As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de novembro

domingo, 8 de janeiro de 2017

Fuvest 2017- Segunda fase - A menoridade segundo Kant

Série "Los caprichos" - "O sono da razão produz monstros" 1797-99
Museo del Prado - Madrid, Espanha.


O homem saiu de sua menoridade ? Com esta pergunta, acompanhada de um texto de orientação e de um excerto de Immanuel Kant, o vestibular da Fuvest colocava as diretrizes para a sua redação. Pode ser que para alguns o tema fosse estranho ou distante da realidade do estudante do Ensino Médio no Brasil, porém, o caminho é outro.
O desenvolvimento da proposta presumia duas situações: a compreensão da relação que Kant estava ali fazendo entre os conceitos de menoridade e maioridade, cruzando-os com o contexto da produção, da sociedade e da visão de mundo que Kant apresentava.
Aufklärung é a palavra alemã usada por Kant para definir o "Esclarecimento" que pode também ser conhecido como "Ilustração" ou "Iluminismo" e daí a importância atribuída ao uso da Razão e quanto esta poderia transformar o modo de pensar e de viver dos homens, pois segundo Kant a emancipação da ignorância, das crenças, do dogmatismo poderia tirar o ser humano desta condição de menoridade, portanto, tutelado e dependente, sem autonomia e no muito das vezes acostumado a tal situação: o indivíduo não pensa por si porque tem quem pense por ele.
Para Kant, as luzes da Razão trariam condições para a independência do ser humano, pois usando o conhecimento, refletindo conscientemente, a ruptura desse aprisionamento seria um processo sem volta.
Já estamos no século XXI, Kant escreveu este texto em 1784 e pensando neste intervalo, na trajetória humana e sua história, voltamos a pergunta inicial: saímos da menoridade?
A atualidade da questão é imensa e intensa. Apesar de todas as inovações tecnológicas acumuladas e criadas até então, do conhecimento em diferentes campos e avanços obtidos justamente porque conseguimos produzir e multiplicar conhecimento, levando em conta a proposição de Kant, infelizmente, estamos longe da maioridade.
A chamada "Era da Informação" que se desenvolveu e se consolidou com a Informática e o estabelecimento da Internet que poderia fornecer um diferencial significativo na relação do homem com o conhecimento numa escala nunca antes vista, pensando-se acesso, rapidez e circulação de informações, também é responsável pela proliferação de radicalismos, crimes, exploração e desinformação numa escala muito maior.
O mesmo impacto que a imprensa teve no Ocidente no século XV com a impressão de livros, a Internet com portais, sites e as redes sociais também foi impactante no século XXI, mas não conseguiu romper com padrões e pseudo-conceitos oriundos do senso comum, que antes não tinham grande circulação pelo custo de se editar um livro ou revista, mas o acesso que a Internet promoveu àqueles que não tinham espaço e o obtiveram é impressionante, tanto do ponto positivo, quanto do negativo.
Então a saída é acabar com a liberdade na Internet? Imposição de controle? Censura? Kant vivenciou estes problemas na Prússia, hoje na China, Cuba, Irã, Coreia do Norte, Arábia Saudita, entre outros países, pratica-se a vigilância digital, mas ainda assim, existe a resistência, tal qual época de Kant, quando os iluministas perseguidos editavam e publicavam seus livros no exterior e depois os contrabandeavam para de mão em mão, fazer-se conhecer.
Por mais que alguns desejem, a censura e limitação não são o melhor caminho!
Se pensarmos no peso e impacto que a Imprensa (jornais, rádios, TV e Internet) assumiu na sociedade contemporânea, sendo citada como o "4o. poder" manipulando dados, destruindo reputações com rapidez(as reparações são lentíssimas), criando tendências e modismos que são produtos lucrativos aos impérios da comunicação, fábricas, lojas e assim, a frase de Andy Warhol "um dia todos terão direito a 15 minutos de fama" se transformou numa realidade inquestionável. Inclusive, empresas e pessoas vivem e enriquecem a partir da sua imagem, seja na publicidade ou na exibição das redes sociais, tudo vira sinônimo para venda e lucro, de produtos à escândalos, de ensaios profissionais a "nudes acidentais", tudo é produto: gostou? Dê um like!! Compartilhe!!
A mídia, seguindo sua função primordial, "meio de circulação" tem um papel vital na sociedade contemporânea, ao informar a sociedade, porém, o impacto e força foi percebido pelos seus controladores ou por outras forças, como os grupos religiosos, financeiros, políticos e empresariais que buscam divulgar suas crenças e atrair mais adeptos, fato que coloca o papel da comunicação no centro do debate: como é possível aceitar mentiras construídas por instituições privadas ou governamentais? Como, com tanta informação, é possível ser voluntariamente vítima de estelionato religioso que prometem milagres falsos? Como a palavra de blogger, youtuber, apresentador, atriz ou celebridade tem mais força que centenas de estudos de milhares de pesquisadores? 
Um outro alemão, Joseph Göbbels, ministro da propaganda do regime nazista sentenciou muito bem: "uma mentira mil vezes repetida se torna uma verdade".
Na sociedade brasileira contemporânea vivemos um contexto bizarro que se incita a uma postura anti-intelectual, desvaloriza os saberes e seus detentores, prevalecendo o senso comum e um discurso incoerente. Exemplo: o Brasil se caracteriza e assume como um país de matriz predominantemente cristã (86,8% segundo o Censo de 2010 do IBGE) e ao mesmo tempo tem 57% de  sua população defendendo a tese que "bandido bom é bandido morto", segundo pesquisa do Datafolha em novembro de 2016.
Existem avanços na construção de uma visão e modo de vida que valoriza a inclusão, o combate aos preconceitos, à intolerância de diferentes tipos, mas ainda assim, certas posições e visões não se alteram: as mesmas pessoas que vão às ruas protestarem contra a corrupção nas estruturas do Governo, criticando o enriquecimento ilícito e abuso de poder, são aqueles que compram favores, fraudam e sonegam impostos, colam em provas, compram trabalhos e vagas em concursos.
Em suma, pensando na proposição de Kant e na pergunta feita pela Fuvest, ainda estamos na menoridade, eu diria recém-nascidos num berçário e o risco de nos afastarmos da Razão, do conhecimento é grande como muito bem expôs o pintor e gravador espanhol Francisco Goya(1746-1828), numa das gravuras da série "Los caprichos", que se entitula  "O sono da razão produz monstros" e estes tem crescido na forma do autoritarismo, do elitismo, do preconceito, violência entre outros perigos, dessa forma, todo cuidado é pouco. Busquemos a Luz, sempre!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

06 de janeiro: a Epifania de Nosso Senhor

Na cristandade ocidental, o Dia da Epifania comemora-se tradicionalmente doze dias após o Natal, no Dia de Reis em 06 de janeiro. Com a reforma do calendário litúrgico, em muitos países a data celebra-se no domingo entre o dia 2 e o dia 8 de janeiro (dois domingos após o Natal).
A Epifania do Senhor é a manifestação do Filho de Deus no corpo de Jesus Cristo, o momento de revelação de Jesus ao mundo. Esta celebração centra-se na adoração dos três Reis Magos ao Menino Jesus, um símbolo do reconhecimento de Cristo como salvador da humanidade.
Para além deste momento, a Igreja celebra mais duas epifanias. Com especial incidência na primeira, celebram-se três epifanias do Senhor ao longo do ano litúrgico:
  • A epifania aos Reis Magos, pelo nascimento,
  • A epifania a São João Batista no rio Jordão, pelo batismo;
  • A epifania aos discípulos com a boda de Canã, pelo início da vida pública.
Na tradição católico ortodoxa, o dia 6 de janeiro celebra-se a festa da Epifania ou da Teofania. Originalmente, era a única festa cristã da manifestação de Deus ao mundo na pessoa de Jesus de Nazaré. Incluía a celebração do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, a adoração dos Rei Magos e todos os acontecimentos da infância de Jesus como a Circuncisão, a Apresentação no Templo, assim como o seu Batismo por São João no Rio Jordão. É quase certo que esta festa, como a Páscoa da Ressurreição e Pentecostes se entendia como o cumprimento de uma festa judaica, neste caso, a Festa das Luzes (Chanucá).
O tema da Encarnação de Jesus, o qual se desenvolve no vitral central da fachada ocidental  da Catedral de Notre-Dame de Chartres, localizada na região do Eure-Loir, na França. Este vitral é conhecido como a Vida de Cristo. Há provavelmente uma significativa influência dos temas iconográficos ali desenvolvidos com os textos dos Evangelhos de Mateus e de Lucas, uma vez que alguns temas referentes ao nascimento de Jesus não se encontram nos textos de Marcos e  de João.
A dimensão teológica presente neste episódio se dá pela metáfora da luz como o Cristo e nele a salvação, desse modo, a estrela que brilhou excepcionalmente reitera a importância do menino que representa a esperança na Vida Eterna, portanto, a busca dos "reis magos" do Oriente Belquior (ou Mélquior, oriundo da Caldeia, na Mesopotâmia), Baltasar (tido como o mouro, vindo da Arábia) e Gaspar (procedente da Pérsia) representaria o reconhecimento de Jesus como o Messias, e ali identificado como o "rei dos reis". 

A Vida de Cristo - séc. XII
Crédito: Elias Feitosa
Esquema de organização do vitral

Ao observarmos esta baia no sentido ascendente, encontramos nas três primeiras cenas o início do desenvolvimento da Encarnação, apresentando a Anunciação, a Visitação e a Natividade(respectivamente na imagem abaixo da esquerda para a direita), momentos em que a figura de Maria está em evidência devido ao papel que teria de cumprir, tornando-se a mãe de Jesus. O desenvolvimento das cenas segue um ritmo crescente, com o início na Anunciação:
E, estando Isabel no sexto mês, foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão que se chamava José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. E entrando, pois o anjo onde ela estava, disse-lhe: Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo! Ela ficou intrigada com essa palavra e pôs-se a pensar qual o significado da saudação. O Anjo, porém, acrescentou: Não temas, Maria! Achas-te, pois a graça diante de Deus! Eis que conceberás no teu ventre e darás à luz um filho e tu lhe darás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacób para sempre e o seu reinado não terá fim. Maria, porém, disse ao anjo: Como se fará isso se eu não conheço homem algum? O anjo lhe respondeu: O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo vai te cobrir com sua sombra; por isso o Santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus”.[1]
Detalhe da base do vitral "A Vida de Cristo - séc. XII"
Crédito: Elias Feitosa

O texto bíblico nos oferece a principal referência sobre o tema da Anunciação, um momento em que o cumprimento das profecias do Velho Testamento, em especial de Isaías, iriam se cumprir. O evento é uma ligação entre o plano terrestre (Maria) e o plano espiritual (Deus) através de um mensageiro (o anjo) e a realização do poder divino através da concepção sem pecado. A aparição do anjo segue o padrão de algumas manifestações do Velho Testamento, no momento em que Deus teria algo a dizer aos homens e ao invés de fazê-lo diretamente, envia um mensageiro.
Sendo uma epifania, Maria vê o anjo e se assusta, fazendo com que o anjo lhe tranqüilize sobre aquilo que ali ocorria. Esta circunstância influenciou significativamente as representações do tema da Anunciação e no vitral, vemos nos gestos de ambos (de Gabriel e de Maria) a manifestação dos sentimentos de paz e medo, apesar da saudação inicial “Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo!”.
A composição da cena num plano simétrico detém uma unidade através do olhar de ambos que se encontram, onde a ação é controlada pelo anjo que porta um cetro na mão esquerda (semelhante a um cetro real) e com a direita faz o sinal de benção. Maria, por sua vez, retraí o corpo, recuando para perto de um móvel (algo que se parece com uma cadeira) e tem um livro na mão esquerda, enquanto corresponde a saudação com a mão direita. Outras epifanias aparecem na baia, no anúncio aos pastores (cena 4), falando com os Reis Magos (cena 10) e com José para retornar do Egito (cena18). Os anjos ainda aparecem no alto da baia (cenas 25 e 26) reverenciando Maria e Jesus.
Detalhe do vitral "A Vida de Cristo" - séc. XII
Crédito: Elias Feitosa

O episódio da Visitação também ressalta a importância do papel de Maria, qual foi saudada por sua prima Isabel como a “mãe do seu Senhor”, sendo que Isabel também trazia em seu ventre uma criança, João que foi chamado posteriormente de João Batista, primo de Jesus, profeta responsável pelo próprio batismo de Jesus (cena 21).
Maria se encontra presente em vários medalhões e ocupa um papel de destaque na parte superior da baia, onde aparece junto de Jesus enquanto menino, numa posição solene, entronizados no interior da mandorla e ao seu redor anjos simetricamente dispostos.
A posição de Maria e de Jesus no ápice da baia (cena 29 e 30) determina o amplo destaque da figura da Virgem na trajetória de Jesus e, portanto, do próprio cristianismo, pois compõe um conjunto formado inicialmente pela Visitação (cena 2), seguido pela adoração dos Magos (cena 8), depois pela apresentação no Templo (cena 14), posteriormente pelo batismo (cena 21). Toda essa série organiza a parte central da baia e orienta sua composição em direção ao alto, no eixo vertical, sendo que todas as cenas citadas se encontram no interior de círculos perolados de fundo azul.
A composição cromática merece uma atenção especial, pois o tom azul dos círculos se harmoniza com as vestes de Maria em todas as cenas e faz o contraste no espaço dos anjos, que também se encontram vestidos de azul num espaço de fundo vermelho (cenas 25, 26, 27 e 28).
Se o azul aparece nas vestes de Maria e dos Anjos, o mesmo ocorre nas vestes do Cristo, seja na manjedoura, seja na entrada em Jerusalém e por sua vez “revestido” do Espírito Santo pelas também azuis águas do Jordão.  Apesar de chamar a atenção por sua abundância, o azul aparece em outros personagens, muitos anônimos e outros conhecidos como os Reis Magos ou mesmo Herodes.
A Vida de Cristo - séc. XII
Crédito: Elias Feitosa


Nesse caso, a composição formal (alternância de quadrados e círculos) também sai favorecida pela composição cromática que caracteriza as duas figuras geométricas em quase toda a baia (da cena 1 até a 24), tendo seu ritmo alterado pelo ápice que forma um arco ogival e comporta a mandorla em seu centro, como se vê abaixo.

Ápice do vitral "A Vida de Cristo" - séc. XII
Crédito: Elias Feitosa

Ao observarmos a perspectiva axial de organização da baia e a presença da Virgem nessa orientação, podemos apontar o reforço de sua imagem como a Theotókos (Mãe de deus em grego). Tal situação é compreensível se analisarmos o encadeamento de eventos iniciados pelo episódio da Visitação (cena 2) na base do eixo, quando Isabel saúda sua prima Maria e o filho de Isabel, sente como a mãe, a força do Verbo que se fez carne no ventre de Maria. 
Num segundo momento, enquanto os Reis Magos reverenciam o Cristo, este se encontra nos braços da Virgem entronizada, na condição de sua Mãe e guardiã. O papel de Mãe é reforçado durante a apresentação no Templo no cumprimento do costume judaico.
Maria, portanto, aparece como início e o fim da temática iconográfica deste vitral, mas sempre numa condição cristológica que aponta as atenções para Cristo que é o elemento central, reforçando por sua vez a dimensão de Maria como metáfora da "Mater Ecclesiae", a "Mãe Igreja" que protege seu filho e intercede junto a Ele, levando os pedidos e súplicas dos homens.



[1] Bíblia de Jerusalém - Lc 1: 26-35

domingo, 1 de janeiro de 2017

Por que o ano começa no dia 1 de janeiro?

Relógio Astronômico de Praga construído em 1410 por Nikolaus de Kadem na torre da Prefeitura.
Crédito: Elias Feitosa



O ano novo chinês é comemorado em uma data variável entre os meses de fevereiro e março do nosso calendário gregoriano. O ano novo nos países orientados pelo calendário islâmico começa no mês de Muharram, também em data variável, que em 2016 caiu em 1o. de outubro, quando teve início o ano de 1438 da era da Hégira. Na Índia, o ano novo também foi comemorado em novembro passado, na primeira lua nova do mês de Kartika, embora, como no caso dos judeus, entre outros, o mês em que se festeja o ano novo não seja necessariamente o mesmo em que começa oficialmente o calendário, o que mostra que a os povos levam em consideração como passagem de ano é um fenômeno cultural relativamente independente das definições oficiais ou dos ajustes astronômicos que possam existir por trás delas. Apesar da predominância global do calendário gregoriano, adotado inclusive na China desde 1912, continuam a ser muito diferentes as datas e as maneiras como as diversas sociedades encaram o fim e o início de seu ciclo anual. O 1 de janeiro é apenas uma das alternativas.

Para que hoje tenha se tornado possível comemorar o ano novo em 1 de janeiro, teve de existir, antes, o próprio mês de janeiro, que, segundo Plutarco, foi acrescentado ao calendário de Rômulo por seu sucessor, Numa Pompilio, no século VIII antes de Cristo. O calendário utilizado em Roma até então tinha 10 meses lunares e começava na primavera, na lua cheia mais próxima do equinócio de março (os idos de março). Esses 10 meses marcavam um ritmo dificilmente ajustável ao das estações e do ciclo solar, que tinham uma importância evidente para a atividade no campo e haviam sido adotados anteriormente pelos egípcios. Para que houvesse um ajuste melhor, Numa acrescentou o décimo-primeiro mês, ianarius, e o décimo-segundo, februarius. O mês de fevereiro recebeu seu nome das festas de preparação da primavera, chamadas Februa (limpeza, purificação), que, com o tempo, passaram a fazer parte das celebrações das Lupercales. O mês de janeiro, no entanto, diante da ausência de uma referência concreta, foi dedicado ao deus Jano, cujo culto foi ativamente incentivado por Numa. Ainda assim, apesar de ter doze meses, o ano romano continuou a começar na primavera até 153 a. C, um século antes da reforma do Calendário Juliano.

Até 153 a. C., os cônsules romanos eram nomeados anualmente pelo Senado nos idos de março, o começo do ano. No entanto, em meio à eclosão da segunda guerra celtibera e declarada a guerra à cidade de Segeda, o General Quinto Fulvio Nobilior pediu ao Senado que se antecipasse a data das nomeações. A fim de poder antecipar o transporte das tropas e preparar a campanha militar para a primavera. A população de Roma continuou a comemorar os idos de março da mesma forma, entre outros motivos pela abundância de atividades religiosas concentradas nessas datas. No entanto, o Senado atendeu ao pedido dos cônsules e, pela primeira vez, o começo do ano foi oficialmente transferido para o período de janeiro (na primeira lua nova do mês), quando os cônsules tomaram posse de seus cargos, dando início, desde então, à contagem do ano. Daí a lenda de se atribuir aos celtiberos (ou aos hispânicos de maneira geral) o mérito de terem alterado o calendário mais importante de sua época e determinante, também, para os calendários que se sucederiam. Com janeiro abrindo o ano (em vez de ser o décimo-primeiro mês), reformou-se o calendário de Roma, que deu lugar, em 46 a. C. ao calendário Juliano, organizado pelo sábio Sosígenes de Alexandria e que deve o seu nome a uma homenagem a Julio Cesar. Esse calendário seria adotado em alguns países da Europa até o começo do século XX, especialmente entre aqueles de maioria religiosa Ortodoxa. Na Rússia, por exemplo, ele só foi substituído após a Revolução de 1917; na Grécia, último país a abandoná-lo e a adotar o calendário civil atual (Gregoriano), ele foi usado até 1923.

No entanto, apesar da importância de Roma e de sua cultura em toda a Europa, em boa parte do continente a preferência na hora de comemorar o começo do ano recaía sobre outras datas. Se em Roma e no Mediterrâneo, o Ano Novo se comemorava na primavera, os povos do norte preferiam fazê-lo no inverno. Ao compararmos as duas latitudes, cabe lembrar que a diferença de estações entre o sul temperado da Europa e o Norte frio impunha uma diferença muito grande no modo de vida, a começar pelo ritmo do trabalho no campo, mas também na caça e no pastoreio. Dessas diferenças, surge uma experiência muito diversa do ciclo anual. Um exemplo disso é o fato de que no norte, inclusive depois da adoção generalizada do calendário Juliano imposta por Carlos Magno no século VIII, o ano continuou sendo dividido principalmente em duas estações, a de Skammdegi (dias curtos) e a de Náttlevsi (dias sem noite), como a elas se referiam os islandeses. Nesse contexto, era comum que o início do ano coincidisse com as celebrações do inverno e, em particular, o Samain (1 de novembro), o início da estação escura, porque os ancestrais se recompunham sob a neve e voltavam na escuridão. E esse acontecimento devia ser marcado com os festejos e rituais adequados.

Apesar da mudança formal do ano de 153 a. C., posteriormente consolidada pela reforma juliana, não só os romanos mantiveram os festejos da primavera como também, na Roma já cristã e, posteriormente, na Europa medieval (e também cada vez mais cristã), ainda houve resistência a se comemorar o começo do ano no primeiro dia de um mês dedicado a um deus pagão. Houve quem tenha tentado mudar os nomes dos meses, como Carlos Magno, que propôs uma versão juliana com os nomes germânicos, baseados principalmente em fenômenos climáticos ou em atividades do campo. No entanto, os filhos cristãos dos antigos pagãos europeus, ao norte e ao sul, continuaram a dar uma importância fundamental para as questões religiosas na hora de saudar o começo do ano; assim, raramente a preferência geral para o ano novo era o 1 de janeiro. A cristandade estabeleceu vários critérios que foram utilizados às escondidas, discretamente, por diversos reinos e populações.

Na era cristã, instituída por Dionísio o Exíguo, o ano novo podia começar em 25 de dezembro, 25 de março ou no domingo da Ressurreição, dependendo de como essas datas coincidiriam a cada ano, pois é uma data variável que depende da definição da Páscoa de acordo com o calendário judaico. Em Veneza, o ano também podia começar em 1 de março, seguindo a tradição romana mais antiga, e nas regiões do Império Bizantino o início do ano se comemorava em 1 de setembro. E como se não bastasse, houve também quem quisesse comemorá-lo em 1 de janeiro, como os francos preferiam fazer até o século VIII, sob o reinado dos merovíngios. Essa data, herdeira do calendário romano, foi cristianizada como o dia da Circuncisão e santificada como começo do ano cristão também pelos reinos cristãos do norte da Península Ibérica. No século XIII, porém, no reino de Navarra se adotava a data do Domingo da Ressurreição. Com o tempo, parece que tanto Aragón quanto Castilla começaram a usar como início do ano o dia da Anunciação, o 25 de março, data antes mais conhecida como da Encarnação. Sabemos, porém, que, em 1350, Pedro IV de Aragón proibiu esse uso e definiu o dia do Natal, 25 de dezembro, como o ano novo oficial. E o mesmo foi adotado em Castilla entre os séculos XIV e XV. Por fim, e em parte devido ao êxito de sua expansão para a Europa desde o século XII, no século XVI o reino da Espanha adotou o dia da Circuncisão como a data do início do ano. Desde então, comemoramos o ano novo no dia 1 de janeiro.

Todas as culturas reconhecem uns ou outros ciclos. Em diferentes lugares do planeta, a natureza tem ciclos diversos. Nós, seres humanos, temos os nossos e, é claro, o sistema solar também tem os seus. Talvez a visão dos astrônomos, dos mais antigos aos mais modernos, tenha tendido a valorizar principalmente os ajustes de calendário relacionados à lua, ao sol, ao zodíaco e a efemérides como os eclipses. No entanto, as comemorações populares foram variando com uma certa autonomia em relação às definições mais formais e especializadas estabelecidas por astrônomos e sábios. Do ponto de vista da cultura popular, o próprio ato de festejar, assim como o comportamento ritualístico, os mitos e os símbolos que o acompanham também apresentam o seu próprio caráter cíclico e explicações específicas para o início e o fim das coisas. A história de cada povo, as crenças religiosas, os eventos políticos e a memória coletiva conformam as texturas características que enriquecem a uniformidade astronômica com o repertório criativo da diversidade humana.

Fonte: Jornal El País. Edição de 01/01/2016 - Mônica Cornejo Valle é professora de antropologia das religiões na Universidade Complutense de Madri.