As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de novembro

sábado, 8 de julho de 2017

Racismo e violência: a trilha da Ku Klux Klan no filme "Mississipi em chamas"




O filme de Alan Parker apresenta as sutilezas de uma sociedade racista, em que negros vivem sujeitos a uma série de atrocidades, como por exemplo, tendo direito a voto, mas não sendo esclarecidos ou estimulados a se organizarem para exigirem seus direitos. Neste ambiente de segregação legitimada pelas leis locais, evitam contribuir com os investigadores que se propõem a quebrar o status quo, do qual faz parte o poder local (xerife, juiz, prefeito, ), muitos deles integrantes da Ku Klux Klan, grupo extremista branco que defendia a supremacia branca que se sustentava no ideal "WASP": White, Anglo-Saxon and Protestant, ou “Branca, Anglo-Saxã e Protestante, acompanhado de métodos terroristas.
Deve-se perceber como o discurso discriminatório, que visualiza os negros como seres "inferiores", indignos de qualquer respeito à dignidade humana, manifestava-se arraigado na população branca como um todo, como dissera a personagem Mrs. Pell ao agente Anderson: "o ódio lhes é ensinado cotidianamente. Gênesis 9:27". A citação desta passagem bíblica é uma alusão ao momento que Noé amaldiçoa e expulsa seu filho Cam, cujos descendentes, representando a África seriam escravos dos descendentes de seus irmãos Sem (o "pai" dos asiáticos) e Jafé (quem "originou" os europeus) numa peculiar interpretação que naturalizava e justificava a escravidão. 
O ambiente de opressão e terror pode ser identificado quando perseguem um jovem negro pelo simples fato de ter conversado com os agentes do FBI ou mesmo quando seu irmão mais novo tenta romper o silêncio mantido sob ameaças, e é desautorizado pelo pai, que era pastor, que temia a vingança dos membros da Klan. 
A chegada dos investigadores do FBI pode ser entendida como um exemplo da tensão política daquele contexto, pois eram agentes desestabilizadores e estimuladores da mudança de paradigma, um embate claro entre o Governo Federal e os interesses da política local, onde a segregação era preservada num ambiente de tensão e terror, que desestimulava as queixas e qualquer tipo de intervenção – lembrando que as leis de segregação tinham sido construídas dentro do amparo do federalismo e deveriam servir para reafirmar os "valores do Sul", derrotados em 1865.
No entanto, entre os próprios agentes federais havia uma significativa tensão: ordem versus realidade, respectivamente, os agentes Ward e Anderson: o primeiro representa o cumprimento estrito do regulamento para a aplicação da justiça quase como se fosse um cavaleiro medieval, enquanto o segundo, já se coloca com a vivência de ser um sulista de uma pequena cidade do Mississipi, que também fora xerife, conhecendo os meandros daquele universo cultural repleto de segredos. Outra discussão posta em evidência é o fato de serem policiais brancos que vão salvar os negros, os quais estariam aparentemente num estado de passividade.
Se levantarmos a hipótese de que, naquele contexto tenso, seria muito complicado destacar agentes negros para resolver um crime que envolvia um pesado sentimento de ódio numa região historicamente racista, pode-se pensar que a dupla de agentes não estaria ali apenas como um dado do roteiro que reiteraria o racismo, mas como parte de uma estratégia plausível para uma questão tão delicada. No entanto, cabe destacar que os métodos de investigação inicialmente adotados pelos agentes federais, não conseguiram  ser eficientes e aí, a voz de Anderson, com sua vivência e experiência de "nativo sulista" acompanhada da ausência de escrúpulos provocou a virada para o desfecho da investigação com a anuência do agente Ward e assim, a ordem teve que ceder um pouco de espaço para a desordem e nessa composição, os resultados foram proveitosos.
A narrativa do filme percorre um ciclo de grandes tensões e dores, porém apresenta uma fotografia e sonoridade de grande arrebatamento ao longo de diferentes tomadas, com destaque ao spiritual, gênero que nasceu com as cantigas de escravos nas lavouras, se tornou referência para o louvor cristão das igrejas dos negros e concomitantemente, base do soul e do blues e posteriormente, da batida do rock in roll nas décadas de 1950-60.
Vale destacar a poética circunstância que ata a primeira e a última cena do filme: no início do filme, um branco e um negro tomam água em bebedouros separados e ao fim do filme, brancos e negros rezam juntos numa igreja que fora destruída e aí talvez esteja a chave para o início da solução do problema do racismo: somos todos seres humanos, sem distinção!

Os lichamentos











As raízes da tensão "Sul X Norte"


O embate político e econômico entre norte e sul recebeu um destaque maior com a eleição dos representantes no Congresso para as novas áreas, pois o sul pretendia expandir a escravidão para o oeste, enquanto o norte pretendia ampliar as regiões com trabalho livre. A solução seria alcançada quando um dos grupos políticos obtivesse o controle do governo e a maioria no Congresso com seu partido.
As eleições de 1860 foram vencidas pelo republicano Abraham Lincoln, fato que representou uma ameaça para os interesses do sul. Devido a isso, 11 estados escravocratas do sul romperam com o governo de Lincoln e declararam independência, criando a República dos Estados Confederados da América, tendo a cidade de Richmond (Virgínia) como capital e Jefferson Davis como presidente.
O conflito contou inicialmente com vitórias dos confederados que se encontravam sob a liderança do general Lee, mas o norte, cujas forças eram lideradas pelo general Grant (que depois foi presidente dos EUA entre 1869 e 1877), controlava a indústria bélica e também a maior parte da Marinha, de modo que a União impôs um bloqueio aos portos confederados, dificultando a exportação de seus produtos (algodão e tabaco) e cortando seu abastecimento de material bélico e outros gêneros pelo exterior.


Bandeira dos Confederados


As dificuldades de abastecimento e a superioridade do exército da União reverteram a guerra. Pensando em encerrar o conflito o quanto antes, Lincoln aboliu a escravidão em todo o país em 1863(assinou um decreto de acordo com seus poderes extraordinários durante o contexto da guerra), mas a guerra só terminou em 1865, quando as tropas confederadas capitulavam em Appomattox. Os resultados foram a devastação das terras do sul, 600 000 mortos e a consolidação da hegemonia do norte sobre todo o país. Em janeiro de 1865, o Congresso dos EUA aprovou com uma margem de apenas 02 votos a 13ª Emenda à Constituição, que extinguiu em definitivo a escravidão em todo o país. No entanto, Lincoln não pôde comemorar a vitória, pois foi assassinado pelo sulista John Wilkes Booth quando assistia a uma peça no Ford Theater, em Washington, em 14 de abril de 1865, tornando-se uma espécie de mártir da defesa da nação e tendo posteriormente recebido um memorial em Washington, inaugurado em 1922. 

A resistência silenciosa e radical



Apesar da derrota, o ideal racista não desapareceu. Organizou-se a Ku Klux Klan (derivado do grego kuklos, que significa círculo, e assim temos “o clã do círculo”, cujos integrantes usavam uma túnica com o desenho da cruz celta, uma cruz dentro de um círculoum movimento formado por ex-oficiais confederados e outros que não aceitavam a integração dos negros à sociedade estadunidense, que se valeu de todo tipo de crime (espancamento, estupro, assassinato, incêndios e sequestros) para instaurar um clima de terror entre negros, mestiços e simpatizantes da causa negra.

A herança do ideal dos Confederados


No período de reconstrução do país, intensificou-se a industrialização, favorecendo a continuidade da expansão territorial graças também ao grande contingente de imigrantes. Em pouco tempo, a extensão do parque industrial, fruto da ênfase do governo na ampliação das fábricas e na exploração dos diferentes recursos naturais, bem como a implantação de ferrovias e portos abriram caminho para os EUA se consolidarem como potência regional e, depois de 1914, mundial, ocupando gradativamente o lugar da antiga metrópole, a Grã-Bretanha.
Os negros precisaram esperar mais um século para ter igualdade de direitos com os brancos, e não foi um processo pacífico. Nos estados sulistas, havia um violento sistema de segregação racial: negros não podiam frequentar os mesmos lugares que os brancos (escolas, transporte coletivo, praias, banheiros etc.) e essa situação só começou a ser combatida nos governos de John Fitzgerald Kennedy (1961-1963) e Lyndon Johnson (1963-1968), sob uma intensa pressão do movimento negro, que viu assassinados líderes como Malcom X (1965) e Martin Luther King (1968), respectivamente à esquerda e à direita.


A luta pela igualdade avançou em diferentes frentes, inclusive com a movimentação que quase se direcionou ao enfrentamento armado com os Black Pathers em grandes centros urbanos como Chicago e Nova York. A agenda altamente politizada não só pela causa dos negros, mas pelas relações com o marxismo levaram à perseguição por parte do FBI, entre 1968 e 1980, provocando sua gradativa desmobilização.
O protesto político nas Olimpíadas de 1968, no México: Tommie Smith e John Carlos, medalhistas dos EUA, celebrando com o sinal do "punho cerrado", a marca dos Black Panthers.


A filósofa Angela Davis: intelectual integrante dos Black Panthers e do Partido Comunista dos EUA, foi perseguida e presa em 1970, hoje atua como uma das mais importantes referências do pensamento feminista contemporâneo.


A ascensão de significativa relevância só se deu ao final do governo Bush(2001-2008) foi marcado pela tentativa de superar a crise financeira e social, buscando conservar os republicanos no poder com o candidato John McCain, mas o candidato democrata Barack Obama venceu as eleições de 2009 representando um novo momento da história dos EUA: foi o primeiro afro-descendente a ser eleito presidente da República e sua perspectiva foi restabelecer o equilíbrio social e econômico dos EUA.
Mesmo depois de tantas lutas e dificuldades, a sociedade estadunidense ainda convive com o racismo. Mesmo estando hoje atenuado, ele subjaz aos ditos “valores nacionais”, que procuram excluir também os imigrantes – ilegais ou legais – de várias origens que vivem no país. Ao mesmo tempo, os EUA ainda continuam querendo ser reconhecidos pelo mundo como “a terra das oportunidades”, fato que pode ser rompido em graus bastante profundos com a eleição do republicano Donald Trump(2017-2020) e as projeções que se colocam no horizonte infelizmente não apontam para um progresso, porém, nos cabe acompanhar com bastante atenção.

Sugestão do Gabinete:

Mississipi em chamas. Direção Alan Parker, 1989, 128 min:


Marcha das Mulheres 2017