas.
Deve-se perceber como o discurso discriminatório, que visualiza os negros como seres "inferiores", indignos de qualquer respeito à dignidade humana, manifestava-se arraigado na população branca como um todo, como dissera a personagem Mrs. Pell ao agente Anderson: "o ódio lhes é ensinado cotidianamente. Gênesis 9:27". A citação desta passagem bíblica é uma alusão ao momento que Noé amaldiçoa e expulsa seu filho Cam, cujos descendentes, representando a África seriam escravos dos descendentes de seus irmãos Sem (o "pai" dos asiáticos) e Jafé (quem "originou" os europeus) numa peculiar interpretação que naturalizava e justificava a escravidão. 
O ambiente de opressão e terror pode ser identificado quando perseguem um jovem negro pelo simples fato de ter conversado com os agentes do FBI ou mesmo quando seu irmão mais novo tenta romper o silêncio mantido sob ameaças, e é desautorizado pelo pai, que era pastor, que temia a vingança dos membros da Klan. 
A chegada dos investigadores do FBI pode ser entendida como um exemplo da tensão política daquele contexto, pois eram agentes desestabilizadores e estimuladores da mudança de paradigma, um embate claro entre o Governo Federal e os interesses da política local, onde a segregação era preservada num ambiente de tensão e terror, que desestimulava as queixas e qualquer tipo de intervenção – lembrando que as leis de segregação tinham sido construídas dentro do amparo do federalismo e deveriam servir para reafirmar os "valores do Sul", derrotados em 1865.
No entanto, entre os próprios agentes federais havia uma significativa tensão: ordem versus realidade, respectivamente, os agentes Ward e Anderson: o primeiro representa o cumprimento estrito do regulamento para a aplicação da justiça quase como se fosse um cavaleiro medieval, enquanto o segundo, já se coloca com a vivência de ser um sulista de uma pequena cidade do Mississipi, que também fora xerife, conhecendo os meandros daquele universo cultural repleto de segredos. Outra discussão posta em evidência é o fato de serem policiais brancos que vão salvar os negros, os quais estariam aparentemente num estado de passividade.
Se levantarmos a hipótese de que, naquele contexto tenso, seria muito complicado destacar agentes negros para resolver um crime que envolvia um pesado sentimento de ódio numa região historicamente racista, pode-se pensar que a dupla de agentes não estaria ali apenas como um dado do roteiro que reiteraria o racismo, mas como parte de uma estratégia plausível para uma questão tão delicada. No entanto, cabe destacar que os métodos de investigação inicialmente adotados pelos agentes federais, não conseguiram  ser eficientes e aí, a voz de Anderson, com sua vivência e experiência de "nativo sulista" acompanhada da ausência de escrúpulos provocou a virada para o desfecho da investigação com a anuência do agente Ward e assim, a ordem teve que ceder um pouco de espaço para a desordem e nessa composição, os resultados foram proveitosos.
A narrativa do filme percorre um ciclo de grandes tensões e dores, porém apresenta uma fotografia e sonoridade de grande arrebatamento ao longo de diferentes tomadas, com destaque ao spiritual, gênero que nasceu com as cantigas de escravos nas lavouras, se tornou referência para o louvor cristão das igrejas dos negros e concomitantemente, base do soul e do blues e posteriormente, da batida do rock in roll nas décadas de 1950-60.
Vale destacar a poética circunstância que ata a primeira e a última cena do filme: no início do filme, um branco e um negro tomam água em bebedouros separados e ao fim do filme, brancos e negros rezam juntos numa igreja que fora destruída e aí talvez esteja a chave para o início da solução do problema do racismo: somos todos seres humanos, sem distinção!

Os lichamentos











As raízes da tensão "Sul X Norte"


O embate político e econômico entre norte e sul recebeu um destaque maior com a eleição dos representantes no Congresso para as novas áreas, pois o sul pretendia expandir a escravidão para o oeste, enquanto o norte pretendia ampliar as regiões com trabalho livre. A solução seria alcançada quando um dos grupos políticos obtivesse o controle do governo e a maioria no Congresso com seu partido.
As eleições de 1860 foram vencidas pelo republicano Abraham Lincoln, fato que representou uma ameaça para os interesses do sul. Devido a isso, 11 estados escravocratas do sul romperam com o governo de Lincoln e declararam independência, criando a República dos Estados Confederados da América, tendo a cidade de Richmond (Virgínia) como capital e Jefferson Davis como presidente.
O conflito contou inicialmente com vitórias dos confederados que se encontravam sob a liderança do general Lee, mas o norte, cujas forças eram lideradas pelo general Grant (que depois foi presidente dos EUA entre 1869 e 1877), controlava a indústria bélica e também a maior parte da Marinha, de modo que a União impôs um bloqueio aos portos confederados, dificultando a exportação de seus produtos (algodão e tabaco) e cortando seu abastecimento de material bélico e outros gêneros pelo exterior.


Bandeira dos Confederados


As dificuldades de abastecimento e a superioridade do exército da União reverteram a guerra. Pensando em encerrar o conflito o quanto antes, Lincoln aboliu a escravidão em todo o país em 1863(assinou um decreto de acordo com seus poderes extraordinários durante o contexto da guerra), mas a guerra só terminou em 1865, quando as tropas confederadas capitulavam em Appomattox. Os resultados foram a devastação das terras do sul, 600 000 mortos e a consolidação da hegemonia do norte sobre todo o país. Em janeiro de 1865, o Congresso dos EUA aprovou com uma margem de apenas 02 votos a 13ª Emenda à Constituição, que extinguiu em definitivo a escravidão em todo o país. No entanto, Lincoln não pôde comemorar a vitória, pois foi assassinado pelo sulista John Wilkes Booth quando assistia a uma peça no Ford Theater, em Washington, em 14 de abril de 1865, tornando-se uma espécie de mártir da defesa da nação e tendo posteriormente recebido um memorial em Washington, inaugurado em 1922. 

A resistência silenciosa e radical



Apesar da derrota, o ideal racista não desapareceu. Organizou-se a Ku Klux Klan (derivado do grego kuklos, que significa círculo, e assim temos “o clã do círculo”, cujos integrantes usavam uma túnica com o desenho da cruz celta, uma cruz dentro de um círculoum movimento formado por ex-oficiais confederados e outros que não aceitavam a integração dos negros à sociedade estadunidense, que se valeu de todo tipo de crime (espancamento, estupro, assassinato, incêndios e sequestros) para instaurar um clima de terror entre negros, mestiços e simpatizantes da causa negra.

A herança do ideal dos Confederados


No período de reconstrução do país, intensificou-se a industrialização, favorecendo a continuidade da expansão territorial graças também ao grande contingente de imigrantes. Em pouco tempo, a extensão do parque industrial, fruto da ênfase do governo na ampliação das fábricas e na exploração dos diferentes recursos naturais, bem como a implantação de ferrovias e portos abriram caminho para os EUA se consolidarem como potência regional e, depois de 1914, mundial, ocupando gradativamente o lugar da antiga metrópole, a Grã-Bretanha.
Os negros precisaram esperar mais um século para ter igualdade de direitos com os brancos, e não foi um processo pacífico. Nos estados sulistas, havia um violento sistema de segregação racial: negros não podiam frequentar os mesmos lugares que os brancos (escolas, transporte coletivo, praias, banheiros etc.) e essa situação só começou a ser combatida nos governos de John Fitzgerald Kennedy (1961-1963) e Lyndon Johnson (1963-1968), sob uma intensa pressão do movimento negro, que viu assassinados líderes como Malcom X (1965) e Martin Luther King (1968), respectivamente à esquerda e à direita.


A luta pela igualdade avançou em diferentes frentes, inclusive com a movimentação que quase se direcionou ao enfrentamento armado com os Black Pathers em grandes centros urbanos como Chicago e Nova York. A agenda altamente politizada não só pela causa dos negros, mas pelas relações com o marxismo levaram à perseguição por parte do FBI, entre 1968 e 1980, provocando sua gradativa desmobilização.
O protesto político nas Olimpíadas de 1968, no México: Tommie Smith e John Carlos, medalhistas dos EUA, celebrando com o sinal do "punho cerrado", a marca dos Black Panthers.


A filósofa Angela Davis: intelectual integrante dos Black Panthers e do Partido Comunista dos EUA, foi perseguida e presa em 1970, hoje atua como uma das mais importantes referências do pensamento feminista contemporâneo.


A ascensão de significativa relevância só se deu ao final do governo Bush(2001-2008) foi marcado pela tentativa de superar a crise financeira e social, buscando conservar os republicanos no poder com o candidato John McCain, mas o candidato democrata Barack Obama venceu as eleições de 2009 representando um novo momento da história dos EUA: foi o primeiro afro-descendente a ser eleito presidente da República e sua perspectiva foi restabelecer o equilíbrio social e econômico dos EUA.
Mesmo depois de tantas lutas e dificuldades, a sociedade estadunidense ainda convive com o racismo. Mesmo estando hoje atenuado, ele subjaz aos ditos “valores nacionais”, que procuram excluir também os imigrantes – ilegais ou legais – de várias origens que vivem no país. Ao mesmo tempo, os EUA ainda continuam querendo ser reconhecidos pelo mundo como “a terra das oportunidades”, fato que pode ser rompido em graus bastante profundos com a eleição do republicano Donald Trump(2017-2020) e as projeções que se colocam no horizonte infelizmente não apontam para um progresso, porém, nos cabe acompanhar com bastante atenção.

Sugestão do Gabinete:

Mississipi em chamas. Direção Alan Parker, 1989, 128 min:


Marcha das Mulheres 2017